ATENÇÃO!

 

         O EPISÓDIO A SEGUIR CONTÉM CENAS E SITUAÇÕES QUE PODEM SER CONSIDERADAS EXTREMAMENTE PERTURBADORAS. SE VOCÊ TEM ALGUMA SENSIBILIDADE COM O CONTEÚDO QUE IRÁ CONSUMIR, É NECESSÁRIO CAUTELA POR CONTA DE POSSÍVEIS GATILHOS.


 

ATO DE ABERTURA


 

 

“A superstição põe o mundo em chamas, a filosofia apaga-as.”- Voltaire.

 

Mario Quintana, uma vez, escreveu um poema dedicado a uma lareira:

 

“A vida é um incêndio: Nela dançamos, salamandras mágicas…

 

Hilda joga gasolina em cima do cobertor onde seus pais adormecem e faz um rastro até a porta.

 

… O que importa restaurar as cinzas se a chama foi bela e alta?…

 

Os pais de Hilda acordam pouco a pouco e se deparam com a filha parada na porta. Adelaide exclama:

— Hilda? O que está fazendo aqui?

Hilda com um olhar diabólico e um sorriso mais obscuro que as trevas do verdadeiro inferno, diz:

— Não se preocupe, mamãe… Tudo o que eu faço por vocês é unicamente por amor.

 

… Em meio aos toros que desabam, cantemos a canção das chamas!…

 

Hilda pega a caixa de fósforo, dá um passo pra trás. Risca o fósforo, fica admirando aquela chama viva no palito. Seus pais intactos sem saber o que dizer.

 

… Cantemos a canção da vida, na própria luz consumida.”

 

— Únicamente… Por amor.

Hilda deixa cair o fósforo. Rapidamente a chama inflama com a gasolina e sobe para os cobertores dos pais de Hilda.

— AAAAAAAAAAAAHHHH! AAAAAAAAAAAAAAAAHHH!

A agonia, os gritos, a morte dando as boas vindas. E Hilda tendo os seus olhos brilhando ao ver os seus pais envolto das chamas.

O fogo querendo se espalhar pela janela. Edmund percebendo que algo estava errado.

— HILDA!!! NÃAAAAAO!!

 

A vingança de Hilda era o ápice de todo o seu sofrimento e de tudo o que passou.


 

RESIDÊNCIA DA FAMÍLIA GREENFIELD, 00H30.

 

Hilda observa por mais alguns segundos, seus pais pegando fogo. Ela sorri diabolicamente e se dirige ao quarto de sua filha.

Possessa de ódio, ela não hesita em riscar um fósforo e jogar no quarto da criança.

Ela sai do quarto. Vai para o corredor. Em qualquer parte onde jogou gasolina, ela risca um fósforo. Já havia pegado a sua mochila que, com certeza, tinha o dinheiro que recebera de Edmund.

Do lado de fora, Edmund grita por Hilda:

— HILDA! SENHORES GREENFIELD! MINHA FILHA!

Na estrada, em meio a esta noite fria, Wes está vindo em sua bicicleta desesperado e percebe a coloração amarelada vindo do casarão Greenfield.

— Meu… Meu Deus. O que…

Dentro do casarão, Hilda já está satisfeita como que fizera. Ela ouve o choro de sua filha de dentro do quarto e não sentiu o menor remorso em deixá-la para trás.

Ao começar a descer as escadas, eis que sua mãe vem correndo, ainda em chamas, com uma tesoura na mão para atacá-la.

Hilda se desvia para o corredor. Adelaide está com uma parte do rosto queimado.

— SUA VADIA BASTARDA! OLHA O QUE VOCÊ FEZ!

Adelaide avança pra cima de Hilda com a tesoura e tenta fazer de tudo para perfurá-la.

— Vou te mandar direto para o inferno, sua filha de satanás!

Hilda não se deixou intimidar. Chuta a barriga de Adelaide, que deixa a tesoura cair, e em seguida, ela apanha a tesoura e fura um dos olhos de Adelaide.

— Ahhhhh sua maldita!! Malditaa!!

— FICA LONGE DE MIM!

Hilda se afasta novamente para as escadas, o fogo que começou no corredor estava se aproximando de Adelaide.

Ela fixa o olhar para Hilda e a amaldiçoa:

— Isso não vai ficar assim, Hilda. Você vai morrer da mesma forma que eu. Vai sofrer como eu sofri. A sua vida será miserável e infeliz até o último suspiro que você der.

Ao terminar de pronunciar essas palavras, o fogo volta a consumi-la e dessa vez, Adelaide não resiste.

Hilda desce as escadas, vai correndo até a porta. Abre. Olha para trás. Percebe que mais nada a segura ali e parte.

No gramado, Edmund se aproxima dela.

— HILDA! O que aconteceu? Cadê a nossa filha?

— Espero sinceramente que tenha virado churrasco, aquela maldita bastarda.

— NÃO! NÃO… FILHA!!

Edmund não hesita e entra na casa.

— FILHA! MINHA FILHA!

Ele ouve o choro da criança no andar de cima.

— Eu estou indo, filha!

Ele sobe as escadas usando a manga da sua camisa para conseguir respirar por conta da fumaça.

Ele segue o choro do bebê. Finalmente encontra o quarto em questão e lá está a pobre criança no berço chorando, envolto das chamas.

— AI, MEU DEUS! MEU DEUS! Filha, o papai vai te proteger.

Edmund salta as chamas da porta do quarto e consegue alcançar o berço. Ele segura a sua filha no colo, e a embrulha no cobertor.

— Calma, calma, tá tudo bem. Eu estou aqui, filha. O papai está aqui.

Lá fora, Hilda pega a sua bicicleta para fugir, mas não esperava se deparar com Wes ali.

— HILDA?

— Wes, o que você tá fazendo aqui?

— Eu recebi a tua carta, o que… O que pensa que está fazendo? Por que a tua casa está pegando fogo?

— Se recebeu a minha carta, sabe muito bem que não deveria estar aqui. Esse foi o meu grito de misericórdia, Wes. Acabou!

— Não, espera. Pra onde você vai? Não pode sair assim, vamos lá pra casa!

— Não! Limita-se apenas em passar a mensagem adiante: Para todos em Beaconsfield, a família Greenfield está morta. Inclusive a sua única filha.

— Espera, espera…

Ele segura no braço de Hilda.

— Eu… Eu te amo.

— Eu te amo, Wes!

Hilda o beija apaixonadamente, já sabia que nunca mais voltaria a ver o amado.

Ela monta em sua clássica bicicleta de cestinha e foge dali, deixando Wes completamente desolado.

Dentro da casa, Edmund está lutando contra as chamas para conseguir salvar a si mesmo e a sua filha.

— Vamos conseguir, filha. Eu prometo.

Vendo que a situação se agravava em cada segundo que ficava ali, Edmund amarra um lençol na criança para ficar presa em seu colo. Em seguida ele pega um colchão que ainda não sofreu com o incêndio, e o usa como escudo contra as chamas. Rapidamente ele consegue se locomover, até que, por fim, chega à saída.

