cappaaa
Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin

A brisa do oceano chega com o alvorecer e desencadeia mais um dia no cotidiano carioca. O verão não tem dado trégua, noites quentes e amanhecer mais cedo, o ar morno da manhã somente era cortado pelo ar fresco que vinha do mar.

Wei Xian estava em frente ao espelho ajeitando o nó de sua gravata, pensando no quanto acordou disposto, apesar de ter ido dormir depois da 1 da manhã conversando com Alex. Esboçou um leve sorriso recordando do jeito engraçado do rapaz. Ao terminar de se arrumar, saiu do quarto e foi recepcionado por MianMian que não pensou duas vezes em pular para se agarrar em sua cintura.

— Baba~~

— Bom dia, tùzi (coelhinha). – Brincou com a filha e caminhou para a sala de refeições segurando sua pequena mão. – Perdoe seu baba, não cumpri com o prometido. – Sentou-se e esperou que a pequena se sentasse.

— Baba, não cumpriu e estou muito chateada… – MianMian estreitou os olhos e fez um beicinho.

— Hoje eu serei só seu depois do trabalho como prometido.

A menina ainda o olhava desconfiada, mas depois sorriu com a careta que Wei Xian lhe fez.

— Baba é bobo, ok!!! – A menina pegou seus palitos e começou a beliscar sua refeição matinal.

Beth apareceu na sala trazendo alguns itens para o dejejum a mais que o normal, Xian que já estava comendo olhou aqueles pratos extras e virou a face para a sua empregada com olhar questionador.

— Não adianta me olhar assim sr. Wei, vai comer pelo menos um pedaço de cada um aqui. – Beth apontou para um bolo amarelado que Xian nem fazia ideia do que era. – Cuscuz com manteiga, é feito de farinha de milho e é bem reforçado.

— Beth, não vou conseguir comer tudo isso, eu… – Xian olhou para a mulher e percebeu que não adiantaria argumentar. – Ok, bem que seu sobrinho avisou… – Cortando um pedaço colocou no prato e derramou a manteiga. – Você não vai me dar sossego.

— Não mesmo, já tomou o remédio? – Beth olhava séria para Xian.

— Sim. – Xian se inclinou para comer um pedaço daquele cuscuz. – Hum… – Abriu ligeiramente os olhos surpreso com sabor. – É bom…

MianMian riu baixinho.

— Eu quero baba.

— Cuscuz com manteiga de garrafa é a melhor refeição da manhã, vai ficar satisfeito até a hora do almoço, que por sinal vai levar de casa. – Beth caminhava de volta para a cozinha quando voltou com uma frasqueira preta de couro, colocou na mesa e abriu. – Térmica vai conservar a refeição até o almoço e se ficar fria só esquenta no micro-ondas.

Xian olhava para ela e a frasqueira. Pensando que realmente a sua empregada não vai lhe dar paz.

— Eu admiro seu trabalho em cuidar de mim, mas Beth eu almoço na empresa e além do mais…

— Nada disso comida de rua e restaurante não dão sustento. – Apontando para os potes de vidros com tampas coloridas continuou decidida. – Tudo que tem aí é para comer, se voltar algo amanhã faço o dobro.

Xian arregalou os olhos e sorriu de nervoso.

— Muito bem, seja um patrão bonzinho e cuide de sua saúde. – Beth sorriu satisfeita.

— Ok.

MianMian ria de toda a cena enquanto Xian olhava sério para ela.

— Tùzi está rindo, você vai ver…

— Baba é engraçado… – Pequena tinha suaves gargalhadas.

Nesse momento a campainha da porta da cozinha tocou, Beth estranhou alguém vir tão cedo e foi para a porta resmungando.

Xian e Mianmian continuaram a comer, experimentando cada um dos pratos na mesa.

— Bom dia Sr. Wei. – Alex aparecer na porta da sala com seu sorriso arteiro. — Bom dia MianMian.

— Bom dia, tio Alex.

— Alex caiu da cama? O que está fazendo aqui a essa hora, 8 da manhã? – Beth olhava desconfiada o sobrinho.

— Qual é tia? Sr. Wei disse que eu podia vir… – Se aproximou da mesa e olhou para a quantidade de coisas que a tia preparou. – Hahahahaha, começou cedo.

— Sr. Wei, não tem que dar brecha para esse aí, se der espaço o folgado abusa.

