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Três de outubro

Estacionou o carro e puxou os freios. A noite estava serena lá fora, pairava no ar uma neblina suave e gélida sentida ao destravar a porta, desceu e logo sentiu o entrar de areia em suas sandálias, mas não se fixou muito nisso, os banhos intermitentes de sangue em sua pálida pele eram bem mais interessantes: letreiros neon de um Motel.

– E então, vamos entrar?

Esquecera-se do cliente, sorriu envergonhada e o acompanhou.

 

O quarto vinte e dois não era diferente dos outros outrora entrados por muitos amantes. Um pequeno guarda-roupa de madeira no canto, divãs nas laterais, iluminação avermelhada, lamparinas nas cabeceiras, uma cama redonda no centro e um grande espelho no teto. Carol aceitou o convite para uma taça de vinho e quando se deu conta estavam os dois na ducha, devorando-se mutuamente, ele era muito mais ousado do que pensara.

 

Ela já estava por cima dele, ambos nus, com seus seios sendo apertados, quando ele a virou, invertendo a posição. Ela sorriu maliciosa.

 

– Danadinho, agora quer ficar por cima! Quer que eu te chupe antes?

 

Ele, no entanto, observava-a com fascínio, uma admiração um pouco obsessiva demais, sentiu-se incomodada.

 

– Que foi? Está tudo bem Euclides?

 

Ele não a respondeu, apenas se aproximou dela e a envolveu com os braços, ela tentou sussurrar alguma coisa em seu ouvido, porém, ele a apertou forte, jogando seu corpo para cima dela. Pesava em torno de cento e oitenta quilos, ela cinqüenta.

 

– Ai, Euclides, assim não, está incomodando!

 

Ele não se importou e começou a apertar o corpo em cima do dela, adquirindo impulso e se esparramando.

 

– Está me machucando, por favor, Euclides, assim eu não…

 

Ele a roubou um beijo estranho. Passou a língua molhada pelo seu nariz e pelos seus olhos, ela o olhou amedrontada, ele sorria para ela, selvagem.

 

– O que você está fazendo? Me solta!

 

Ele começou a rir e salivou em seu pescoço, ela tremia de asco, implorou para que ele a deixasse ir, mas ele não cedia, os ossos dela começaram a doer, sentiu falta de ar. Percebeu sua intenção.

 

– Socorro! Você vai me matar! Me larga, seu animal! Para com isso!

 

Ele lhe meteu um tapa. Ela se contorceu desesperada e ele escarrou em sua cara. Estava totalmente imobilizada, não conseguiu se mexer, tentou gritar, mas ele tapou sua boca bruscamente, jogando o o corpo mais ainda, estava sendo asfixiada. Começou a arranhar as costas dele, mas era inútil perto a sua força. Chorava.

 

– Pelo amor de Deus! Por que está fazendo isso comigo? Deixe-me ir Euclides! Eu ainda tenho muito que viver! Aaaaaaaaaaaa! Tsc. Tsc.

 

Em meio à penumbra de um canto, um ser se revelou. Caroline a reconheceu no exato momento. Gelou. Era Lilian.

 

– Muito que viver, Caroline? Depois do que fez com a minha filha? Sua ordinária! Uma menina de sete anos, como você e aquele seu marido podre tiveram coragem de assassinar uma criança? Você é seca, por dentro, seca! Mas se você acha que não iria ter volta, estava enganada, hoje é pela memória dela. A pirralinha, a causa dos nossos problemas, não é assim que você se dirigia a ela quando passava o fim de semana na casa daquele monstro, sua ramera? Como se você fosse melhor do que ela! Olha só o desfecho que você vai ter. Do que adiantou ter feito tanta maldade, tanta crueldade, olha o jeito que você vai terminar, numa cama imunda, com um cara nojento em cima de você! (Riu alto) e você toda pomposa, patricinha, não suportando ser dominada por homem nenhum. Hoje sim, é de vitória! Laura deve estar orgulhosa da sua mãezinha! Orgulhosa! Eu sim sou uma verdadeira mãe, a qual não desiste até fazer justiça!…Morra e pague com essa dor insuportável que você deva estar sentindo todo estrago que fez em nossas vidas! Morraaaaa!

 

Naquele instante, o remorso a invadiu, arrependeu-se profundamente daquela sua atitude covarde, mas já era tarde, Laura já havia partido há dois anos e seu destino chegava à estação final: o inferno que ela mesmo se inseriu. Lágrimas escorreram pela sua face, suspirou pela última vez e desistiu. Seus olhos se fecharam.

 

Dez anos antes…

 

Era desajeitadamente destra. Assinou sua visita a uma exposição de artes anual que acontecia todo início de primavera, no parque das Bicas, centro de sua cidade. Quando saía de um dos prédios do local, avistou uma anciã empurrando um assento sanitário móvel, desses para auxiliar idosos com Alzheimer a ir ao banheiro, numa trilha que passava por lá, sentiu um calafrio, a mulher a fitava tenebrosa, parecia ler seus pensamentos. Distraída, acabou não vendo um rapaz que se aproximava pedalando uma bicicleta e foi atropelada, indo ao chão e quebrando os óculos.

 

– Você está bem? Desculpe! Desculpe!

 

Lílian se levantou meio desconcertada, limpando as mãos nas vestes. Olhou-o uma vez e corou-se, desviou o olhar. Que jovem bonito! Riu baixinho de nervoso.

 

– Nossa, você é muito bonita! Como você se chama?

 

Ela negou.

– Chamo-me Lílian e você? Que nada! Sou nariguda metida a nerd! Quem é que gosta dos nerds?

 

– Eu gosto! Sou Alberto.

Ela sorriu e voltou a encará-lo.

 

– Gosta de MPB? Vai ter um show daqui a pouco do Renato Russo!

 

Ele confirmou.

– Eu amo! Posso assistir na sua companhia?

 

Ela riu de novo e balançou a cabeça assertivamente.

 

Na sexta-feira da semana seguinte…

 

Lílian passa pela secretária do colégio correndo, o sinal já havia batido fazia cinco minutos, se não corresse poderia perder o ônibus de volta para casa. Ao chegar à portaria, no entanto, esbarrou em uma funcionária da limpeza que entrava e derrubou os baldes de água suja em cima de seus livros novos que recebera pela manhã, além de uma bela chacota que a turminha rebelde, fumante, promovera ao ver seu estado. Alberto, porém, se compadeceu.

 

– Lílian, você está bem?

 

A menina só conseguia chorar. Como era uma girafa ambulante, desastrada. Nunca iria passar no vestibular de farmacologia desse jeito.

