Os dois lado da moeda: é bandido ou justiceiro? 

Trinta e três anos se passaram e quase nada mudou daquela realidade carente em vila de São Cristóvão, exceto para a família de Seu Romão que sua fama de pistoleiro havia se espalhados pelos sertões de Alagoas e atravessando aos outros estados. Com o dinheiro que ganhou durante esses longos anos com a pistolagem conseguiu melhorar um pouco a vida de sua família que antes morava numa casinha de reboco que mal conseguia ficar em pé e que se tornou em comparação as demais casas da região um verdadeiro palácio. A casa da família do Seu Romão estava revestida com piso de cerâmica vermelha, as paredes com gessos e pintadas de branco, portas de madeira pintadas de azul que se dividem ao meio, alguns móveis que antes não existiam e dois fatores principais: a comida na mesa e um poço d’água artesanal.

Naquela manhã dentro da sala da casa a dona Maria do Céu se encontrava ajoelhada em frente a parede onde permaneceu o mesmo quadro antigo do Sagrado Coração de Jesus Cristo e da Virgem Maria e a foto do Padre Cícero e a novidade era a imagem de Nossa Senhora Aparecida, alguns terços e velas dentro do oratório de madeira.

 — Mãe Maria Santíssima peço pela minha família. Sou tão envergonhada de pedi a Senhora, mas assim como eu faço há anos me ajoelho aqui neste chão e imploro que mude o coração do Romão e proteja o meu fio Dario, tire esse menino desse mundo de perdição, de pistolagem, bandidagem, não é esse futuro que eu quero pro meu fio, não é. Peço pelas minhas meninas também. — faz uma pausa e olha para os lados. — dê uma espiadinha na Manoela, minha fia no mal caminho.

Escutou-se o barulho das esporas das botas de Romão arranharem o chão e naquele momento Maria do Céu fechou os olhos e fez um sinal da cruz.

— Rezando, mulé.

— Rezo porque só assim é o único jeito de implorar a Deus e a Virgem Santíssima que você, Dario e Manoela… — levantou.

— Não fala o nome dessa perdida na minha casa! — deu um soco na mesa.

— Falo porque ela é nossa fia, Romão.

— Eu só tenho duas fias que são a Tereza e a Ester. Essa rapariga que você diz que é minha fia é de outro porque ela não tem meu sangue! Não tem! Agora deixe de bestagem e coloque minha comida. — sentou na mesa, tirou a arma da cintura e a colocou em cima.

Maria do Céu encheu os olhos de lágrimas, pegou um prato dentro do armário, abriu a panela em cima do fogão e tirou uns pedaços de carne com osso usando uma colher de madeira e despejou no prato.

— Romão, onde está Dario? Não o vi hoje.

— Deve tá caçando algum serviço por aí.

Ela colocou o prato na mesa de frente para Romão que abriu rapidamente um pote de plástico, despejou a farinha em cima do prato e começou a fazer um pequeno bolo misturando a carne e o caldo com a farinha o jogou dentro da boca e comeu.

O sol pelava na pele de qualquer indivíduo que ousasse enfrentar aquele sertão. Dario estava sentado em frente ao um açude e de baixo de uma aroeira. Ele era um homem alto, de cabelos castanhos e ondulados na altura dos ombros, pele branca, porém bronzeada pelo tempo exposto ao sol, olhos castanhos esverdeados, nariz comprido e uma barba média. O rapaz estava sem blusa, usando calças jeans e descalço. Ele tinha certa fascinação por ouro branco tanto que usava nos acessórios como a sua corrente com a pequena imagem do Padre Cícero envolta do pescoço, o relógio, a pulseira e seus anéis. Ao seu lado se encontrava o seu cavalo de pelagem preta que o deu o nome de Catamarã.

Dario se aproximou das margens do açude, começou a se banhar, molhou o rosto e as gotas d’água escorreram por sua vasta cabeleira e desceram em sua barba até que escutou uma voz masculina.