Wes o avista e se aproxima dele.

— Q… Quem é você? O que estava fazendo lá dentro?

— Cadê a Hilda?

Wes repara na bebê.

— De quem é essa criança?

— Pergunte pra Hilda… Ela deixou a própria filha dela pra morrer no incêndio.

Wes fica em choque. Não poderia acreditar que sua amada fosse capaz disso. E principalmente por ter engravidado de outro homem, mesmo ele tendo declarado todo o seu amor por ela.

Na estrada, Hilda seguia em sua bicicleta. Ela não olhou mais pra trás, aquela vida tinha que ser deixada para sempre, a sua única saída era renascer… E renascer através do pó, de onde veio e pra onde voltarás.


 

OPENING:

 

 


EPISÓDIO 7:

“EM CHAMAS”

 

                                ATO I


 

 

AMERSHAM, INGLATERRA, RESIDÊNCIA DA FAMÍLIA MELVICK- MANHÃ DO DIA SEGUINTE.

 

Um carteiro está na sua bicicleta jogando jornais nas casas uma por uma. Entre elas, o portão da casa dos Melvick.

Florence é quem está ali. Ela se aproxima do jornal lançado para o lado de dentro do jardim. O apanha, desenrola, o abre por inteiro e se assusta com a notícia da primeira página.

— PAI?

Ela se dirige até Craig que está sentado fumando um charuto em sua poltrona.

— Algum problema, filha?

— Olha isso!

Ela entrega o jornal a Craig. Ele pega com toda serenidade, mas imediatamente perde a compostura elegante em seu modo de sentar, levantando-se surpreso, e deveras, assustado com o que vê naquele jornal.

— Não… Não pode ser.

— Era essa a família de Beaconsfield, não era?

Tânia chega neste exato momento.

— O que houve?

Craig, com a voz embargada, responde:

— A… A família Greenfield. Houve um incêndio na casa deles… Todos morreram.

— O quê?

 

ESTAÇÃO DE AMERSHAM, INGLATERRA. 10 DA MANHÃ.

 

Hilda sai de dentro do trem com a sua bicicleta e se dirige até o banco mais próximo. Ela se acomoda ali e espera aproximadamente 30 minutos.

Em seguida, vemos no ponto de vista de uma pessoa, Hilda sentada ali no banco daquela estação. Os passos da pessoa aumentam conforme vai se aproximando dela.

Hilda percebe que tem alguém se aproximando e vira o seu rosto para o lado e, em seguida se levanta, dizendo:

— Até que enfim você veio!

E quem está ali é justamente Addan.

— Desculpa a demora, precisava despistar os meus pais pra vir até aqui.

— Então… Já sabem?

— Sim… Está nos jornais.

— Certo, Addan. Fiz o que você me orientou fazer, vim até aqui nesta maldita cidade. E agora… Vai me ajudar?

Addan dá um sorriso malicioso, sabendo que tem grandes planos para Hilda no futuro.


CENTRAL DA ILHA DA PHOENIX- DIAS ATUAIS.

 

Todos ainda estão tentando se recuperar dos últimos eventos que ocorreram. As mortes de Jennifer e Mason, e o ataque contra Edward, os abalou profundamente.

Ellie está se lamentando para o capitão Dan.

— Eu… Eu… Eles estavam sob a minha responsabilidade e deixei isso acontecer, como eu pude ter sido tão burra?

— Calma, Ellie. Não se culpe tanto.

— Não, eu fiquei presa enquanto aquele infeliz matou o Mason e tentou matar as meninas, eu…

Edward, ferido, e recebendo um curativo de Fionna, diz:

— Ei, ei! Relaxa, você… Você não tem culpa de nada. Fica fria.

Fionna complementa:

— Ellie, você foi ótima. Graças a você, a Ashley e eu ainda estamos vivas. Não se preocupe.

Ainda ali por perto, Lisa está conversando com seu pai.

— Eu… Eu senti tanto a tua falta, eu pensei que… Que eu ia morrer sem te ver novamente.

— Você tem o mesmo espírito desbravador de sua mãe, Lisa. Estou muito orgulhoso de você, minha filha.

— Pai… O que aconteceu com a Emily? Por que ela ficou assim? Por que ela tentou atacar a gente?

— Eu não sei, filha, eu não entendo. Enquanto ela estava aqui conosco, estava bem, estava lúcida. Fionna e Ashley sempre a estiveram a acompanhando de perto, ela nunca deu sinais que iria agir assim.

— Só pode ser coisa daquele maldito do Addan.

— Sim, filha. O Addan é o único culpado de todas as nossas desgraças. De todas!

Julian está sentado, encostado na parede do corredor. Victor se aproxima.

— Julian? Está bem?

— Não, eu não estou nada bem, Victor. Nada bem. Sabe, eu nunca fui de me deixar abalar por essas coisas, sabe? Mas hoje… Hoje eu senti. Agora eu entendo de você ter ficado daquele jeito quando a tua mãe morreu.

— A gente nunca sabe como vamos agir, então… É complicado.

Com todos ali no corredor, conversando, se lamentando, tentando superar o que aconteceu, o capitão Dan recebe uma chamada pela escuta. Ele se afasta um pouco de Ellie e atende.

— Sim?

— Sou eu.

Era a voz de Hilda.

— O… O que pensa que…

—… Não diga o meu nome, não levante suspeitas de nenhum deles. Quero conversar com você e com o Scott a sós… Na sala do Projeto Neon.

Ele olha para Scott e em, seguida, prossegue.

— Onde fica essa sala?

— Um corredor onde deve ainda estar encharcado e tem uma sala com uma porta vermelha, eu vou te ensinando o caminho, mas… Quero apenas você e o Scott. Temos negócios de família a tratar.

Dan avisa aos outros.

— Pessoal, eu preciso conferir se está tudo bem por aí e já volto. Scott, você vem comigo?

— Claro, pai.

Ellie se prontifica.

— Se quiser, eu posso acompanhar, capitão.

— Não, está tudo bem, Ellie. Fique aqui com eles e descanse um pouco, você já passou por muita coisa. Já voltamos.

Os dois viram o corredor e Dan sussurra para Scott:

— A sua mãe quer nos ver.

— O quê? A mamãe? Mas como que…

— Shh… Ela não quer que os outros saibam. Quer ter uma conversa em família entre nós.

— Será que é seguro?

— Bem, só saberemos quando chegarmos lá.


ESTAÇÃO DE TREM DE AMERSHAM, 1979.

 

Hilda fica incrédula com a proposta de Addan.

— Sheffield? Mas por que tem que ser justamente lá?

— Escuta, foi a melhor maneira que encontrei de te esconder. Um internato em Sheffield até você completar a sua maioridade. Depois disso, poderá trabalhar comigo. Tenho planos de fundar uma rede científica em no máximo 10 anos. Caso eu consiga, quero que se torne o meu braço direito.