 

– Deixa eu te ajudar!

 

Ele a levantou e a abraçou,olhou cortante para os amigos e estes pararam de rir. Ela confessou:

 

– Ai Berto, minha vida é muito desorganizada! Minhas notas caíram no último bimestre, não tenho namorado como as meninas, meus pais só falam de me cortar da escola, agora molhei os livros novos, eu… Eu…

 

Ele a acalentou.

– Por favor, se acalme! Vem comigo, vou te levar para falar com o coordenador, não é possível que ele não te conceda livros novos, se precisarmos chamamos a funcionária da limpeza.

 

***

Ele era um anjo! Um cavalheiro das antigas, raro naquele tempo de modernidade líquida. Depois de ter conseguido livros novos, aceitou o convite para passear de moto, como era instigante, sentir os cabelos esvoaçando pelo vento apoiada nas costas de Alberto que dirigia. Aquilo saía de uma aula de resistência do ar e empuxo de estudo dos fluídos na Física para se tornar um fato, uma experiência que toda garota normal deveria passar em sua mocidade.

 

Quando se deu conta estavam num largo no alto de uma pequena serra em que casais assistiram ao pôr-do-sol. Fora ali que diante das sardas e da magreza dera seu primeiro beijo.

 

***

As conseqüências para a união daqueles jovens de universos tão diferentes logo mostraram suas limitações. Lílian começou a freqüentar a turminha dependente química que Alberto liderava, provou do cigarro, apontado por eles como droga leve e viciou. Matava aulas e mais aulas, sofria detenções por conversar nas salas de aula e as recuperações se acumulavam. As poucas amigas que possuía, começaram a se afastar para estudar para as provas que se anunciavam e certo dia, fora vez de matar seus pais de desgosto: descobriram tudo a partir do achar de uma garrafa de vodka embaixo da cama.

 

***

Havia chegado do colégio, seus olhos ardiam avermelhados, experimentara coca. Lavara as mãos no banheiro embaixo da escada e precipitara-se para a cozinha tomar cereais, foi quando seu pai a surpreendeu: portava uma cinta nas mãos.

 

– Saiu mais cedo do trabalho, pai?

 

Ele retirou da bancada seu boletim. Das 15 disciplinas, em 13 pegara D.P.

 

– Parabéns! Que espetáculo a senhora fez consigo mesma! Eu e a sua mãe ralando para pagar um colégio caro para você chegar à faculdade e assim que nos retribui? Que vergonha!

 

– Olha pai, eu posso explicar, eu não estava…

– Cala boca, sua pivete! Quando você está indo, eu já voltei duas vezes! Pensa que pode me enrolar? Essa aqui é uma prova da sua sacanagem! Eu sei das suas freqüências também! O diretor me chamou pessoalmente para mostrar as imagens externas do colégio! Fumando! E você achou que nós não fossemos perceber? Seu hálito forte! A garrafa no seu quarto! Mas eu vou resolver isso, em definitivo.

 

E descendo bruscamente da cadeira, meteu-lhe a fivela por entre as pernas. Ela urrou de dor e correu pela casa, mas ele a alcançou a jogou de bruços no sofá, batendo-a sem piedade, acreditando que assim pudesse a reparar.

 

– Para pai! Para!

– Isso para você criar vergonha nessa tua cara! Ingrata!

 

Mas o resultado foi inverso. Naquela madrugada, como de praxe, esperava Alberto à janela e ele subia pelos galhos da árvore até o seu quarto, namoravam um pouco. Dessa vez, ainda com lágrimas nos olhos, surpreendeu-o com uma trouxa de roupa, confessou-lhe tudo e em comunhão, fugiram para um apartamento no centro da cidade, cedido pelo irmão mais velho dele, um engenheiro químico.

 

***

Para não depender da família, Alberto logo arrumou um emprego de porteiro. Lilian comprometeu-se a cuidar da casa, tornando-se uma dona-de-casa devota. Nas horas que sobrava, fazia docinhos e vendia para os moradores dos prédios. No entanto, o homem era esquentado, bastava muito pouco para arrumar uma confusão, não se manteve no emprego por muito tempo. Envolveu-se então no aliciamento de garotas, a partir do qual, o seu tio materno monopolizava o mercado da prostituição e se identificou.

 

Certo dia, quando Lilian já estava com seus dezoito e meio e rompera definitivamente o contato com os pais, os quais desistiram de tentá-la convencer a voltar, Alberto lhe oferecera a proposta de ser uma prostituta de luxo. Em um primeiro momento, ela achou aquilo o cúmulo, seria muito baixo para ela, mas era uma mulher dependente, frágil emocionalmente, bastaram algumas chantagens dele para que aderisse a profissão.

***

Não demorou muito para se tornar famosa na Rua Toneleiros, aquela que fazia esquina, perto da Padaria Macieira, no Mar Del Prata, sabe?  No começo fora estranho ter relações sexuais com outros homens, era monogâmica, mas com tempo foi se acostumando, o problema a partir de então, fora o distanciamento que começara a ter com Alberto, ele cuidava das financias, mas quase não parava em casa, dizia estar lucrando em muitos pontos. Numa noite chuvosa, todavia, ao chegar mais cedo em casa, presenciara algo que jamais esqueceria…

 

Empurrou a porta da sala e percebeu que a mochila de trabalho do namorado estava jogada em cima do sofá.

– Amor?

Ele não apareceu, foi então que ouviu o barulho do chuveiro ligado, precipitou-se até a porta e se despiu, iria surpreendê-lo no banho! Quando abriu a porta, porém, flagrou-o ao amasso com uma ninfeta.

 

Ele a viu e não se importou com a situação. Sabia que ela não era de escândalos, não tinha autoestima suficiente para se colocar em primeiro plano.  Fechou a porta e caiu aos prantos no corredor. Por que ele fizera isso com ela? Álias como ela poderia esperar lealdade? Olha só para seu corpo todo cheio de estrias e celulite? Os cravos no nariz, as espinhas nas costas, as verrugas no sobrolho. Ela não era uma mulher perfeita! Não era uma boneca para ele se orgulhar! Não gostava daquelas comparações! Sabia que as mães criavam suas filhas para serem assim e isso estava errado e deveria mudar! Mas sozinha, ela nunca conseguiria e a sociedade parecia não ver aquela importância! Os ideais de beleza reinavam, mesmo dentro do feminismo! E semelhante ao estigma criticado na obra “O Segundo Sexo” de Simone de Beauvoir, ela incorporou sua inferioridade quanto mulher e aceitou o adultério.