— Besta feroz! Besta feroz!

  A voz era de Quirino, um pacato agricultor, de meia-idade, pardo, cabelos negros e lisos, olhos castanhos escuros e o faltavam alguns dentes. Ele vestia uma blusa amarelada, bermuda de cor marrom, sandálias de couro e dirigia uma carroça.

— Besta feroz! — gritou e parou a carroça ao lado da aroeira. — Besta! — desceu da carroça. — Besta feroz!

— Já chega! Não sou surdo, oxente! O que tu quer, verme?

— Que faça um servicinho para mim, eu vou te pagar bem. Vai ser uma bufunfa boa! — deu uma risada.

— Tu não tem dinheiro nem pra comer, homi, quem dirá me pagar. Você sabe que eu não sou de fazer favor pra ninguém.

Oxe! Acha que iria te procurar sem grana? Sou homi e honro minhas calça.

— Se você se garante tanto como caba macho que diz ser, então porque tu mesmo não dar cabo no sujeito?

— Eu sou um pai de família, tenho minha mulé pra sustentar e meu fio pra criar. Acha mesmo que vou sujar minhas mãos? É por isso que existe gente da tua laia.

Dario saiu de dentro do açude e se aproximou de Quirino que demonstrou certo medo ao vê-lo de perto.

— Quem é?

— Quem é quem?

— O infeliz que tu quer apagar de vez pra sempre?

— Ah! sim. — olhou para os lados desconfiado e estava deserto. — É o…o Raimundo, da borracharia. Esse dinheiro é o suficiente. — tirou um maço de dinheiro de dentro do bolso e o entregou.

— É o suficiente para começar o serviço — contou o dinheiro. — e no final quero receber a outra metade.

— Mais dinheiro? Quanto?

— O mesmo valor desse que você me deu.

Eita, boba serena! Esse defunto ficando caro demais. — coçou a cabeça.

— É pegar ou largar. — desamarrou as cordas que prendia o seu cavalo no tronco da árvore.

— Tudo bem, faça o seu serviço que vou arrumar mais dinheiro. Diacho! Como vou explicar isso a minha mulé? Oh! Homi sem benção e sem sorte eu sou.

— Eu vou dar cabo no Raimundo e depois quero o que me pertence, caso contrário é você que vai dar adeus a Maria Quitéria. — montou no cavalo.

— Maria Quitéria? Quem é essa? É tua mulé? — deu uma risada.

Dario rapidamente tirou a arma de dentro da calça e apontou para o rosto de Quirino. A arma era uma pistola preta com o cabo de cor castanha.

— Essa é a Maria Quitéria que é doida pra fazer um buraco no meio da fuça de quem ousa de me fazer de besta.

Quirino ficou pálido ao ver a arma apontada em seu rosto e olhou nos olhos de Dario.

— Eu vou te pagar o resto do serviço, e por tudo que é mais sagrado, homi, não atira em mim, tenho uma mulé e um fio doente.

— Recado dado depois não diga que não avisei. — abaixou a arma.

— Não vai querer saber o porquê de eu querer mandar matar o Raimundo?

— Não, isso é probrema seu. Dessa noite o Raimundo não passa. — pegou as rédeas do cavalo. — Vai, Catamarã! — saiu em disparada.

— Toda mulé é risco de morte pro cidadão seja ela gente ou a arma. Valei-me! — olhava Dario desaparecendo pela estrada.

Anoiteceu e Dario estava sentado nos degraus da varanda e limpando com uma flanela a sua arma até que sua mãe apareceu ao seu lado.

Fio, Dario, sai dessa vida, menino.

— Mainha, não me aperrei, sabe que esse é o único jeito de botar comida dentro d´casa. Painho sempre viveu disso…

— Seu pai não é exemplo que preste há muito tempo. Virou um instrumento do cão e ganha dinheiro tirando vida de gente inocente.

— Mainha, nem todos são inocentes. — levantou — Se alguém quer tirar o indivíduo do caminho, coisa boa ele não fez e isso não me interessa. Faço o que me pagam.