— Tia, queimando meu filme com sr. Wei? – Alex cruzou os braços inclinando a cabeça para a tia. – Deixa ele descobrir sozinho hahahaha…

— Come conosco Alex? – Xian olhou Beth. – Sua tia fez refeição para uma festa.

— Só quero um gole de café, vou trabalhar no terraço do Alvorada, com a “lua” que está lá fora, é pedir para passar mal se eu estiver de barriga cheia. – Alex sorriu percebendo a expressão de Xian que nitidamente não entendo.

— É modo de falar, carioca fala assim quando o sol está castigando como hoje. – Sorriu enquanto tomava o gole do café. – Ainda bem que trabalha no ar-condicionado Sr. Wei.

— E você se cuida Alex, trabalhar no sol quente precisa beber muita água. – Beth ajeitava a mochila de MianMian.

— Tranquilo, tia, vacilo não…

Xian olhou a hora na tela de seu smartphone e se levantou.

— Está na hora, vamos MianMian, tenho que te deixar na escola. – Xian olhou para Alex e disse. – Quando terminar seu serviço vai para faculdade?

— Sim, tenho aula às 14 h.

— Beth fez muita comida. – Olha para ela e disse: – Sirva seu sobrinho na hora do almoço.

Alex sorriu e olhou para a tia.

— Sr. Wei que disse… – Estendeu a mão para cima e se levantou da mesa.

— Sentando-se na mesa do patrão e ainda ganha refeição, é muito abuso, te contar hen… – Beth olhou a frasqueira na mesa e ralhou com Xian. – Está esquecendo nada não sr. Wei?

Wei Xian fez meia volta e pegou a frasqueira com uma leve careta em seguida a mochila de MianMian.

— Vamos, filha. – Olhou para a dupla e suspirou vendo que Alex se divertia com a cena. – Vai rindo… – Estreitou os olhos voltando para a porta. – Bom dia para vocês.

— Bom trabalho sr. Wei. – Alex olhou para a tia e se encolheu quando ela veio lhe dando uns tapas no braço. – Caraca, tia, por causa de que está me batendo?

— Esse seu jeito, abusado, todo cheio de intimidade com meu patrão… – Beth apontou a porta da cozinha. – Some daqui Alex, juro que ligo para sua mãe e conto que você está “dando” em cima do Sr. Wei.

— Que?! Eu não estou fazendo nada disso, só estou sendo educado e ele me deixou vir. Aliás tia, antes da aula na faculdade vou tomar um banho, trouxe roupa limpa… – Sorrindo pegou a mochila quando entrou na cozinha indo para a porta de saída. – Vou usar seu banheiro.

— Alex, Alex… Tu não fica de intimidades com sr. Wei…

— Tia está preocupada atoa… – Beijou a bochecha dela e saiu fechando a porta em seguida.

✽ • ✽

Han Zhan caminhava pela calçada na Av. Rio Branco, indo em direção a entrada do prédio comercial que presidia a empresa Jiang, ao chegar ao hall de entrada caminhou até a fila que levava ao elevador. Quando chegou sua vez de entrar e as portas se abriram se deparou com Xian que vinha do andar da garagem.

Os olhares se encontraram e foi Xian o primeiro a desviar, se afastando para o canto deu espaço tanto para Zhan quanto para mais pessoas entrarem.

Zhan parou ao seu lado e continuava olhando-o, por fim notando que Xian não parecida à vontade com ele resolveu dar um passo para o lado oposto. Na verdade, não pode se afastar muito, afinal estava com bastante pessoas.

— Wei Xian, desculpa incomodar… – Zhan começou a falar em mandarim.

— Eu não tenho o que falar com você nesse momento. – Xian respondeu em um tom seco.

Quando o elevador chegou ao andar dele, os dois passaram para saltar. Xian andou um tanto mais a frente continuando a falar em mandarim.

— Vamos nos restringir ao trabalho. – Continuou a caminhar cumprimentando todos com bom dia ao passar.

Zhan caminhou mais lento e por fim parou ao lado de sua mesa. Olhando Xian entrar em sua sala, suspirou chateado e se sentou na cadeira em frente a sua mesa, abriu o computador e se preparou para mais uma rotina estranha e sem sentido.

“Talvez, Bel tenha razão… Eu deveria me afastar, mas quando penso nisso, meu coração fica apertado… Melhor trabalhar e não pensar muito…”

Naquela manhã, como previsto o novo executivo chegou a empresa, reunidos na sala de Cheng, Wei Xian e Huaisang conversavam, esta na hora do almoço e Xian tinha a tal frasqueira na mão.