 

***

 

Na manhã seguinte quando acordara, ele a surpreendera com torradas à mesa. Não parecia arrependido do que fizera, nem tão pouco se importava como ela estava se sentindo, ainda que demonstrasse claramente em seu silêncio e seu semblante deprimido. Contudo, em determinado momento, após pedir que lhe passasse mais café, ele a relembrou do acontecido e para sua surpresa a ameaçou.

– Gostei da sua postura de ontem! Viu o meu direito instintivo, de macho e engoliu a revolta para estar do meu lado. Isso evidencia notoriamente seu companheirismo, porém, como sei do poder de influência dessa mídia moderninha, pró-femista, quero lembrá-la que temos um pacto e se está pensando em me deixar, saiba que está mexendo com gente muito perigosa! Minha família é rica, tenho um tio que é um juiz do Supremo Tribunal Federal, preciso de você como reforço a minha conduta ideal de “familinha margarina”, portanto, sua família sofrerá conseqüências se me deixar. Imagina você receber um telefonema de que papai foi envenenado!

 

Chocou-se com aquela conversa. Não podia acreditar na encrenca que se metera. Apaixonara-se por um monstro.

 

***

A revolta era diária corroia-a por dentro, queimava, intoxicava.Cada cliente que dormia era um tormento, um grito interno contra a repressão. Agora por mais que descobrira tudo e quisera voltar para casa, não podia. Ela não amava mais aquele homem, mas diante de todos os desgostos que dera aos seus pais, o mínimo que poderia fazer era continuar ali e zelar pela vida deles.

 

Como tudo o quê está ruim, pode piorar, pela lei de Murphy, sua avó que morava na divisa no estado havia chegado para visitar a família e resolvera sair pela cidade de táxi, de madrugada, para tomar um ar fresco e flagrara-a batendo ponto, rodando bolsinha, desceu no exato momento desesperada, agredira-a.

 

– Eu vou contar tudo para seus pais! Mal- Caráter! Como você pode manchar o nome da nossa família desse jeito? Sua Puta!

 

Rasgara-lhe o vestido e começara a passar mal. O motorista já havia ido embora. Lilian tentou acalmá-la, mas a idosa se irritava cada vez que ela a tocava. Teve um infarto fulminante e assim como a água da chuva escorria para o bueiro, a vida se esvaia, a memória da infância a atormentava, não resistiu e acabou morrendo ali mesmo em seus braços, antes do SAMU chegar. Do outro lado da rua, para sua surpresa, aquela mesma anciã que vira no parque há alguns anos, caminhava empurrando um carrinho enferrujado, repleto de papelão, sua face demonstrava compaixão.

 

***

O Reencontro com seus pais no velório foi doloroso. Eles evitaram se aproximar, mas seus olhares de sofrimento diziam tudo. Queria muito pedir-lhes ajuda, revelar como tudo aconteceu de verdade, no entanto, Alberto não se desgrudava e em alguns momentos repetia as ameaças.

 

Passado alguns meses, percebera o surgimento de manchas estranhas avermelhadas nas costas. Com muita relutância conseguiu convenceu Alberto a pagar-lhe uma consulta, ele só resolveu agir mesmo, por que os clientes reclamavam.  Dias depois o resultado saíra, eram Sarcomas de Kaposi, estava aidética.

 

***

– Você é uma descuidada! Como pode fazer programas sem proteção?! Você tem uma sorte grande deu não estar contaminado, eu acabava com você se isso tivesse acontecido!

 

– Eu sempre me cuidei muito bem, Alberto! Deve ser um desses velhacos imundos que me arrumou que furou a camisinha! Sabe que me dói, de nenhum momento você se preocupar com a minha saúde, eu me apaixonei por você, mudei minha vida completamente para estar ao seu lado, larguei minha família, aceitei essa profissão, essa traição e para quê? Para ser tratada como um lixo!

 

– Você me faz lembrar quando eu tinha quinze anos e me apaixonei por uma garota mais velha. Eu tinha fixação por ela, ela era tão atraente, popular, inteligente, freqüentava os lugares mais requintados da cidade, levava-me para conhecer esse universo, eu, um adolescente fechado poderia finalmente ampliar minha vida, sair da miséria que a própria bolha me inseria. Isso foi bem antes deu começar a fumar e formar o meu grupinho. Mas ela sempre me esnobava, não se importava de ficar dias sem se comunicar, não sentia, não demonstrava estar ligada a mim. Aquilo me fazia tão mal, por que ela era meu ideal, o tipo de mulher que sonhei para mim.

Foi então, que na véspera de natal, o qual havíamos combinado de passar juntos, ela me telefonou dizendo que estava com laringite, preocupei-me e me dispus a cuidar dela naquela noite, mas me garantiu que não era necessário, afinal uma irmã já se comprometera. Acreditei e melancólico saí pelas ruas da cidade a olhar vitrines acesas, foi quando a avistei entrando no Cinemão com um homem da mesma idade. Aquilo me fez perder completamente racionalidade, armei uma confusão e quase parti para porrada com o sujeito. Ela se afastou de mim sem justificativas, até hoje quando lembro disso, corta-me o coração. Eu era apenas um jovem de quinze anos que desejava ser feliz. Se ela não quisesse que pelo menos havia dito, no fim ela disse da sua forma, eu que não quis enxergar. Criei uma resistência e talvez nunca mais consiga amar alguém tanto quanto a amei.

 

 

Lilian se jogou em seus braços.

– Me ame, Alberto! Ame-me! Eu sou louca por você, faria tudo para sentir que te faço feliz. Isso que te aconteceu foi injusto, mas não tenho nada a ver com isso e quero te provar que pode ser amado. Eu esqueço todas as nossas diferenças! Tudo que me fez! Se permitir-se ao menos se entregar a mim e querer!

 

Alberto a largou.

– Acha que eu não tentei? O meu encanto logo acabou depois da fuga! Não havia mais aventura! Não havia mais novidade! O jogo já estava ganho! Não tinha graça! Você é extremamente fácil, esse é o seu grande problema. Não se ama! Nunca vai conseguir conquistar ninguém! Agora pegue suas coisas e, por favor, saia do meu apartamento, nós não temos mais nada. Se quiser, volte à casa dos seus pais, eles sim, conseguem te suportar! Mas estarei na tocaia, se eu souber que entregou o meu negócio, meto bala em você e naquela merdinha da sua família.

 

Lilian se arrastou no chão, chorando de soluçar e agarrou-lhe a bainha da calça.

– Por favor, não faça isso comigo! Eu te amo! Eu faço qualquer coisa para…

 

Ele a devolveu com um olhar frio.

– Não. Você não me ama! Isso é uma doença e você precisa de ajuda! Agora saía, por favor, se não quiser que eu mesmo te bote para fora!