— Não era esse o futuro que eu queria pra você, fio. — chorando.

— A senhora queria que eu fizesse o quê? Nada nesta terra dá, não sei ler e nem escrever. Sou uma besta-quadrada de burro que nem sabe escrever o próprio nome sabe. E agora, mainha? Me fale: o que esperava, hein? Que eu fosse fazer o quê da vida?

— Chega, Dario! Chega!

— Não nasci mulé que ainda tem um destino meior em ser rapariga como a Manoela ou como Tereza que se casou com um cachaceiro metido a pastor, ou ser como Ester que teve a sorte de ser criada lá em Maceió vivendo a pão de ló.

— Eu só queria que meu fio largasse essa vida de bandido e vivesse como um homi descente e de família.

— Oh! Mainha. — a olhou com vergonha. — teu fio nunca será descente, o meu destino é morrer na pistolagem.

— Não, Dario! Há uma chance de você sair dessa vida, meu fio.

— Não há, mainha, não há. É essa a minha escolha: ou morrer na pistolagem ou morrer como o Francisco.

— Prefiro um fio morto de fome do que um fio morto por ser bandido.

— Diz isso da boca pra fora, dona Do Céu.

— Você não teme a Deus, Dario, um dia vai pagar as contas por tudo que faz, você e seu pai!

Mainha, não me espere chegar em casa porque não tenho hora para voltar. Bença, mainha?

Dario subiu no cavalo.

— Que Deus te abençoe, meu fio, e tenha misericórdia de você e te dê juízo. — fez o sinal da cruz.

 Na madrugada, Dario se encontrava agachado atrás de uma árvore em frente à casa de Raimundo, o dono da borracharia, quando de repente uma luz acendeu em um quarto. Ele saiu do esconderijo, entrou pelos fundos da casa, viu a janela entre aberta e pulou para dentro da casa. No corredor, Dario caminhou, entrou na cozinha, viu Raimundo de costas e tomando um copo de água. Imediatamente sem ser percebido, Dario apontou a arma nas costas de Raimundo, um senhor de meia-idade, pardo, estava sem blusa, usava uma bermuda verde e descalço. Ele tinha uma grande pança, calvo com alguns restos de cabelos grisalhos na cabeça e pelos pelo corpo.

— Não grite. — disse Dario com a voz quase sussurrando.

— Quem te mandou? — perguntou Raimundo assustado com a voz baixa.

— Não te interessa.

— Faça o que você veio fazer, mas não na frente da minha esposa e nem dos meus filhos.

No quintal, Dario apontava a arma para Raimundo que estava de joelhos.

— Sabe que vai matar um trabalhador, um pai de família e a sua consciência não doí, rapaz?

— Essas pergunta não é pra mim e sim para que me mandou te “apagar”.

— Me diga quem foi?

— Não! Chega de arrodeio.

— Eu te perdoo pelo que vai fazer comigo, Dario, e que Deus tenha piedade de você. — olhava para o alto. — Deus, cuide dos meus. — juntou as mãos e começou a chorar.

Ecoou um estampido de tiro e rapidamente a esposa e os filhos de Raimundo que são quatro crianças, uma pré-adolescente de onze anos e uma moça chamada Joana de dezoito anos, saíram da casa e correram para o quintal. Dario já tinha fugido do local.

— Painho! Painho! Não! Não! — gritavam os filhos, exceto às duas filhas mais velhas.

Homi! Raimundo! — joelhou a esposa e chorando abraçada ao corpo. — Quem fez uma malvadeza dessa? Quem?

No outro dia pela manhã a cidade comentava o assassinato de Raimundo, e todos se questionavam o motivo, pois a vítima era uma pessoa de moral ilibada, querido por todos e um chefe de família exemplar.

Dario fumava um cigarro encostado na aroeira quando de repente Quirino surgiu.

— Besta feroz! Toma o que é teu!