— Com o tanto que me livre da imagem horrenda da família Greenfield… Eu topo qualquer coisa.

— Ótimo, talvez queira mudar de nome, podemos movimentar uma identidade falsa.

— Não, eu gosto do meu nome, por tanto odeio o meu sobrenome. Então ficarei conhecida apenas como Hilda, nada além de Hilda.

 

INTERNATO LA VOUILÉ, SHEFFIELD, INGLATERRA.

 

Hilda chega ao internato com uma mala pequena nas mãos, a diretora do instituto está conversando com os demais funcionários do local.

— A pobrezinha ficou órfã, não tem para onde ir, recebemos uma boa quantia adiantada de alguém para que tomássemos conta dela até completar 18 anos. Precisamos ajudá-la.


Em Amersham, Tania está parada lendo alguma coisa que sua filha Florence, mostrou a ela. Tânia para de ler, olha novamente para sua filha e dá um tapa seco nela.

— Como se atreveu?

— Mamãe, eu…

— O que pensa que vai fazer com essa criança, Florence? E quem é esse desgraçado que te violou?

— Ele não me violou, mamãe. Ele…

— NÃO SE ATREVA A DEFENDER ESSE MISERÁVEL!

Craig chega em casa e testemunha a cena das duas.

— Tá tudo bem aqui?

— Pergunte à sua filha, Craig. Veja só o que tua filha anda fazendo enquanto você vive saindo.

Ela mostra o teste de gravidez a Craig.

— Florence? Como que pode?

— Papai, eu posso explicar, eu…

— Você sempre foi um exemplo pra essa família, Florence. Como pode ter se deitado com um qualquer?

— Ele… Ele é farmacêutico, pai. É uma pessoa de bem, ele…

Tânia interrompe.

— Como ousa tentar justificar o seu erro, Florence? Você está errada e muito errada.

Em meio a discussão, Addan desce as escadas com uma camiseta regata branca e o cabelo desgrenhado.

— Não se pode mais nem dormir nessa casa, quais os motivos dos gritos dessa vez?

— A sua irmã está grávida de um qualquer.- Respondeu Tânia.

Addan, pegando um suco na geladeira, diz:

— Espera, sério? Caralho, maninha, parabéns! Até que enfim perdeu a virgindade, hein?

— Ai, cala a boca, Addan!

— É sério, finalmente alguém tirou essas teias de aranha aí debaixo.

— Fala isso agora, mas não duvido nada de que seja virgem também.

— Aonde eu ando colocando o meu pau, é problema meu.

Craig tenta contornar a situação.

— Já chega! Cansei dessa discussão. Florence? Quer mesmo ter essa criança?

— Eu… Sim, papai. Eu quero ter.

— Então está decidido. Você já tem 23 anos, me preocuparia mais se fosse menor de idade. Sabe o que está fazendo, por tanto cuide bem dessa criança e traga esse ser, no qual você diz ser pai desse bebê, para conhecermos. Vamos ver se esse maltrapilha é capaz de cuidar de um herdeiro da família Melvick.

Meses se passaram, e Florence dá a luz a uma menina: Violet. A futura mãe de Lisa e Emily.

— Como ela é linda!

Ao seu lado, está o pai da criança, Roger Von Carter, 20 anos, cabelo preto liso e cheio.

— Vamos cuidar muito bem dela, minha Florence. Eu prometo!


Dois anos se passaram, Hilda está prestes a completar 18 anos. Ela está do lado de fora do internato. Nessa época, o internato recebia esporadicamente visitas de patrulheiros, militares, e assim por diante.

Tratando-se de um internato para meninas, era normal que rapidamente um desses soldados se interessassem por elas, principalmente aquelas que não tinham para onde ir.

Entre essas visitas, um grupo de soldados e seu capitão estão fazendo um treinamento nos arredores do internato. A diretora conhecia o capitão e por tanto, tinha total confiança nele.

Entre os intervalos das atividades, Hilda está do lado de fora molhando os seus pés em uma torneira. De longe, um dos soldados olha diretamente para ela e fica encantado com tamanha beleza.

Ele rapidamente ignorou os colegas, se levantou e foi em direção à aquela bela moça que tanto balançou o seu coração. Precisava ser rápido, seu pai iria retornar a qualquer momento para chamá-los de volta.

Hilda está de costas, continua a lavar seus pés. O jovem loiro, belo, de olhos claros e um físico atraente para seus 19 anos, se aproxima dela de maneira respeitosa sem assustá-la.

— Oi!

Hilda desliga a torneira, se vira pra ele e incrédula, o responde.

— Oi?

Ele tira o chapéu e o leva às mãos.

— Me desculpe se te assustei, é a primeira vez que eu venho aqui e quis me apresentar. Meu nome é Daniel, Daniel West. Mas pode me chamar de Dan.

Um jovem capitão Dan acaba de se apresentar. Para ele, um poderoso grande amor está surgindo. Para Hilda, a oportunidade de uma mudança de vida bem na sua frente.


 

 

SALA DO PROJETO NEON- DIAS ATUAIS.

 

O Capitão Dan e Scott chegam de frente à sala do projeto Neon.

— Será que é aqui, pai?

— Acho que sim. Vamos entrar.

Os dois adentram já estranhando o ambiente caótico daquele lugar.

— Mas… O que foi que aconteceu aqui?

— Não sei, filho. Mas boa coisa não deve ter sido.

— Tem vidros no chão, um buraco na parede. Acho que aqui era o local que o outro monstro dormia.

— Possivelmente. Só não entendemos o motivo de estarmos aqui.

— Finalmente vocês chegaram.

Hilda surge na penumbra.

— HILDA?

— Mamãe? A senhora está…

— Ao se aproximar, Hilda aponta uma pistola para eles.

— Mãe?

— O que pensa que está fazendo, Hilda?

— Apenas me assegurando se vocês estão realmente sozinhos ou não estão planejando fazer alguma besteira.

— Estamos sozinhos como você pediu, agora faça o favor de parar de apontar uma arma para o seu próprio filho?

— ARMAS! Coloquem no chão todas as armas que vocês tiverem. AGORA!

— Mãe, eu…

— … Faz o que ela tá pedindo, filho.

Os dois colocam as suas armas no chão. Scott se afasta para mais perto de seu pai.

— Pronto, Hilda. Estamos desarmados, o que quer de nós?

— Ótimo. Eu precisava primeiramente ter uma conversa só com vocês dois. Em seguida vou precisar de mais três pessoas para comparecer ao recinto, mas no momento… Está na hora de colocarmos algumas cartas na mesa.

— O que você realmente quer?

— O seu pai já te contou como nos conhecemos, Scott?

— O quê?

— Seu pai já foi um homem muito ingênuo e puro até demais. Tão puro que sequer percebeu, que se casou com uma assassina.

— Do que está falando, Hilda?