A lua nova refletia sua insignificância. Pareciam-lhe que havia retirado sua alma. Um vazio, uma cratera enorme abrira em sua existência, sangrava sem querer parar, corroia-a ainda mais. Como se odiava por ter se sujeitado a isso! Como se odiava por não ser a mulher perfeita a Alberto! Invejou furtivamente ser aquela mulher mais velha que ele se apaixonara há alguns anos, ser desejada naqueles moldes por um homem era seu sonho! Chegou a frente a sua antiga casa e descobriu para seu pesadelo que estava à venda.

 

***

A sorte fora que Márcia, sua antiga amiga nerd oriental dos tempos do colégio, ainda nutria por ela um sentimento de compaixão, por que se não fosse por isso, nunca lhe teria aceitado em seu apartamento. Uma admirável pessoa, de um nobre caráter, defendia a tese de que todo mundo merecia uma segunda chance.

 

Nos primeiros dias não fora nada fácil sair da cama. A depressão, o luto pós-término parecia interminável, por mais que Márcia defendesse que Lilian já o havia perdido fazia tempo. Para ela era tão fácil falar! Era poliromântica! Amava de uma forma leve, superficial, sabia bem até onde se doava pelo outro, não era uma enferma como ela que nunca fora ensinada a se amar e buscava preencher, a sugar isso, na atenção dos outros.

 

No decorrer das semanas, saía sempre cedo pela manhã e voltava tarde da noite, vagava pela cidade, praticamente de porta em porta oferecendo seu currículo secundarista, mas de nada adiantava, o país estava em crise econômica e os menos qualificados eram os que sofriam mais com o desemprego conjuntural. A saída fora partir para as ruas de novo como uma garota de programa do outro lado da cidade. Para piorar, numa noite quando passara mal e voltara para casa descobriu por um teste de farmácia: estava grávida e pelas contas : de Alberto.

 

Prometeu a si mesma que ele jamais saberia da existência daquela criança, a quem criaria com todo amor e carinho. Contudo, para Márcia, ela deveria procurá-lo, exigir um exame de DNA e adquirir os direitos legais que possuía. Num primeiro momento, ela repudiou a idéia, mas conforme veio o discernimento da situação: gastos com exames, remédios, enxovais, macacãozinho, decidiu não fugir mais e o procurou. A recepção foi uma das piores imagináveis, adotara aquela ninfeta como sua dama: Caroline Machado da Rocha, Rocha! O seu sobrenome, o sobrenome que um dia sonhara em ter no seu, mas que não passara de uma breve quimera.

 

Obviamente, que ele se recusou, não acreditou de sua paternidade, Lilian chegou até bater de frente com Caroline, porém, não desistiu. Ele acabou se irritando e aceitando fazer o teste para por fim aquele tormento e Lilian conseguiu comprovar e legitimar sua certeza: ele era o pai de sua criança, agora uma menininha, acabara de descobrir.

 

 

No entanto, no meio de tanta felicidade, eis que Márcia lera no jornal da microrregião de Vale azul, uma conurbação de cidades, na qual a dela fazia parte, a notícia de um acidente de carro com um casal de pré-idosos, para pesadelo de Lilian, eram seus pais. Sim! Eles agora haviam partido!

 

Enterrá-los foi como dizer adeus as memórias de infância, a seu passado bobo, porém, tão confortável e seguro. Agora era um marco, teria que andar com as próprias pernas, sem lenço, sem documento, sobre o vento…

 

Queria ter os revelado a gravidez, mas não sabiam para onde haviam se mudado, ela precisava aceitar que os abandonou, aceitar que fora a pioneira nesse processo de cisão, agora só consolidado com o óbito. Aquela seria a última semana de prostituição, a partir de então, ficaria impossível com um barrigão, atender as expectativas dos clientes e tivera a sorte de um Honda preto parar e ser tão revolucionário em sua vida.

 

Era oito da noite, o nome dele Sandro Zerescro, era um dos sócios do Banco London, ao contrário dos demais, pela primeira vez, não queria sexo, buscava companhia, num momento tão difícil, o divórcio de um casamento de dez anos pela descoberta de sua homossexualidade. Na verdade, desde muito tempo, sabia da sua orientação, mas negava-se a si mesmo numa tentativa de corrigir aquilo que julgava como errado, até por conta própria frequentara terapeutas defensores da cura gay, mas fora uma perda de tempo, por que ninguém podia fugir de si mesmo por muito tempo, a infelicidade mostrava logo a sua face e viver transformava-se em sobreviver. Ele parecia um homem muito sincero, o que a fez, no momento que ele esboçou certa curiosidade, abrir-se. Márcia era uma excepcional amiga, no entanto, parece que em nossa sede por mudanças melhores, os estranhos se mostram mais indicados. Não teve freios, não mediu palavras, apenas despiu sua história. Para seu espanto, ao final do relato, o juízo de valor do afrodescendente fora de apoio ao seu sofrimento, sem nenhuma ressaltava, evidenciou sua solidariedade e prometeu ajuda-la.

 

Márcia a perturbava nas semanas posteriores, quando todo fim de semana ele aparecia para busca-la para uma volta. Só acreditou na sexualidade do banqueiro, quando Lílian o convidou para um lanche da tarde e ele acabou revelando. Ajudava como podia, pagava todas as despesas do apartamento e das consultas pré-natais. Acompanhava-a nas visitas ao ex-namorado e nas provocações de Carol, uma megera de primeira classe.

– Vou adorar ser madrasta dessa coisa linda! Vou trata-la como se fosse minha filha! Abrir os olhinhos dela para o mundo!

Lílian rebatia.

– Ela não precisa disso, por que ela tem uma mãe!

Sandro a acalmava.

 

***

 

A grande surpresa mesmo surgiu nas vésperas do parto, meses mais tardes. Não fora apenas uma visita informal, Sandro a propôs um pacto:

 

– Simpatizei-me muito por sua trajetória, isso não é novidade, mas me deixe fazer mais por você e por essa bela garotinha que está esperando!

 

Lílian confessou-lhe meio lisonjeada:

 

– Defini o nome, Sandrinho, chamará Laura! E você será seu padrinho! Tem me ajudado tanto! É por isso que não entendo quando diz que poderia fazer mais! Fazer mais o quê? Já faz tanto por nós!

 

Ele completou:

– Quero saber se você quer se casar comigo?

 

Ela estranhou.

– Oi?