     Entregou o maço de dinheiro para Dario que começou a contar as notas.

— Seu serviço foi bem feito e ninguém desconfia de quem matou o Raimundo. Não quer mesmo saber o motivo de ter mandado matar aquele safado?

— Não. Agora suma da minha frente, peste! — jogou o cigarro no chão.

Quirino saiu enquanto Dario colocou o dinheiro dentro de uma bolsa de couro amarrada no cavalo. Depois ele entrou no açude, deu um mergulho e quando voltou a superfície ver a imagem de Joana a filha de Raimundo.

— O quer aqui? Você não perdeu nada, vai-te simbora!

— Eu vi que foi você que matou o Raimundo.

— O que tu quer? Vingar?

— Não, vim te pagar. — tirou o vestido de renda, ficou nua e entrou no açude. — Você foi mais do que um herói pra mim, viu? — o beijou. — matou aquele miserável. — o beijou novamente.

— Que conversa doida é essa?

— Quando você apareceu na sala, ele estava tentando bulinar a minha irmã que ficou mocinha por esses dias.

— Eu não sou herói coisa alguma. Se oriente, oxe!

— Faço que você quiser, Dario. — o beijou. — o que quiser.

— Tu é moça de família e se comportando como uma rapariga. Se vista! — se afastou dela e saiu do açude.

— Aquele maldito abusou de mim quando eu era menina!

— Não há o quer me pagar. Quem pediu o meu serviço já me pagou.

— Dario! — correu em direção a ele o abraça por trás. — Deixa ser tua mulé, deixa? — o beijou o ombro. — Me leva com você por esse sertão, me faça tua mulé, deixa eu te dá meninos.

Dario fica de frente para ela e segura bruscamente seus punhos.

— Vista! Se envergonhe do que está fazendo, Joana!

— Não me envergonho! — desvencilhou dele. — O maldito Raimundo tirou a minha inocência! Eu podia ser mulé de qualquer um, mas escolho ser tua, Dario.

— Aproveite que Raimundo morto e que você livre se case com um homi descente que te sustente. Esqueça tudo que passou e tudo que viu.

Joana começou a chorar, Dario pegou o vestido dela e o entregou.

— Você não me viu na sua casa à noite.

— Não, nunca te vi.

Dario subiu no cavalo e Joana se vestiu.

— Dario!

— O quê?

— Obrigada.

Ele saiu em disparada pela estrada.

Ao Anoitecer e Dario estava a mesa jantando com seus pais em casa.

— Fiquei sabendo que mataram o Raimundo da borracharia. — comentou Seu Romão enquanto amassava com as mãos a macaxeira com charque.

Maria do Céu encarava o filho que desviou o olhar e pegou com a mão um punhado da comida, o jogou na boca e mastigou.

— Você tem algo a ver com isso, não é, Dario? — perguntou a mãe em tom sério.

Dario olhou para o pai e continuou a comer.

— Estou falando com você, Dario! — deu uma tapa na mesa.

Mulé, não enche e não se meta!

Ela se levantou da mesa e saiu.

— Não vai comer, Do Céu?

— Perdi a fome. — entrou no quarto.

Após a janta, Dario estava sentado nos degraus da varanda e fumando um cigarro até que seu pai parou ao seu lado.

— Painho?

— Hum? — coçava as costas com uma mão e na outra palitava os dentes com um pequeno palito de madeira.

— Foi Quirino que me pagou pra matar Raimundo.

— Te pagou bem? Pagou certinho?

— Pagou.

Seu Romão sentou ao lado do filho, tirou um cigarro do bolso da calça e Dario o acendeu com isqueiro.

— A mainha nunca vai se acostumar de ter um fio como eu, um bandido, pistoleiro, um coisa ruim.

— Tua mãe tem a razão dela, eu tenho a minha e você a tua. — tragou o cigarro. — eu te ensinei tudo que sei, meu fio, tudinho, te fiz o meior deste sertão, não há quem saiba matar tão bem um caba de peia.