— Antes de me conhecer, Dan… Eu era filha de um casal de fazendeiros ricos em Greenfield. Eu fui abusada fisicamente e psicologicamente durante anos pelos desgraçados dos meus pais. Como se não bastasse, minha mãe contratou um capataz para me estuprar. E adivinha? Meus pais e minha mãe ficaram na sala tomando vinho enquanto aquele capataz desgraçado me estuprava.

Dan e Scott ficam perplexos com o relato de Hilda.

— Mas o pior não era isso, Dan. Eu tinha apenas 16 anos naquela época. Esse estupro teve consequências… Eu engravidei!

— O quê?

— Sim, Dan. Aquele maldito dia, eu tive a infelicidade de gerar uma criança maldita em meu ventre. Foi aí que eu conheci o Addan. A minha família e a dele queriam que nós dois nos casássemos para firmar a sociedade entre a fazenda Greenfield e a Melvick S.A. Eu sabia que isso não iria rolar da minha parte, mas vi no Addan, um ótimo aliado para executar a minha vingança. Ele me ofereceu ajuda e eu aceitei, mas precisava ser paciente o bastante para executar o meu plano. Então… Os dias se passaram, e eu dei a luz! Sim, dei a luz à uma menina.

Scott, incrédulo, pergunta:

— Espera um pouco, eu tenho uma irmã?

— Sim, Scott. Mas essa não é a parte interessante ainda. Você não faz ideia do ódio mortal que eu senti por essa maldita bastarda. Ela destruiu a minha vida e precisava acabar com ela e com meus pais. Então, certa noite, eu peguei galões de gasolina, espalhei pela casa toda e incendiei tudo! Eu matei meus pais queimados.

— Ai, meu Deus! Hilda?

— Sim, Dan! Quer saber se eu me arrependo? Quer saber se eu senti algum remorso por ver meus pais fritando daquele jeito? NÃO! Não senti nenhum remorso. Eu adorei ver aquilo, eu poderia passar horas assistindo, mas precisava fugir. Eu pensando que a vagabunda da minha mãe já estivesse morta, ela veio atrás de mim e eu ataquei perfurando ela com uma tesoura em seu olho. A vadia me amaldiçoou e disse que tudo o que acontecesse com ela, aconteceria comigo. Então… Eu também taquei fogo no quarto onde a neném ficava. Estava ansiosa em ver aquela bastarda virar espetinho do demônio.

— Meu Deus, Hilda. Como pôde?

— Então eu fugi! O Addan me ajudou a fugir. Mas sabe qual é o pior, Dan? Sabe qual é o pior, Scott? É que eu passei anos da minha vida acreditando que a bastarda da tua irmã teria morrido naquele incêndio, mas não! O filho da puta do pai dela a salvou naquele dia. Eu só soube agora como aquele feto maldito sobreviveu. E como se não bastasse, anos depois os nossos caminhos se cruzaram novamente e sou obrigada a ter que ver o rosto da minha maldita filha anos novamente. Bem aqui… Nesse maldito lugar.

Scott pergunta:

— Espera, está dizendo que… A minha irmã está aqui?

— Sim, Scott. Sua irmã está vivíssima.

— Quem é ela, Hilda?

— Sabia que você não iria se aguentar de tanta curiosidade, Dan.

— Mamãe, onde ela tá? ONDE TÁ A MINHA IRMÃ? E QUEM É ELA? ME RESPONDA, MÃE! QUEM É MINHA IRMÃ?

Os passos de alguém se aproximam atrás da penumbra, acercando-se a Hilda.

— Pode ter certeza que você iria preferir morrer do que saber quem é a tua irmã.

Hilda dá um passo para o lado e revela a pessoa que está atrás dela e que não era quem esperávamos.

— Cumprimente o seu irmão… Abigail.

Abigail dá um sorriso insano. Scott e Dan ficam totalmente baqueados. Mas não era Ashley a filha de Hilda? Ou tudo não passa de um blefe? Quem está falando a verdade?


                 

                            ATO II


 

 

SALA DO PROJETO NEON- DIAS ATUAIS

 

Dan e Scott estão perplexos com a revelação de Hilda.

Abigail desce do palanque onde ambas estavam e vai diretamente a Scott.

— Ai, finalmente pude conhecer o meu irmão, prazer!

Scott se afasta, assustado.

— O que é isso?

— Hilda, eu exijo uma explicação sobre tudo isso.

— Quer explicação melhor do que essa? Edmund, o maldito capataz que me estuprou, tirou a menina de dentro da casa no dia do incêndio. Ele a criou sozinho até ela ir parar nas mãos do Dr. Addan. Resultado? Agora ela é de fato uma aberração… Uma mutante, assim como a pirralhinha da Emily.

— O que disse? Ela…

— Sim, ela também é mais um experimento do Dr. Addan. Suba pra cá, Abigail.

Abigail sobe ao palanque novamente e fica atrás de Hilda.

— O que houve com o pai dela?

— Bom, esse sim eu sei que tá bem mortinho. Ele era mais velho que o próprio Addan, mas isso não vem ao caso.

— Por que nunca me contou nada disso, Hilda? Eu poderia ter te ajudado de alguma forma, você foi uma vítima, não precisava ter ficado assim.

— Acontece que você era bom demais pra mim, Dan. Eu queria de uma vez por todas esquecer o meu passado e me desvincular da família Greenfield. Se eu te contasse, você não iria querer ficar por baixo, e daria um jeito de ir atrás do Edmund e da minha filha. Eu não podia permitir que naquela altura do campeonato, eu voltasse pra estaca zero, precisava seguir em frente!

— Então você me usou esse tempo todo pra poder sair daquele internato?

— Não exatamente, entenda. Eu realmente vi em você, uma oportunidade de mudar de vida, eu iria completar 18 anos naquele ano, e não poderia passar o resto da minha vida dependendo das esmolas do Dr. Addan. Ele era o único que sabia que eu estava viva, mas tive medo de um dia ele se cansar de mim, então… Você apareceu naquele dia no jardim! Se isso te consola, te achei sim um homem atraente e sim, eu tive um sentimento por você. Então não quero que pense que tudo que aconteceu entre a gente, foi uma mentira. Quando você me pediu em casamento, mesmo contra as vontades de seu pai… Eu quis de vez esquecer o meu passado e voltar a ser aquela doce menina que eu era quando criança. Nunca mais voltei a entrar em contato com o Addan novamente, apenas o deixei informado de meu trajeto. Nos casamos e você, ao ser promovido, começou a ganhar mais dinheiro e conseguimos uma ótima casa com o dinheiro da herança da tua mãe. Tudo ia muito bem, tínhamos uma vida de casados perfeita! Até que…

— … Até o quê, Hilda?

— Bom, esse é o momento que vou precisar que chame mais três pessoas para esta reunião. Tenho assuntos pendentes a tratar.

— Quem?

— A Ellie e os irmãos Tunner.

— Os Tunner? O que eles tem a ver com tudo isso?