 

Ele esclareceu os detalhes de seu plano. Não queria confessar a sua família o verdadeiro motivo da sua crise matrimonial, mas ao mesmo tempo voltar a viver como antes seria repetir o mesmo erro, sendo assim, precisava encontrar uma alternativa e a mais pertinente, seria manter uma relação heteronormativa de fachada vivendo relacionamentos extraconjugais com o mesmo sexo. Márcia que defendia a bandeira da liberdade individual, escandalizou-se com a postura, tentou de todas as formas fazê-lo entender os preços da discrição, porém, ele já se decidira, só bastava Lílian aceitar e esta o fez.

 

***

O miado daquele nascer invadiu sua alma diante a cesariana, os olhinhos grudados, pezinhos mexendo, a cabecinha sujinha de líquido amniótico, emocionou-se junto e pode contemplá-la em seu corpo, enrolada num mantra. Como ela era linda! Virou-se para cima e percebeu que Márcia e Sandro de máscaras e roupas apropriadas abraçavam felizes. Laura seja bem-vinda ao mundo!

 

 

SETE ANOS MAIS TARDES…

 

Lílian abriu as janelas da cozinha e retirou as folhas secas do parapeito, perdeu-se no próprio jardim naquela manhã solar. Abriu a porta do quarto de sua menina e retirou-lhe os fones do ouvido, assoprando de leve, ela acordou se espreguiçando feito um passarinho e sorriu ao vê-la, enganchou em seu pescoço.

– Eu te amo, mamãe!

Lílian beijou sua bochecha.

– Eu também, minha querida.

A menina se lembrou e deu um sobressalto.

– Hoje é sábado, preciso preparar minha bagagem para a casa do papai!

 

E correu para o guarda-roupa. Lílian riu achando graça.

 

Sandro chegou a cozinha acompanhado de Fael, seu parceiro e se surpreendeu com o cheiro do café da manhã.

– Li, não me diga que fez suas famosas panquecas?

Laura que se lambuzava, devorando-as com mel, vai ao seu encontro, saltando no seu colo.

– Tio Sandro! O Senhor já está de pé a essa hora? O Senhor trabalha em pleno sábado?

Ele riu.

– Claro que não, Laurinha! Sentimos esse aroma da culinária de sua mãe e não aguentamos.

Laura abraçou Fael.

– Bom dia, tio Fael! Depois o senhor me ajuda a ler um livro, é sobre tamanduás e chinchilas.

Ele confirmou encantado.

– Claro, querida.

 

Nesse instante, o tempo fechou para Lílian, ela se apoiou na ponta da pia, a vertigem fora extrema, uma xícara se espatifara no piso.

 

– Está tudo bem, Lílian?

Perguntou Sandro, enquanto Fael ia ajudá-la a se erguer.

 

Ela estava petrificada, uma brisa forte empreguinara sua intuição. Não conseguia parar de pensar em sua menina.

 

Laura aproximou, acariciando suas mãos.

– O que houve, mamãe?

 

Mas ela não respondeu, o que podia fazer naquele momento era conter os pulsos da menina pelos seus dedos, enquanto sua pupila só se dilatava.

 

***

Não demorou muito para a buzina ressoar do lado de fora e Laura puxar sua mala de rodinhas, abrindo a sala de estar.

Lílian gritou.

– E o meu beijo?

A menina largou a mala e voltou correndo.

– Eu te amo, mamãe!

Lílian a acariciou chorando.

– Minha filha!

Laura não entendeu.

– Por que você está chorando?

Lílian não tinha muita nitidez sobre do que se trata, apenas precisava daquilo. Laura limpou as lágrimas com o polegar

– Não fica assim, não. Logo, eu estou de volta.

 

No carro, Caroline se contorcia esbaforida observando a cena.

– Você não vai fazer nada, amor? Nós combinamos com a minha mãe que íamos almoçar em sua casa. Essa mulherzinha não pode estragar tudo! É de praxe, ela vai ficar enrolando para liberar sua cria! Isso me tira do sério! Vontade de ir lá e puxar a menina!

 

Alberto obedece, desce do carro e se aproxima.

– Vamos, Laura!

 

Ela balançou a cabeça assertiva, voltou-se a sua mãe.

– Você vai ficar bem, né?

 

Lílian não sabia o que dizer, apenas a olhou entrar naquela caminhonete e vê-la sumir no horizonte.

 

Sandro e Fael ajudaram-na a se levantar e a entrar.

 

***

Mais tarde….

Todos estavam sentados a mesa de Flora, mãe de Caroline, quando Laura resolveu falar.

– Essa comida está maravilhosa! Gosto desse tempero, dona Flora. Saudades do seu bolo de chocolate e limão gelado, a senhora irá fazer como sobremesa?

Caroline se irritou.

– Escuta aqui, menina, onde você pensa que você está? Na casa da mãe Joana?

Alberto tocou o pulso da mulher e trocou olhares. Caroline não lhe deu ouvidos.

– Não é possível que você vai ser conivente com uma situação dessas, Alberto! Essa menina precisa de um corretivo sério! Ela não pode ir chegando na casa da minha mãe, a qual não tem nenhum vínculo afetivo com ela e ir exigindo as coisas!

Flora a interrompeu.

– Laura nunca exigiu nada, é um encanto de menina! Se ela perguntou, é por que gostou do meu bolo e só por isso, irei fazê-lo.

A menina pulou de alegria. Caroline bateu o guardanapo na mesa e saiu geniosa.

 

***

Mais tarde…

 

Lílian recebe em sua casa a visita de Marcia e a convida para um chá. Durante a conversa, a mocinha comenta com a amiga de longa data sua preocupação sobre a viagem de sua filha.

– Esse acampamento fica muito afastado daqui! Meu coração de mãe diz que era melhor não tê-la deixado ir.

Marcia opina.

– Laura está crescendo, é importante que ela tenha essas experiencias. Não pode prender sua filha debaixo das suas asas, esse talvez seja o grande erro que seus pais tiveram contigo, prenderam-te tanto que quando vivenciou algumas situações, perdeu-se, não soube lidar.

Lílian concorda em parte.

– Sim. Mas não é quanto a sair ou não sair! É sair com eles! Alberto renegou essa paternidade, sem contar que é uma pessoa totalmente irresponsável, contudo, o que me deixa mais preocupada, é aquela mulher. Eu vejo que ela não gosta de mim, nem da minha filha. Sinto isso quando a observo! É um desprezo! Um vício em querer chamar atenção, medir forças com uma criança! Tenho medo que ela a faça mal e Laura não me conte nada por medo. Ah, mas se ela tocar um dedo sequer no cabelo da minha filha, eu não sei o que sou capaz de fazer!

Marcia a acalma.