— Já passou por tua cabeça, painho, se as coisas fossem diferentes?

Oxente! Não pense nisso, Dario, as coisas são como são e nada pode mudar.

— Será?

— Vá pelo teu pai. É meior morrer em serviço e levar bala do que morrer de fome igual teu irmão Francisco. — levantou. — eu vou dar uma volta por aí. — saiu.

       Dario olhava para o alto e viu a lua cheia. No outro dia pela manhã ele estava sentado de baixo da aroeira quando de repente apareceu Quirino.

— Besta feroz!

Eita boba da peste! O que é que esse verme quer dessa vez? — levantou. — Fala o que tu quer diacho?

— Me mata! Por favor, me mata! — ajoelhou em frente a Dario.

— Oxe? O quê? Como é homi?

— Me mata, eu sou um infeliz, um traste! Eu mereço a morte! — abriu os braços.

— Pelo jeito virou o dia na cachaça comemorando a morte do Raimundo que não sabe nem o que fazendo e nem pedindo. — apontou a arma para ele.

— Acerta aqui, acerta em mim! — bateu as mãos sob o peito.

Pra quê tu quer morrer, traste?

— Se arrependimento matasse estaria morto…

— Ah, não! Não me venha com essa conversa agora que se arrependeu de ter mandado matar Raimundo? Já é tarde demais ele já está de pé junto.

— Não é pelo infeliz que me arrependo. — olhou para os lados. — a Guilhermina, a minha esposa, descobriu que o dinheiro dos remédios do Pedrinho sumiram do porco.

— Quem é Pedrinho? Que porco?

— Pedrinho é meu fio e o porco é a botija onde minha esposa e eu guardamos o dinheiro para comprar os remédios dele que tirei para te pagar. De madrugada o Pedrinho teve uma crise e está no hospital entre a vida e a morte e tudo isso por culpa minha e sua!

— Minha culpa é que não é, oxe! Você veio atrás de mim pra matar o Raimundo.

— Você que me cobrou caro.

— Seja homi e honre as calça que tu veste, caba. Quem mandou tu roubar o dinheiro do teu fio pra me pagar pra matar aquele verme?

— Eu não roubei, eu só tirei e iria colocar o dinheiro de novo, mas o meu negócio com as vendas não deram certo, o caba me deu um chapéu e liso como quiabo.

— Não deixa de ser ladrão! Devia ter arrumado outro jeito de me pagar.

— Eu não sou ladrão! Eu estava com medo!

— Medo de quê, diacho?

— Raimundo me ameaçou que se o time dele perdesse pro meu, ele iria mandar me matar. O meu time ganhou do dele então pra me precaver contratei você para matar ele antes que ele me matasse.

— Você é um asno mesmo. Matar um caba por causa de time de futebol?

Oxe e é é? E eu iria esperar ele vim cumprir o que prometeu? É ruim, hein, antes ele do que eu.

— Teu fio ficou sem remédio e lá sofrendo no hospital. Levanta, seu verme, levanta. — o levantou puxando pelos cabelos que gritava de dor. — Tu devia era no hospital com teu fio e não agindo como um covarde pedindo pra te matar, seu frouxo! Se teve coragem de vim me procurar pra matar Raimundo tenha coragem também pra sofrer para o que há de vim.

— Você não deveria cobrado tão caro!

— Eu devia atirar em você. — apontou a arma na testa de Quirino. — Mas não vou facilitar, se teu fio morrer que carregue a culpa da morte dele.

— Não! Não vou suportar a culpa da morte do meu fio, não! eu prefiro morrer. — chorava.

— Vai-te simbora daqui! perdendo o meu tempo com você, estrupício. — sentou de baixo da aroeira.

— Como consegue?

— O quê?

— Viver com a culpa? Você já matou muitos por esse sertão e não sente culpado por ter matado tantos e talvez alguns inocentes?

— Ninguém nesta vida é inocente.