— Vamos dividir? – Xian a abriu sobre a mesa de reuniões. – Beth acha que como mal e pouco e preparou um banquete para mim. – Olhou implorando para Cheng comer com ele. – Come comigo? Tenho que levar de volta vazio.

Cheng desconfiou disso, mas concordou de certa forma que Xian comia muito pouco.

— Sua empregada não está errada, você parece passarinho beliscando besteiras o dia todo. – Cheng examinava as vasilhas tentando identificar as iguarias brasileiras. – Comida brasileira?

— É, me ajuda a comer.

Huaisang estava de pé olhando pela janela pensativo.

— Xian, ele não se lembra de nada?

Wei Xian olhou para o outro e virou os olhos já cansado de repetir a mesma coisa.

— Wang não lembra de nada Huaisang. – Cheng que acabou respondendo um tanto impaciente. – Para de ficar tentando achar justificativas e vamos almoçar, sua tarde está repleta de serviços e claro você vai ser assessorado pelo sr. Han. – Cheng se aproximou em tom bem sério ameaçador. – Nada de ficar falando de passado dele, nem de Xian e nada relacionado a isso, entendido?

— Credo os dois, como não falar disso? – Huaisang se sentou na cadeira e pegou um como para beber água. – E se ele perguntar? – Abriu seu leque e começou a se abanar. – Que lugar quente, minha nossa! Esse ar-condicionado não está funcionando.

Cheng voltou a sentar e puxou um dos pratos e pegou palitos.

— Estamos em uma situação complicada, apesar de Wang ser útil, eu acredito que logo ele sairá. – Cheng olhou no canto dos olhos para Xian. – Afinal, Lan Huan está no Brasil e junto com o Lan QiRen na China estão regularizando a documentação dele.

— Na China, todo meio coorporativo só fala nisso, “o herdeiro do império Lan que estava desaparecido foi encontrado”. – Huaisang ainda insistia no assunto.

Xian comia um tanto contrariado com aquela conversa, estava quase largando tudo e abandonando a dupla indo se trancar na sua sala e só sair de lá no final do expediente.

— Huaisang, sr. Han vai lhe assessorar a partir de hoje, então segue o combinado e tudo vai dar certo. – Cheng notava a mudança de humor de Xian. E para distrair resolver perguntar sobre as comidas brasileiras que ele trouxera. – Xian o que isso? – Apontou para uma das vasilhas.

Xian se inclinou e leu o rótulo.

— Pirão de peixe.

— Hum… – Cheng pegou uma colher e serviu um pouco em sua tigela junto com arroz, quando provou achou saboroso. – Prova Xian é bem gostoso.

O trio continuou a refeição enquanto Cheng instruía Huaisang. Pouco tempo depois Xian terminou de comer e se levantou para ir ao banheiro e escovar os dentes para voltar a sua sala continuar seu trabalho.

No caminho para a sua sala, Xian e Zhan voltaram a se esbarrem, a troca de olhares e novamente Xian desviou baixando a cabeça para entrar no escritório.

Zhan seguiu para sua mesa e guardou sua bolsa de mão, voltou ao notebook e continuou seu trabalho esperando pelo seu chefe a hora que deveria começar a assessorar Huaisang.

Xian entrou na sala e ofegou algumas vezes, ainda estava muito irritado com a conversa de Huaisang, se sentou e nesse instante duas batidas na porta lhe chamou atenção.

— Entre.

Zhan abriu a porta e ao entrar tinha uma pasta na mão. Xian olhava a tela de seu notebook quando estendeu a mão para pegar a pasta.

— Preciso assinar?

— Sim, sr. Wei.

— Ok, já leio e assino. – Xian voltou atenção ao seu notebook.

Zhan estava ainda parado olhando para Xian, seus olhos tinham um brilho entristecido, foi quando resolveu falar novamente em tom baixo.

— Xian.

Wei Xian fechou os olhos e suspirou, ao abrir os olhos fitou Zhan não escondendo sua irritação.

— Algum problema sr. Han?

— Eu acredito que sim, afinal sr. Wei está bastante irritado. – Zhan ainda tinha o olhar triste, mas sua resposta saiu fria tal como sua face séria.

— Estou lotado de trabalho, uma transferência em meio a uma expansão da montadora só trouxe dor de cabeça… Não é para ficar irritado?

— Eu não acho que seja só o trabalho, quer que eu saia da empresa? – Zhan apontou a pasta. – Só assinar, afinal eu sou ilegal e meus documentos são falsos. – Abaixou a mão e continuou. – Resolve esse problema com sua assinatura.