– Pensar nessas possibilidades não irá te fazer bem! Li, lutar contra isso, será em vão, você não pode impedir o próprio pai de ver a filha. Está na lei! E mesmo que acredite ser ele negligente e casado com uma megera, o que entre nós, concordo plenamente contigo, não há nenhuma prova concreta que retire dele esse direito! Acho que o melhor a se fazer agora é desapegar e procurar descansar nesses dias. Encontrar-se com outras áreas da sua vida e deixar sua filha curtir o acampamento.

Lílian rebate e se perde nas árvores lá fora.

– Ela nunca foi um peso para mim! Se vivo ainda é para ver a felicidade dela.

Marcia se aproxima, tocando-lhe o ombro.

– Mas isso não pode acontecer. Ser mãe pode ser a mais importante, mas não a única. E Lílian mulher? E Lílian amiga? E Lílian prima? Trabalhadora? Nadadora? Você sempre foi apaixonada por natação, amiga? Por que não voltar às aulas? Não carregue essa responsabilidade como exclusiva na sua vida! Acredito que nem mesmo Laura quer que isso aconteça.

 

***

Mais tarde…

 

Caroline fecha o zíper da mochila e abre com a chave tetra a porta da sala.

– Amor, vamos! É melhor não pegarmos um temporal na estrada!

Mas ele não responde. Ela então se dirige para o quarto de menina e se paralisa ao ver a mala de Laura aberta em cima de sua cama, roupas reviradas para todo campo e penas voando dada a guerra de travesseiro que Alberto e sua pequena resolveram fazer de última hora.

– Mas o que está acontecendo aqui? Isso é um pesadelo!!!

Berra a vilã. Os dois gelam.

Caroline avança contra a menina e a empurra contra a parede com violência. Alberto a contém. Laura começa a chorar. Caroline se retorce nos braços do marido.

– Me solta! Eu preciso acabar com essa pentelha insuportável! Que inferno de vida!

Laura só consegue responder.

– Bruxa! Sua Bruxa!

– Eu vou te mostrar quem é bruxa! Sua boneca de porcelana desgraçada!

 

***

ANOITECE…

 

Lílian acende um cigarro e observa pela varanda de seu quarto a fumaça de uma fábrica de bicicletas se diluir no ar. O cheiro das peônias, no entanto, estava diferente, algo a corroía por dentro e ela sabia bem o que era: o medo da perda.  Recordou-se da terapia e do quanto Olga a havia dito sobre os epicuristas em sua proposta de bem-estar ! Aceitar a imprevisibilidade do universo! Sentia um singelo luto dentro de si, uma paranoia, talvez! Sim! Uma paranoica! Mais brutal do que qualquer agressão doméstica Caroline pudesse fazer a sua pequena! Uma paranoia que aprisiona os amantes com a falsa sensação de liberdade! E os mata por dentro feito uma serpente maternal! Não podia cortar as asas da pessoa mais importante da sua vida!

Uma melodia a invadiu, percebeu que alguém tocava piano. Desceu as escadas e descobriu que era Sandro. Observou-o dedilhar entre sóls e mis e se encantou, permitiu-se fugir ali e deixar as preocupações de lado por um sistema, era seu grito de sobrevivência. Ele logo percebeu sua sombra e a convidou para sentar ao seu lado, deu-lhe um abraço.

– Ainda preocupada com Laura?

Ela balançou a cabeça positivamente. Ele sorriu.

– Espero um dia ser um pai como você é uma mãe!

Ela o corrigiu.

– E quem disse que você e Fael não são? São os papais corujas da minha linda! Aquele monstro é apenas de fachada!

Sandro se felicitou, pegou as mãos dela e a pôs nas teclas.

– Vem! Vamos tocar um pouco!

Ela riu e o acompanhou.

 

***

O temporal forte somado o patinar da caminhonete emporcalhou lhe os vidros. Caroline esmurra esbaforida o painel do carro.

– Tá vendo o que você fez, sua idiota? Com sua birrinha de criança mimada! Olha o estado que ficou o meu carro!

Laura segurou para não rir.

Caroline a beliscou irritada.

– Para de rir, sua peste!

Alberto a acalmou, puxando um guarda-chuva.

– Vem, vamos entrar no alojamento!

Caroline se recusou.

– Com esse vendaval! Essa tempestade! Você enlouqueceu? Não boto meu salto-alto nessa lama nem que a vaca tussa, meu nego!

Alberto deu de ombros.

– Eu te avisei para vir com uma bota de borracha! Vem filha, vou te levar para dentro!

Caroline puxou o braço da menina, mas ele conseguiu impedi-la.

– Olha, aqui, Alberto, se você levar essa protozoária para dentro! Você pode me esquecer, você está me ouvindo! Eu peço o divórcio na segunda-feira! Volta aqui, seu filho da mãe! Albertoooooo!

E pressionou a buzina a todo vapor aos berros.

– Voltaaaaaaaaaaaaa! Caralho!

 

***

 

Algumas horas mais tardes, depois do temporal cessar e montarem uma fogueira ao ar livre comendo marshmarlows, aparentemente as pazes foram seladas. Contudo, o teatro de Caroline instantes após irem dormir iria acabar e seu descontrole emocional traria consequências irreversíveis…

 

– Papai, acorda, papai!

Mas ele parecia cair em sono profundo.

– Acorda, papai, por favor!

– Huuuuuuuum ! O que você quer, garota?

Laura não acreditara que acordara a bruxa!

– Chama o meu pai, eu quero falar com ele!

A madrasta se irritou com aquela ordem.

– Você pensa que é quem? Poupe-me! Vai dormir, animal! Ótimos pesadelos!

E bateu a porta do quarto. Laura continuou a bater incessantemente. Caroline se irritou, dando um tapa na menina e a derrubando no corredor.

– Cala boca ! Para de encher a nossa paciência! Eu não sou mole igual o seu pai, não! Eu te dou uma surra que você nunca vai esquecer na sua vida! Malcriada!

Laura chorava. Caroline se irritou.

– Engole esse choro!

A menina começou a se coçar, a mulher percebeu do que se tratava.

– O que é isso no seu braço, garota?

Brotoejas vermelhas empipocavam das pontas dos dedos dos braços, passando pelas costas, até o joelho. Havia tido uma reação alérgica a uma picada de uma formiga enquanto estavam na fogueira.

 

– Você está muito vermelha! Está passando bem?

 

Laura abaixou a cabeça em lágrimas.

– Eu quero meu pai!

 

Caroline se preocupou.

– Mas você dá cada trabalho! Aguarde um minuto, vou pegar um casaco e te levar ao médico na cidade! Espero que melhore logo, daqui a pouco sua mãe me acusa de ter causado esse treco em você!