— Raimundo bebia e as vezes passava da conta. Naquela noite que me ameaçou estava bêbado como eu também estava. Ele era um bom sujeito, pai de família, a esposa está triste pelos cantos, pobrezinha, e os fios também. Quem tá sendo forte é a fia mais vêia a Joana.

— Era de se esperar. — lembrou do fato de que Joana era abusada pelo pai.

— Por quê?

— Nada, por nada. — olhava para a arma.

Caba assim como tu não sente culpa de nada porque já tá acostumado com a vida do crime. Eu sou um pai de família, caba trabaiador e não sei o que me deu na cabeça de pegar o dinheiro do meu fio pra botar na tua mão.

— Vai adiantar chorar agora? Se arrepender do que fez? O que feito, feito e nada pode mudar.

— Meu fio! O meu fio vai morrer!

Dario ficou em silêncio e olhou para o meio do açude onde os raios do sol refletiam nas águas.

— Peço a Deus que Pedrinho sobreviva porque senão…senão eu não sei o que vou fazer…aquele menino é a minha vida.

Quirino saiu desnorteado pelo desespero enquanto Dario ainda permanecia a olhar para o açude e continuava com uma tez reflexiva e não conseguia entender o porquê de não sentir a culpa questionada por Quirino, e por qual motivo? Aquele rapaz sentia prazer em matar ou matava por profissão sendo a sua única “oportunidade” na vida e ensinada por intermédio de seu pai? O que foi ensinado a ele é matar em troca de dinheiro para comer e ajudar a sustentar a família, nada nobre e nem altruísta, mas talvez para sua realidade fosse algo natural. O leitor deve estar se questionando: como alguém em sã consciência pode achar que viver da pistolagem é algo natural ou uma profissão comum? A resposta poderia estar no desespero e a falta de oportunidade ou apenas se acostumaram com aquela vida, ou quem sabe a fome seja apenas uma desculpa para ocultar uma mente assassina?

O que é interessante é essa falta de curiosidade de saber o motivo de alguém que procura seus serviços para matar outro. Talvez Dário de forma indireta não queira cair na teia do justiçamento? Não, ele não parece querer se envolver e essa ignorância sobre o porquê de uma pessoa o contratar para matar seja como uma anestesia que o evitava pensar em não ter a tentação de desistir. Para Dário era melhor está “cego” e não julgar seus “clientes” para que pudesse cumprir o seu “trabalho”.

O seu real prazer era matar, mas matar alguém ou a fome, ou ambos? Todos essas perguntas rondavam os pensamentos de Dário e o atormentavam apesar dele querer sufoca-los com outros assuntos corriqueiros. A atormenta de Dario sobre o seu futuro ao surgiam em si tais questionamentos: se ele tivesse seguido outro caminho mais honesto apesar das dificuldades poderia ter morrido de fome como seu irmão Francisco? Pensava que talvez morrer de fome e com as mãos limpas fosse melhor, entretanto ele não se dava a “covardia” de se arrepender, o que para ele era considerado ser covarde. O sujeito era do tipo de que a palavra dada é a palavra a ser cumprida e que não se retrocede, então, o que aqui se pode analisar que para um criminoso como este que se dispõe a seguir algumas regras como um “código de ética” em comparação a crise ética, social e existencial que estamos vivendo em nossa sociedade na década de 20 do século XXI é o que o dessemelha. Quantas leis são feitas e poucas são cumpridas e que realmente chegam ao seu objetivo que é amparar os direitos e determinar os deveres aos cidadãos? As leis são apenas discursos de promessas infundadas escritas no papel como mais um componente de uma peça do jogo de interesses políticos que somente deixarão de ser quando emergirem ao mundo do real, e quando irá acontecer? Talvez quando a política não produza mais o dinheiro, mas mesmo que no futuro possa existir outro jeito de organização político-social os mais ambiciosos encontrão outra forma de explorar dinheiro e também causará dor e sofrimento coletivo. Então, alguém poderia dizer com essas afirmações que se o dinheiro acabar ou algo substituir os problemas irão acabar, mas não sejamos ingênuos outras coisas estão ou serão supridas e podem ter a certeza que continuará o ser humano no mesmo comportamento autodestrutivo de explorar recursos, enriquecer prejudicando seus semelhantes, o meio ambiente e no final prejudicando a si mesmo. Alguém morreu rico, porém, nada levou e o que realmente pôde levar foi a sua consciência, neste sentido trago a visão escatológica de que o que restou para uma alma sem corpo e sem a possibilidade de distrações carnais é o exilo da falta de paz que nestas condições ela pode ser a maior riqueza. Respondendo à pergunta de quando as leis serão finalmente eficazes no mundo real acho mais fácil ganhar na loteria do que esperar que isso aconteça e apesar de a autora não ser a debita aos jogos de apostas, nada contra é só questão de gosto mesmo. A autora está sendo pessimista? Não, o objetivo é ser realista. Não há melhor juiz do que a própria consciência e sábio é querer ouvi-la, todos tem, entretanto, alguns insistem ignorá-la. O dinheiro é o grande vilão da história humana? Não é está a opinião defendida, o dinheiro quando faz falta traz desespero, quando o tem traz o alívio, e quando o tem demasiado traz o vício. O segredo é ter temperança em todos os setores da vida e quem está disposto a mantê-la?