— Ah querido, pode ter certeza que eles vão adorar saber o que eu tenho a dizer.

— Infelizmente só há um Tunner agora: O Cristhian. O seu irmão morreu na praia antes de virmos pra cá.

— Ótimo! Melhor ainda. Faça uma chamada para a Ellie. Peça que ela chame o Cristhian e eles dois terão que vir para cá. E sabe muito bem o que eu vou fazer se eles chamarem mais alguém, não é?

O Capitão Dan não tem escolha. Sente a urgência de saber todos os segredos que Hilda precisa contar.

 

Alguns minutos depois, Cristhian está no corredor conversando com Lisa e Makoto. Este último diz:

— Obrigado por cuidar bem da minha filha, jovem. Sabes bem que minhas filhas são tudo que eu tenho.

— Não tem que me agradecer em nada, senhor Ishihida. Fico feliz que esteja bem.

— O Cristhian nunca foi um soldado, papai. Recebeu o treinamento junto comigo e veio aqui pra salvar vocês.

— É louvável a sua coragem. Merece ser muito feliz na vida.

— Obrigado, senhor.

Ellie se aproxima.

— Cristhian, pode me dar um minuto?

— Ah… Sim, claro. Eu já volto, gente.

Cristhian se desencosta da parede e vai até Ellie. Ela o leva para um canto mais afastado dos outros.

— Escuta, o capitão quer ver nós dois na sala do projeto Neon.

— Mas por quê?

— Não quis me contar, só disse que não era pra chamarmos os outros.

— Que estranho! Isso não é do feitio dele.

— Também achei muito estranho, mas como o Scott também está com ele, deve ser algo importante. Vamos?

— Beleza. Vamos!

Ellie e Cristhian saem dali. Victor os observa e começa a estranhar essa movimentação.

Alguns minutos se passam. Ellie e Crishtian finalmente entram na sala do projeto Neon. A primeira pergunta:

— Capitão? O que…

Ela avista Hilda ali no palanque próxima ao recipiente onde Neon adormecia. Imediatamente saca uma arma.

— O QUE ELA TÁ FAZENDO AQUI?

— Ellie, calma!

— Como assim, capitão? Ela é uma assassina!

Cristhian pergunta:

— E quem é aquela mulher que tá do lado dela?

Hilda fala com desdém:

— Ellie, Ellie. Incrível que depois de tantos anos, você não muda absolutamente nada, né?

— O que pensa que tá dizendo, sua psicopata maluca e desprezível? Você…

O capitão Dan tenta interver.

— Ellie, por favor, abaixa a arma.

— Mas capitão…

— Ellie, por favor!

Ellie bufa e guarda a arma. Scott diz:

— Ela pediu pra vocês dois virem aqui, porque tinha assuntos pendentes a tratar com vocês.

Cristhian, incrédulo, pergunta:

— Espera. Comigo? E o que eu tenho a ver com isso?

Hilda responde:

— Você tem muito a ver com o que será dito aqui, jovem Tunner. Mas vamos por partes e por ordem. Vou pular toda a parte que eu matei meus pais queimados, fui estuprada e tive como filha, essa que vocês estão vendo agora. Vamos para a parte onde o Dan me pediu em casamento, o senhor Daniel West, pra ser mais precisa.


 

 

SHEFFIELD, RESIDÊNCIA DE DAN, 1984.

 

Dan e Hilda estão admirando a nova casa.

 

Eu estava empolgada em mudar de vida, sair daquele internato foi a minha carta de alforria.

 

— Essa casa é maravilhosa, amor! Obrigada por ser tão bom pra mim.

— Tivemos muita sorte em conseguir essa casa. Minha mãe até no céu, me ajudou. Eu não teria conseguido se não fosse ela.

— E o seu pai? Ele… Voltou a falar com você?

As relações entre o Dan e o pai dele ficaram de mal a pior por minha causa, e olha que eu nunca quis que ele cortasse relações com a família.

— Sabe como é. Um dia ele vai aceitar a gente. Não precisamos nos preocupar com isso.

Ele a beija no rosto.

 

Foi se passando o tempo e eu já havia me esquecido completamente de quem eu era antes de conhecer o Dan. Já fazia um tempo que eu não sabia nada do Addan, e eu estava bem melhor assim. Finalmente estava tendo uma vida normal, comecei a trabalhar em uma floricultura. Talvez as raízes empreendedoras da minha família ainda estava um pouco em mim. Então dei o sangue pra tornar essa floricultura, muito bem aceita naquele lugar.

Do fruto do nosso matrimônio, eu engravidei. Confesso que tive medo no início, mas como eu havia prometido a mim mesma que iria deixar o passado pra trás… Resolvi seguir adiante com isso. E antes que me perguntem, sim eu estava feliz. O Scott nasceu. Enfim eu estava tendo uma família de verdade.

A medida que o Scott crescia, o Dan ficava cada vez mais compromissado com o trabalho. Não estava dando a atenção merecida ao nosso Scott. Aquilo começou a me preocupar. Antes ele sempre chegava para o jantar e agora mal dormia em casa.

Eu tentava ser compreensiva, tentava entender que entrar pra área militar, é um árduo trabalho. Então cada vez que ele recebia uma promoção, ele “desaparecia”. Eu não conseguia mais ter aquela conversa saudável com o meu próprio marido, estava cansada de tudo isso.

Então, certa vez, deixei o Scott na escolinha, fechei a floricultura e fui até a estação de trabalho do Dan. Eu cheguei lá me apresentando como a senhora West, é claro. E foi então, enquanto eu aguardava, que eu me levantei e vi… E vi aquela cena que me enlouqueceu.

A vagabunda (sem ofensas, querida) da Ellie ali com o braço escorado no ombro do meu marido na maior intimidade do mundo. Pela primeira vez eu senti um ciúme misturado com uma incerteza e insegurança. Eu soube só depois que não era bem aquele tipo de ciúme de uma mulher pelo seu marido. Eu senti ciúmes porque aquela vadia poderia prejudicar todos os meus planos.

Por favor, eu havia ganhado na loteria: Esposa de um militar respeitado, com um filho, um trabalho próprio… Eu não podia deixar que uma oficialzinha de merda tirasse isso de mim.

Hilda se aproxima de Dan e Ellie (Ela ainda jovem).

— Olá.

— Ah, meu amor? O que faz aqui?

— Vim fazer uma surpresa para o meu marido. Ah não ser que eu não possa.

— É claro que pode. Ellie, quero que conheça a minha esposa Hilda. Hilda, essa é a Ellie, cadete da aeronáutica. Está se preparando para se tornar aspirante a oficial.

— Muito prazer, senhora Hilda. O Tenente fala muito da senhora (nessa época, Dan ainda não havia se tornado capitão). E estou supresa que é mais jovem e bonita do que imaginei.

— Não é pra tanto, querida.

— Bom, eu vou ver se o coronel está precisando de ajuda. Deixarei vocês a sós. Até logo, tenente! Até logo, senhora.