 

A menina chorava.

– Eu não vou a lugar algum com você!

 

Caroline se abaixou a encarando.

– Agora não é hora para discutir, sua anta! Se esse quadro evoluir e subir pelo seu corpo, virará um cadáver! Quer seu corpo seja comido pelas minhocas?

 

Laura tinha ódio da maneira como era tratada. Não entendia como seu pai continuava com aquela mulher!

 

Não demorou muito e logo estavam na caminhonete a caminho ao primeiro posto de saúde na região que pudesse atende-la.

 

***

Lílian acorda de um sonho terrível, olha para a cabeceira de sua cama e percebe que passara alguns minutos da meia-noite. Saiu para tomar ar pelo jardim com um corpo de leite nas mãos e estranhou as sombras que as árvores faziam na parede da casa. Eram medonhas! Bem diferente da climatização serena do dia-a-dia. Quando se aproximou do portão, percebeu que um vulto estava parado do outro lado da rua a encarando. Não conseguiu discernir muito bem e olhou pela grade, descobrindo se tratar daquela anciã de dez anos atrás que vir pela primeira vez no parque das Bicas. Toda vez que ela aparecia algo não estava bem. E fazia muito tempo que não a reencontrava. O que afinal de contas, ela estava fazendo ali? Será que queria-lhe dizer alguma coisa? Abriu o portão e a chamou.

– Senhora!

Mas a velhaca não respondeu, saiu disparate subindo a rua. Lílian chamou mais alto, saindo atrás, mas quando se deu conta, perdera-a de vista.

 

***

 

Caroline esmurra o volante

– Mas que merda! Que fim de mundo eu fui me meter! E tudo por sua culpa! Ai papai, quero tanto acampar! Com essa vozinha irritante! Não presta atenção em nada, é uma garota tola, sem graça! Na sua idade, eu não era tão purgante assim, não! Você deveria levantar as mãos para o céu por ter uma infância assim! Nunca passou fome! Você sabe o que é passar fome? Ouvir da sua mãe que não deu! E você ter que controlar aquele ímpeto tão instintivo dentro de si! Sabendo que milhares de pessoas desperdiçam comida! Patricinha folgada!

 

Laura destrava a porta.

– Eu não quero mais ficar aqui! Quero descer! Para esse carro!

 

E quando vai tirar o cinto, Caroline a impede.

 

– Você não vai a lugar nenhum.

 

A menina acaba se desequilibrando e caindo pendurada para fora do carro. A megera sorri, não pensa duas vezes e pisa no acelerador. Laura começa berrar ao ser esfolada na estrada. Mas Caroline tomada pelo ódio não queria nem saber, só parou muito tempo depois, quando mais nada se podia fazer.

 

***

NO DIA SEGUINTE…

 

Alberto se espreguiça na cama e percebe que sua esposa fumou um maço inteiro, estava com olheiras enormes, vestido amassado, não conseguira dormir.

– Amor, está tudo bem?

Ela o abraçou forte, chorava desesperada.

– O que foi? Por que você está chorando desse jeito? Nunca vi tão nervosa!

 

Ela não conseguia encará-lo. Só queria chorar e pedir ajuda, gaguejava.

– Eu sou um monstro! Um monstro!

 

Ele não entendia, preocupava-se aflito.

– Por que você está falando isso! O que aconteceu?

 

Caroline desviou o olhar e sem chão, desmontou-se no divã, olhando para o chão.

– Eu não sei nem por onde começar! Eu fui longe demais! E agora…

 

Ele se aproximou, agachando.

– E agora o quê? O que foi que você fez?

 

Sem escapatória, ela falou tudo de uma vez.

– Eu assassinei a Laura!

 

Closet no rosto horrorizado do homem.

 

***

Aquele homem estava em estado de choque. Ficou em silêncio por muito tempo no quarto, encarando um canto da parede e balançando o ursinho de pelúcia de sua princesinha. Só queria fugir, ir embora daquele mundo tão sem sentido, tão injusto. Depois de algumas horas, pálido, pediu a Caroline que o levasse até o corpo. Ela o tinha escondido dentro de uma gruta que se estendia por um pequeno caminho a pé que se abria da estrada principal. O desespero de pegar nas mãos os restos de sua menina o fez desmontar. Naquele instante o que Caroline mais queria era ter coragem suficiente para se matar.

 

Após um tempo, no qual já começara a se acostumar com o luto, tomou uma decisão, uma das pessoas que mais amava nessa vida já tinha partido, agora bastava lutar pela outra que restava, ajudou-a a enterrar o corpo num campo a poucos metros dali.

 

***

Ao anoitecer….

 

A campainha ressoou, Lílian foi correndo para o portão receber sua menina de volta e teve a notícia que jamais esperava ter de Alberto.

Caroline chorava, não conseguira sair do carro.

– Que cara é essa, Alberto! Onde está a minha menina, Alberto?

Ele não conseguiu responder. Lílian se irritou com o silêncio dele e escancarou a porta do carro, estranhando o choro de Caroline. Ali, percebeu a situação estava séria.

– Onde está a Laura? Caroline! Você fez alguma coisa contra ela?

A mulher não conseguia encará-la. Sandro se aproximou.

– Onde está a criança? Cara!

Alberto disparou a farsa.

– Foi sequestrada no acampamento! Acordei nessa manhã e não sei o que aconteceu!

Lílian o encarou atemorizada.

– O que você está falando? Que brincadeira de mal gosto é essa? Onde está a minha filha, Alberto? Onde está…

Ficou rouca, gritava muito alta. Ele não respondeu e uma força tomou-a por dentro, virou bicho.

– Irresponsáveis! Animais! Como vocês puderam levar a minha menina? Se alguma coisa acontecer com ela, eu mato vocês! Pelo amor de Deus, Sandro! A Laura! Isso não pode estar acontecendo! Sua cachorra! Você está feliz com isso, não é? Eu vou acabar com a sua raça!

Sandro teve que a conter com um sedativo forte, momentos depois, o impacto fora demais a ela.

 

***

A equipe de busca com apoio da polícia militar tomou os jornais do país inteiro. A busca pela pequena Laura invadiu muitos lares, o coração de muitas mães. Passaram-se meses sem notícia, quando Lílian começara a se acostumar com a ideia, eis que uma empresa de construção civil ao planejar um sítio arqueológico naquele campo, encontraram o corpo da menina.

 

***

Lílian saíra afoita do Instituto Médico Legal de São Paulo capital, completamente atordoada por não terem deixado ver sua menina. Os repórteres aproveitaram da situação para conseguir uma manchete.