         Este romance não almeja romantizar a vida criminosa do protagonista Dario, muito pelo contrário, não se justifica matar um semelhante em troca de dinheiro, como também se corromper, mentir, ser celetista e excluir pessoas por preconceito em troca de dinheiro, favores ou poder, ou seja, não é só a pistolagem que é criminosa, até profissões e cargos considerados honestos podem matar vidas, sonhos, memórias, dignidades e direitos. Uma palavra ríspida, um olhar depreciativo contra o outro pode esfriar o amor, a amizade, a alegria, as relações de afeto e neste caso poderá existir um resquício de otimismo em dizer que ainda há esperança, pois os sentimentos são os que possuem unicamente o privilégio de se regenerarem levando o tempo necessário, dependendo da vontade e amadurecimento dos seus titulares. Será que essas atormentadas que rodam os pensamentos de Dário significa que pode haver algum arrependimento e uma possível remissão? O leitor acredita que um criminoso pode se arrepender dos seus crimes ou não? Peço que guarde suas opiniões e reflexões e acompanhe o desenrolar da trama até o final.

De tarde aconteceu um tiroteio numa estrada das carnaúbas, a frente estava dois homens a cavalo sendo perseguidos por Seu Romão, Dario e Iago, sobrinho de Romão, um rapaz de dezoito anos, negro, franzino, usava uma calças jeans, camisa vermelha e botas de couro.

— Não adianta correr seus fios de rapariga! — gritou Romão batendo o chicote no cavalo e atirando na direção dos dois.

— Painho, eu vou para o outro lado. — disse Dario seguindo com o Catamarã para outra estrada.

Alguns minutos depois os dois homens que estavam sendo perseguidos por Romão, Dario e Iago, perceberam que eles haviam sumido na estrada e o silêncio tomou conta do lugar. Um se chamava Emílio, era gordo, pardo e usava uma blusa amarela, bermuda jeans e descalço, o outro se chamava Agenor, negro, barba longa, sem camisa, calça jeans e chinelas.

— Agenor! Veja, eles foram embora.

— Covardes! Bando de covardes! — levantava o facão.

— Vamos voltar para o acampamento?

— Não!

— Por que não? É melhor a gente simbora daqui, Agenor, antes que eles voltem.

— Se a gente voltar pro acampamento, eles podem seguir nós e depois quando menos se esperar vão invadir o acampamento.

— Aqui é que não fico, eu vou simbora.

— Fique, homi, deixe de aperreio, oxe!

Emílio se distanciava.

Eita! Boba serena que teimosia da molesta.

Logo, se escutou um tiro atravessando o corpo de Emílio que desfaleceu, o corpo caiu no chão e o cavalo saiu correndo assustado.