Wei Xian engoliu seco com a forma que Zhan o intimou, confuso e baixou o olhar fitando a pasta ao lado do notebook. Sua cabeça girou levando uma das mãos a testa falou sem pensar.

— Eu assinar sua demissão, não muda nada sr. Han, como eu disse estou tendo que remanejar um monte de decisões e colocar prontas para Huaisang continuar…

Zhan colocou as mãos nos bolsos, ele começou a sentir uma leve tremedeira e para controlar preferiu usar esse artifício.

— Por que estão transferindo-o sabendo que é enorme transtorno para o andamento da montadora?

Xian voltou a esfregar uma das têmporas quando se levantou e andou pela sala falando em um tom ríspido.

— Sr. Han é decisão interna, não tenho que lhe passar esse tipo de informação, agora como Cheng lhe falou, no momento você é necessário para assessorar Huaisang. – Xian não encarava Zhan enquanto falava. – Então, isso não tem a ver com você, são negócios que não podem parar… – Se espantou ao ver a proximidade de Zhan que o encarava tão perto que podia sentir o aroma de seu perfume.

— Tem a ver comigo sim, só me pergunto por qual motivo ou o que eu fiz para você ficar agressivo e irritado comigo?

Xian engoliu seco dessa vez ele não conseguia desviar o olhar e seu corpo estremeceu. Aproximação de Zhan o deixava tonto e mal conseguia pensar.

— E-eu… – Ofegou novamente, tremulo esbravejou empurrando Zhan. – Acha que tudo roda em torno de você…

— Xian, por que está agressivo? Me diga, o que fiz? – Zhan segurou Xian pelo braço o forçando a encará-lo novamente.

— Solta meu braço. – Xian intimou falando entre os dentes.

Zhan o soltou imediatamente.

— Desculpa.

— Vá trabalhar Sr. Han.

Zhan não estava satisfeito e voltou a questionar Xian.

— É sobre nosso passado, certo?

Xian já não aguentava mais quando explodiu falando em mandarim sem parar.

— E se for, o que você vai fazer? Ah! Eu tenho uma nova família, sou noivo e vou ser pai. – Andou até sua mesa e pegou seu smartphone. – Não existe mais nada de “nós”, o que existe é o Sr. Han Zhan que prefere ser chamado assim e pouco ligou para ser chamado de Lan Wang. Para mim está bem claro que não existe mais passado e nem nós. – Xian se virou para sair de sua sala. – Sr. Han a partir de hoje não é mais meu assistente, vá se apresentar para o sr. Huaisang na sala sete. – Abriu a porta e saiu, ao passar pelo corredor informou a Jessica que não retornaria mais a empresa.

Zhan ficou parado no meio do escritório, seu corpo tremulo denunciava que a crise de ansiedade estava vindo, sentiu suor frio e tonteira. Tirando as mãos do bolso se escorou na cadeira e expirou e inspirou várias vezes. Precisava se controlar para poder voltar a sua mesa e pegar o remédio, sem deixar transparecer o que estava acontecendo.

Alguns minutos depois, conseguiu sair da sala e ir para sua mesa, tomou um comprimido com água e esperou até sentir-se melhor.

O restante da tarde Zhan trabalho com Huaisang, ele entendia que havia um certo tabu formando entre os seus chefes. Tocar no assunto do passado era o que perturbava Xian e com isso Cheng e Huaisang evitavam falar.

Zhan não entendia, mas de algum modo podia sentir toda dor de Xian gritando, cada palavra dita carregava enorme tristeza.

“O que eu faço?”

Era final de tarde, Zhan estava na plataforma da estação de metrô esperando, Wei Xian realmente não voltará mais naquele dia para trabalhar. Na manhã seguinte, Zhan mudaria para o andar onde ficava a sala de Huaisang e possivelmente não veria Xian com muita frequência.

“Não posso abandonar tudo, nem eu sei quem sou… Xian, só queria que voltássemos ao menos sermos amigos…”

Continua…

 

Atenção: A Widcyber tem a autorização do autor para publicar este conteúdo.

NAVEGAR

Pesquisa de satisfação: Nos ajude a entender como estamos nos saindo por aqui.

Você também poderá gostar de ler:

>
error: Este conteúdo é protegido! A cópia deste conteúdo não é autorizada em virtude da preservação de direitos autorais.
Rolar para o topo