Ellie sai dali, mas deixa Hilda ainda com uma incerteza.

— Está tudo bem, meu amor?

— Sim, sim, eu… Nada. Só vim te ver mesmo.

— Me desculpa, meu amor. Sei que tenho trabalhado muito, mas vou me empenhar pra estar mais presente. E como está o Scott? Não trouxe ele?

— Ele ficou na escolinha, ele…

Um homem interrompe.

— Tenente, o coronel deseja falar com o senhor.

— Ow, ok. Querida, eu preciso ir, nos vemos nos jantar?

— Claro, claro.

Ele beija a testa dela e segue o outro policial deixando Hilda desconternada.

Não teve jantar nenhum! Nesse dia eu fiquei esperando ele até às 22h. Arrumei a mesa, fiz um jantar especial pra ele, o Scott já tinha ido dormir. Eu o fiquei esperando na mesa tomando a minha taça de vinho branco.

Ele chegou com cara de cansado e ao mesmo tempo, com um cinismo que me irritava.

— Meu amor, eu…

Não quis ouvi-lo. Me levantei e fui direto para o meu quarto.

Espera, Hilda! HILDA!

Daí por diante, nossas relações foram piorando gradativamente. Chegamos aos anos 2000, o Scott estava ficando cada vez mais rapazinho. E a medida que o Dan era reconhecido em seu pelotão, a tal da Ellie ficava cada vez mais próxima da nossa família.

Isso começou a me incomodar profundamente. Festas de fim de ano, confraternizações da empresa, aniversário do Scott… Tudo essa vadiazinha tinha que estar presente. Cada dia que passava, aumentava a minha certeza de que eles estavam tendo um caso.

Eu não pude comprovar, é claro. Tudo não passava de apenas especulações, mas cada dia que eu via aquele sorrisinho idiota em direção a ele, eu sabia que ela não tinha apenas uma admiração por ele. Ela realmente estava interessada.

Os anos foram se passando e, para evitar passar estresse, comecei a tocar piano. Consegui com um tempo, comprar um com o meu próprio dinheiro. Ali eu estava dentro do meu mundinho. Queria ignorar o fato de que possivelmente meu marido estava me traindo.

Mas teve um dia, aquele bendito dia. Que eu estava plena tocando o meu piano em um domingo à tarde. Dan chegou. E ele tinha que mencionar o nome daquela mulher.

— Ellie se ofereceu para organizar a festa de Halloween pro Scott. Assim você não precisa mais se preocupar com isso.

Eu imediatamente parei de tocar e pousei minhas mãos firmemente sob as teclas. Ele continuava falando dela: “Ellie pra cá, Ellie pra lá”. Até que não suportei mais aquilo e me levantei. Não sabia o que eu ia dizer, mas sabia que não iria medir minhas palavras.

— Escuta! Desde quando essa Ellie virou proprietária da nossa família, hein?

— O que disse?

— Já faz mais de 10 anos, que a cada 10 palavras de seu vocabulário, 12 é pra falar dessa mulher.

— Hilda, ela é só uma colega de serviço, ela…

— Uma colega do serviço? Uma colega que participa de todos os eventos em família, se esquece que trabalha com um homem que tem esposa e filho, e pior… Ainda usa o meu filho pra se aproximar de você e da gente.

— Você está exagerando, Hilda. É apenas um ciúmes idiota.

— Um ciúmes idiota? Desde que eu aceitei me casar com você, eu fiz de tudo para ser uma boa esposa, eu estive presente em todos os momentos importantes da tua vida, mesmo quando o seu pai o deixou de lado. Quando você foi promovido, eu te apoiei. Mas toda vez, toda maldita vez, você passava mais tempo trabalhando do que com a sua esposa. E curiosamente isso passou a acontecer depois que essa desqualificada começou a trabalhar com você.

— Você está com ciúmes, Hilda! Não existe nada entre mim e a Ellie.

— Então prove! Prove que não teve nada com ela.

— Eu não tenho como provar nada. Você precisa confiar na palavra do teu marido.

— Mas é claro… Você estava procurando uma vagina mais jovem e saudável que a minha, né?

— Fale baixo, o Scott pode escutar esse linguajar.

— Tudo bem, Dan. Você venceu… Mas não estranhe se um dia eu procurar um pênis muito maior e mais avantajado que o seu.

Naquele dia eu sabia que a situação iria piorar, então o Dan começou a fazer de tudo para me agradar. Chegava mais cedo em casa, me comprava presentinhos, mas nada daquilo estava me satisfazendo mais. Eu fui perdendo aquele encanto pelo Dan pouco a pouco.

Mas até aí estava “tudo bem”, eu iria conseguir tocar minha vida adiante com ou sem o amor do Dan.

Mas eu não estava preparada para mais uma armadilha da vida. Meu passado mais uma vez voltou a me assombrar. Então estava eu em frente à floricultura certo dia, e um homem se aproximou de mim.

— HILDA!

Eu virei pra trás e vi algo que me balançou. Só podia ser um sonho, uma miragem, alguma coisa do tipo. Minhas pernas ficaram bambas, eu não podia crer naquilo que eu estava vendo. Seria real? Seria uma alucinação? Na minha frente estava ele… Wes. Meu primeiro grande amor.

Antes que um de vocês me interrompam, eu conheci o Wes na minha adolescência. Wes fez parte do meu passado, mas incrivelmente ele era a única coisa boa do meu passado, então… Eu precisei me permitir acessar isso novamente.

Saímos para tomar um café, o Wes começou a me contar que havia se divorciado. Que nunca conseguiu amar outra pessoa em sua vida. E, sem ofensas, Dan, mas eu também não. O que eu sentia pelo Wes era muito vívido e único. E ele tinha ficado um homem tão, mas tão bonito. Diferente de mim que, com todo o estresse, parecia que eu envelhecia cada dia mais.

Nossos encontros passaram a se tornar cada vez mais recorrentes, não havíamos feito nada de errado ainda, mas eu me sentia bem quando eu estava com ele. Ás vezes eu esquecia que tinha um marido ausente, porque me sentia preenchida apenas com a presença dele.

Já contei as vezes que eu me deitava na cama e o Dan tentava ter relações comigo, mas eu sempre recusava. Não precisava, já tinha tido um ótimo dia na companhia do Wes e isso porque não tivemos trocas carnais.

Com o passar dos meses, eu vi que nada mais me ligava ao Dan, então estava disposta a pedir o divórcio em breve. Eu estava cada vez mais louca e apaixonada pelo Wes.

Começamos a ter relações sexuais depois de uns 5 meses que estávamos saindo juntos, eu pensei: A essa hora ele deve tá penetrando aquela vagabunda, então pra que eu vou ter pena? Pra quê eu vou ter dó?

Porém o meu caso com o Wes estava se tornando cada vez mais flamejante, e antes que eu achava um absurdo eu fechar a floricultura para transarmos lá dentro, nosso fogo começou a se incendiar por toda a parte.