– Lílian, o que descobriram a respeito da morte da sua menina?  Uma palavra, por favor!

Se pudesse, ela chutava aqueles sensacionalistas oportunistas! Até que não se conteve e rompeu em gritos.

– Vocês querem saber essa merda de informação! Não é? O resultado do laudo! Ela foi arrastada por quilômetros pendurada por um cinto de segurança! Agora me deixem em paz!

 

***

Semanas mais tardes, o enterro acontece. Uma multidão cerca o cemitério da cidade, pessoas de longe veem para prestar seus pêsames aquele desfecho trágico da violência infantil. Rosas negras são jogadas sobre o caixão lacrado, enquanto ele desce para sua cova. Sandro beija seu ombro esquerdo, Fael o direito. Ambos com óculos escuros. E quando novamente ela a vê. A anciã de longe ao lado de uma árvore ao fundo.

– Essa mulher de novo!

Sandro não entende.

– Que mulher?

Lílian aponta.

– Ela!

E sai desatinada atrás da velhaca. Sandro e Fael a chamam de volta, tenta contê-la, mas ela estava decidida.

– Dessa vez, ela não me escapa!

 

A velhaca saiu correndo e chegou a um ponto de ônibus, o qual um já contava com um veículo parado, esperando a população subir. Para seu azar, Lílian flagrara seu movimento e pedindo ajuda para Sandro e Fael, conseguiu segui-la finalmente.

 

***

Sandro estaciona o carro a alguns metros, atrás de uma árvore, no Parque das Bicas.

– Esse lugar, onde tudo começou!

Sandro a questionou.

– Do que está falando?

Ela responde sucintamente.

– Foi aqui que conheci Alberto e tudo isso se iniciou. Necessito fechar esse ciclo.

E abriu a porta determinada, não ouvindo o clamor de seus amigos.

 

O parque naquela manhã de Março não possuía muitas pessoas, exceto alguns casais caminhando pela pista principal. Encontrou a velha atravessando um arame farpado e por um caminho subindo uma colina de girassóis, atrás do parque, indo em direção a uma choupana. Seria a caseira do local?

 

Esgueirou-se pelos troncos retorcido das árvores que se preparavam para o Outono. Sentiu um cheiro familiar. Algo que a remetia a infância. Doce de abobora! Mas da onde os conhecia! Não conseguia se lembrar. Saltou o arame e encaminhou para o alto.

 

Quando se aproximava da casa, as janelas pareciam se revelar tortas, as madeiras ocupavam um ordenamento estranho, pareciam mal acabadas, os degraus da pequena varanda enchiam-se de musgo. Respirou fundo e apertou a campainha.

 

A porta se abriu, instantes depois, sozinha, rangendo alto. No alto da escada que se estendia a velha a encarava tenebrosa.

– Sua teimosia me convenceu! Seguir-me até aqui é digno de me conhecer. Entre!

Lílian respirou fundo.

– O que está esperando? Não vou mordê-la! Sou Vegana!

Com muito esforço, a mulher se adentrou. Tremia-se por inteira. A mulher desceu as escadas.

– Uma pena perder uma filha tão cedo, não me imagino como está se sentindo!

Sentiu um tom irônico naqueles dizeres. Estaria zombando de sua situação?

A velhaca lhe ofereceu um sanduíche de mortadela que comia.

– Deseja?

Lílian recusou com um sorriso torto. A mulher gargalhou.

– Ótima escolha. Tenho Herpes! Contaminar-te-ia !

A protagonista esboçou uma covinha de náusea.

– Bom…acho que você precisa se questionar para descobrir o que quer! Venhamos até meu quarto! Há algo que quero te mostrar!

Lílian hesitou um instante e se essa louca estivesse armada? Mas a insistência da mulher a fez pagar para ver.

As escadas rangiam ainda mais alto do que a porta. Retratos iam se revelando na parede, com os rostos cobertos por panos, lembrava muito o surrealismo.

 

No final do corredor, um cômodo pequeno, magenta, com uma cama de casal ao fundo e uma pequena cômoda se revelava. Havia um crucifixo na parede de frente para entrada e uma pequena suíte branco-azulada, em que a uma descarga de caixa logo se sobressaltava. A mulher irrompeu o silêncio.

 

– Não te faz lembrar nada o que aconteceu a dois anos, querida Lílian?

 

A mulher não entendia nada. Do que ela estará falando? Bebera?

Ao passar de perfil pela única janela do quarto, avistara Sandro nu brincando de pega-pega, feito criança, com Fael. Mexeu nos olhos assustada com o que estava vendo e a imagem simplesmente desapareceu.

 

A anciã puxou da gaveta embaixo da cama um antigo álbum de fotografia e nele folheara fotos, até encontrar uma, onde a partir de então resgatara no ímpeto de Lílian, a resposta que esperava. Um bebê e sua mãe. Seus cabelos estavam mais longos, nunca tivera cabelos longos! Mas…aquilo era tão. A anciã se aproximara e em sua camisa se lia.

– Doutora Olga Snark.

 

Ela não entendeu. Continuou desesperada a folhear o álbum, agora estava sentada na cama, fotos da maternidade, fotos do carrinho, fotos de Alberto e ela. Mas e Caroline? A voz da anciã agora parecia sua suave, como se fosse um pouco mais nova.

 

– Você precisa voltar Lílian! Você precisa aceitar o que aconteceu!

 

A mocinha começou a sentir uma dor terrível a assolar. Sua cabeça latejada, dava-lhe vertigem, era uma vontade imensa de vomitar, mas não conseguia. Engasgou e começou a chorar.

 

– Aceite e volte! Saia dessa ilusão! Aceite que você não teve culpe do que aconteceu! A depressão pós-parto é uma doença que precisava ser tratada! O temperamento, a rejeição ao fato pode provocar o assassinato do seu bebê! Você não precisa ter medo. Só aceite e volte, volte para o mundo real! Ficar preso a essa história tão ilusória, só irá te fazer mal! Volte! Volte….

 

Quando abriu os olhos, percebeu que estava em um manicômio. Na noite em que matara sua filha afogada na piscina, ainda bebê, assassinara seu marido, ateando fogo no quarto trancado. Vagara pela noite, sem rumo, até escolher uma prostituta da rua Toneleiros e em uma conversa confessar-lhe tudo, mas depois arrependera-se e a matar asfixiada com o travesseiro. Sendo encontrada nas redondezas do motel, de frente para uma placa neon avermelhada, que incessantemente borrava sangue em sua face, convidando-a para uma estrada de acampamento….

 

A data fora 3 de Outubro.

 

FIM

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