— Emílio! — gritou Agenor.

De longe apareceram Romão e Iago.

— Chegou a tua hora, miséria.

Dario encostou a boca da arma nas costas de Agenor.

— Se for pra atirar em mim, atire olhando nos meus olhos e não pelas costas, seu covarde!

Dario puxou Agenor de cima do cavalo pelo braço e o deu um chute que o fez cair no chão.

— Tu vai levar o que tu merece, peste! — pisou em cima da mão de Agenor que segurava o facão.

— Miserável é tu e quem te pagou. Sou um homi trabaiador não mereço terminar assim.

— Devia ter pensando nisso antes de tentar invadir as terras do Seu Félix. — apontou a arma sob o rosto dele. — agora é tarde pra se arrepender.

— Tu pode me matar, mas os meus vão vingar a minha morte. Você é um covarde…um homi de verdade usava as mesmas armas…eu só tenho esse facão e você essa pistola.

— Cala a boca, infeliz!

— Covarde!

De repente Dario atirou no abdômen de Agenor.

— Covarde. — Agenor sussurrou e morreu.

Dario olhou para Agenor, pegou o facão e saiu enquanto Romão e Iago se aproximaram.

Fio! Dario!

— Já terminei o serviço. Vamo.

Iago olhou para o corpo de Agenor e cuspiu no chão.

A fazenda Sertaneja era propriedade de Seu Félix e sendo uma das poucas fazendas produtivas da região. No final da tarde, Dario, Romão e Iago se encontravam na porteira da fazenda e embaixo de um pé de suinã até que aparece Seu Félix, um ancião, calvo, com um bigode grisalho, gordo, usava uma blusa longa branca, calças jeans, um cinto de couro com uma fivela grande dourada e botas. Ele usava sob a cabeça um chapéu de couro branco e vestia correntes, anéis, pulseiras e relógio de ouro.

— Espero que me tragam boas notícias.

Meior do que essa não há, Seu Félix, veja com seus próprios zôios. — disse Romão.

Dario mostrou o facão de Agenor que havia cravado o nome dele no cabo.

— Agenor. — leu em voz alta o nome escrito no cabo do facão. — Ainda bem que aquele fio de uma égua morreu. Sabiam que fariam um bom trabalho. Aqui o resto do pagamento de vocês. — tirou de dentro do bolso um maço de dinheiro e entregou para Seu Romão. — Tudo certo?

— Como combinado, Seu Félix. — Seu Romão contava as notas de dinheiro.

— Agora tenho outro trabalho pra vocês. Romão, eu quero que um dos teus meninos fiquem de olho na minha filha a Maria Rita e você e o outro fique de espia nas minhas terras por precaução caso esses malditos invasores queiram se vingar.

— Como quiser, patrão, o Dario vai fazer a segurança pra tua fia enquanto eu e Iago cuidamos do resto.

— Não quero que Maria Rita saiba o que está acontecendo e que nem nenhum de vocês se aproximem dela principalmente você Dario.

— Enquanto a isso não se preocupe não há ninguém meior do que Dario neste sertão.

— Você é pai, Romão, é suspeito em falar porque todo pai gosta de lamber sua cria.

— Pode confiar em Dario, Seu Félix no final vai concordar comigo e não vai se arrepender.

— Tomara. — olhou desconfiado para Dario.

No início da tarde Dario fazia a ronda no jardim quando de repente se surpreende com a imagem de Maria Rita, uma jovem de pele branca, cabelos longos, ondulados e castanhos, vestia um vestido estampado de chita e sentada um banco de madeira. Naquele momento parecia que aquela visão de Maria Rita foram como gotas de chuva molhando o chão rachado do sertão na esperança de trazer vida e florescer. Ele passava pelas acácias-amarelas e uma tempestade acontecia dentro de si. O que havia naquela mulher que foi capaz despertar uma rara plenitude naquele ser mais bicho do que gente?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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