Foi aí que… Em um desses dias atípicos, em um desses dias que o nosso fogo saiu de controle, que houve aquele fatídico dia. Você deve se lembrar não é, Dan? Deve se lembrar daquele dia que você tenta esquecer.

Wes foi até a minha casa no final da tarde, eu disse que era uma péssima ideia, o Scott não estava em casa, mas fiquei com medo de sermos pegos. Ele me agarrou e começou a me beijar e me prensou contra a parede enquanto saboreava o meu pescoço com aquela língua sexy, que me deixava louca.

Estava louca para que ele me penetrasse ali mesmo. E daí se eu estava na casa do meu marido? Valia a pena o risco, não é mesmo?

Foi aí que quando ele estava levantando a minha saia e pronto pra baixar o zíper da sua calça, a porta da frente se abriu. Estávamos com tanto tesão que não imaginei que fosse alguém chegando. Mas enquanto eu me mergulhava de prazer nos braços daquele homem, eu pude ver através da ponta de sua orelha, um Dan incrédulo e destroçado.

Naquele dia, ele chegou mais cedo para dar a notícia que havia sido promovido a capitão e que queria comemorar com a esposa… Aí eu acabei com o sonho dele! Ele estava com um buquê de rosas e deixou cair no momento que testemunhou a sua esposa nos braços de outro homem.

Eu pensei: Ah, foda-se! Ele também estava me traindo, e eu já iria pedir o divórcio do mesmo jeito, então não ligo.

Mas a situação fugiu do controle e foi pior do que imaginei.

— D… Dan?

Wes para de beijar Hilda e se afasta.

— O… O que é isso, Hilda?

— Dan, eu…

— O fato de você achar que eu tenho algum tipo de relação com a Ellie já te torna apta para me trair com um qualquer dentro da minha própria casa?

— Escuta, irmão. Acontece que…

— … Cala a boca! Eu ainda não me dirigi a palavra a você. Como pôde, Hilda? Dentro da sua própria casa? Dentro da casa onde criamos o nosso filho?

— Eu já estou cansada, Dan! Cansada! Essa droga de casamento já não estava mais com nada há anos.

— E você me trai… Depois vocês mulheres montam um discurso feminista barato falando que todos os homens são iguais. Eu nunca nem sequer cogitei em trair você, Hilda… Mas pelo visto a minha palavra de nada valeu. E aí…

Dan puxa seu revólver.

— … Você me trai com esse filho da puta.

— Espera, Dan! Espera, não precisa fazer isso.

Wes fica com as mãos levantadas, Hilda se coloca na frente dele.

— Por que eu deveria parar? Um homem traído é capaz de qualquer coisa, Hilda. Não assiste os noticiários da TV? Me dê um bom motivo para não matar esse filho da puta.

— Você não é como todos os homens, Dan. Abaixa essa arma!

— Agora eu não sou como os outros?

— Por favor, eu…

— POR FAVOR, O QUÊ? HEIN? Deveria ter pensado nisso antes de colocar um desconhecido dentro da nossa própria casa. Quantas vezes o trouxa aqui saiu pra trabalhar pra deixar os dois pombinhos aqui a sós transando?

— Dan, por favor…

— Eu sou um bosta mesmo, não é? Acho que… Eu não mereço esse cargo de capitão depois do que eu vou fazer.

Dan mira o revólver direto para Wes. Ele reage, parte pra cima dele. Segura a sua mão para o alto, a arma dispara no teto.

— PAREM! PAREM, POR FAVOR!

Wes consegue fazer com que a arma de Dan fosse parar no canto da janela. Dan dá uma ajoelhada no estômago dele e em seguida o arremessa em cima do piano.

Ao cair, Dan se aproxima para continuar a golpeá-lo. Wes o chuta, o empurrando para trás. Wes levanta, vai em direção à porta da frente. Dan se levanta rapidamente e impede a passagem do rapaz puxando os seus cabelos.

Ele fecha a porta da frente e golpeia o rosto dele contra a porta. Wes dá uma cotovelada em Dan e o empurra contra o sofá. Hilda tenta se aproximar para apartar os dois, mas Dan a empurra com toda a força e ela cai próxima à parede.

Wes se enfurece, avança pra cima de Dan. Ele dá um soco nele, Dan revida com outro soco.

Caída, Hilda avista a arma perto da cortina na janela. Ela se arrasta até lá enquanto os dois continuam distribuindo golpes um no outro. Hilda pega a arma, se aproxima dos dois.

— PAREM!

Eles não dão ouvidos, continuam no chão se batendo e se atacando.

— EU DISSE PRA VOCÊS DOIS PARAREM!

Hilda, assustada, acaba puxando sem querer o gatilho e isso resultou no inesperado.

— Ai, meu Deus! Meu Deus! O que eu fiz?

Dan levanta do chão atordoado, ele olha para o lado e vê Wes ensanguentado.

— Hilda? O… O que você fez?

Wes recebeu um tiro na parte de trás da cabeça. Não tinha mais jeito, ele já se encontrava sem vida.

— Não… Wes… Não!

— Ele… Ele tá morto.

— Não, não pode ser. Eu não queria, eu…

Dan se levanta e tira a arma da mão dela.

— Calma, calma, é… Ai, meu Deus!

Eles ouvem a voz de Scott chegando em casa.

— Puta merda, é o Scott, distraia ele, Hilda!

Hilda corre até a porta e Scott (adolescente na época) estava quase abrindo.

— Mãe.

— Oi, querido. Tudo bem? Chegou cedo!

— Tudo, mãe.

— Escuta, por que você não dá uma voltinha com seus amigos por aí e depois volta?

Enquanto conversa com Scott na porta, Dan vai arrastando o corpo de Wes para outro lugar.

— É que… A mamãe viu um rato e acabou exagerando e quebrei algumas coisas na sala, então tem cacos de vidro por todo o lado, então é melhor não entrar pra não se machucar. Vai brincar com os amigos, em 1 hora e meia mais ou menos você volta.

— Tá bom então, mamãe. Beijos!

Scott sai para brincar. Hilda entra na casa de volta. Dan se aproxima.

— Onde você o colocou?

— Na dispensa. Hilda, isso não pode ficar assim, precisamos ligar para o departamento.

— Não, não, você tá louco? Ele morreu com uma arma sua.

— Você pode dizer que… Foi legítima defesa ou…

— Dan, entenda de uma vez. Eles não vão querer saber se eu fui vítima ou não, vão depositar tudo em você. Se descobrirem que um homem foi morto através de uma bala tirada de uma pistola que você usa a serviço, eles podem não apenas de destituir do cargo, como te exonerar.

— E o que a gente faz? Não podemos deixar o corpo de um homem aqui na nossa casa. Se o nosso filho descobre, é o nosso fim.

— Eu sei, eu sei, eu preciso pensar.

Hilda anda para um lado e para o outro, até que ela para e diz:

— Espera… Só tem um único jeito.

 

FLORESTA NOS ARREDORES DE SHEFFIELD.

 

O corpo de Wes está sendo colocado dentro de uma cova, Hilda e Dan estão do lado. Uma terceira pessoa está colocando a terra com uma pá. Essa pessoa é Addan.

— Uffa! Ainda bem que eu tinha mudado pra Oxford, senão nunca poderia ajudar vocês.

— Addan, por favor, não conte isso a ninguém.

— Você, eu sempre te achei forte e indestrutível, Hilda. Mas estou surpreso quanto a você… Primeiro Tenente Dan.

— É capitão… Agora eu sou capitão.

— Pior ainda. Imaginem se descobrissem que você ajudou a enterrar o corpo de um homem inocente e acobertou a sua própria esposa? Isso seria horrível para um homem da lei como o senhor, não é?

— Eu não tive culpa, eu…

— … Não apenas teve culpa, como espancou o jovem antes do tiro de misericórdia. Se eu fosse a Hilda, diria que você teve uma crise de ciúmes, espancou e em seguida deu um tiro na cabeça desse rapaz. As suas impressões digitais ficaram na arma, as da Hilda também, mas ninguém iria desconfiar de uma pobre mãe e dona de casa indefesa, então você iria pra cadeia e nunca mais voltaria a ver seu filho novamente…  Estou te dando uma oportunidade incrível de se livrar dele, Hilda.

— Chega, por favor, Addan! Qual o seu preço?

— Meu preço? Eu guardo o segredo de vocês se… Futuramente vier trabalhar pra mim, Hilda. Se fizer isso, posso conseguir uma estação policial para o seu marido no condado de Hampshire. Coloco ele lá dentro sem ele sequer passar por consulta de antecedentes criminais. Não sei como vai ficar o filho de vocês nessa questão, aí já não é problema meu, mas… Se fizerem exatamente o que eu estou dizendo… Terão uma vida longa e calma. Minha organização científica está quase para ser concluída, então… Preciso ter uma garantia que vocês vão cumprir com a promessa de vocês.

Hilda diz:

— Eu topo!

— Ótimo. E tem mais uma coisinha… Vocês terão que se divorciar.

Dan, incrédulo, pergunta:

— O quê?

— O que eu disse. Tudo nessa vida tem seu preço. Vocês darão entrada no divórcio nos próximos meses… Scott precisa ficar neutro entre vocês, então sugiro que o levem para a casa de algum parente por um tempo ou por anos, de preferência que saia da cidade pra que tudo ocorra bem até a separação oficial. A vida de vocês dois está nas minhas mãos. E aí? Como vai ser? É pegar ou largar.

 

Naquele dia… Dan e eu fizemos um pacto com o diabo…

 

SALA DO PROJETO NEON, DIAS ATUAIS.

 

— … Mas desde então, o Dan têm negado essa parte sombria da vida dele por muitos anos. Não é mesmo, capitão Dan?

Dan está em lágrimas amargas, Scott fica impactado com tudo o que ouviu.

— É verdade isso, pai? Diz que não é verdade, por favor.

— Infelizmente é sim, filho… E não me orgulho nem um pouco do que fiz. Passei anos vendo aquele corpo na minha mente… Eu nunca me recuperei totalmente daquele dia. Mas tive medo de que alguém machucasse você, então… Tive que fazer esse acordo com o desgraçado do Addan.

— Agora vocês entendem que o capitão de vocês nunca foi um santo.

Ellie diz:

— Isso é loucura! Como pode fazer isso, Hilda? Eu nunca, ouviu bem? Nunca tive um caso com o seu marido. Nunca neguei que sempre o achei um homem atraente, mas jamais me relacionei com ele afetivamente.

— Por isso que eu queria que viesse aqui para colocarmos os pingos nos “I”, Ellie. Agora é você, jovem Tunner.

— Eu?

— Vou tentar ser direta ao ponto e não me estender muito, antes do gran finale de nossa reunião… Eu que provoquei a morte dos teus pais.

— N… Não pode ser possível, é uma brincadeira.

— Antes fosse. Em minha defesa, eu não fiz de propósito. E soube apenas depois que o casal onde eu colidi com o carro, eram os seus pais. Naquele dia eu estava transtornada, o Addan estava me deixando louca e a Ellie havia voltado. Mesmo já estando separada do Dan, eu não me conformava em perder nunca. Então eu saí descontrolada e sem rumo, não vi o carro onde estava você, seus pais e seu irmão, então… O resto você já sabe.

— Como isso pode ser possível?

— Ah, e lembrando que isso custou caro pra mim. Foi nesse acidente onde eu perdi o meu olho, e sou obrigada a usar esse tapa olho pelo resto da minha vida. Se soubesse que aquelas palavras da minha mãe, me condenariam ao inferno, teria dado um jeito de decapitá-la para que não pudesse proferir mensagens de maldição. Mas aqui estamos! Todos nós reunidos em família e amigos, para colocar de vez todas as cartas na mesa.

Dan pergunta:

— O que pretende com tudo isso, Hilda?

Hilda aponta novamente a sua arma para eles.

— Finalmente chegamos ao Gran Finale dessa reunião, meu querido capitão. E essa é a hora que um de nós terá que cair.


 

                            ATO III


 

 

SALA ESCURA DA CENTRAL, HORAS ANTES.

 

Hilda está ali sozinha perdida em seus pensamentos, quando de repente, Abigail aparece.

— Mamãe?

— Fica longe de mim, sua bastarda! Você não é minha filha e nunca será! Sai de perto de mim! Fica longe de mim…

— Está tudo bem, mamãe. Ficaremos juntas agora.

— NÃO ME CHAME DE MÃE! EU NÃO SOU TUA MÃE! Eu deveria ter te abortado quando tive a chance, eu deveria ter te abortado, sua vadia!

Hilda se encosta na parede, está claramente transtornada e cheia de ódio. Ela pega a sua arma e aponta para Abigail.

— VOCÊ NUNCA TERÁ O MEU SANGUE, SUA MALDITA. EU DEVERIA TER TE MATADO QUANDO VOCÊ NASCEU!

Hilda dispara. Em seguida só vemos um rastro de sangue passando por debaixo da porta.

Mas esse sangue já estava ali. Ela acabou se machucando no momento do despertar do Neon.

Mas o que a deixou baqueada é que Abigail deteve aquele tiro com suas ondas psíquicas.

— Não, não pode ser possível. Como você fez isso?

— Eu sou poderosa, mamãe. O Addan me fez assim, eu posso fazer o que eu quiser… Me desculpa por eu não ter sido uma boa filha, mas… Eu quero muito te fazer feliz, quero que seja uma mãe vitoriosa, e… Ah! Tantas coisas legais que poderíamos fazer juntas. Não me importo que não me chame de filha, já estou bem ao teu lado e faria qualquer coisa pela senhora, mamãe.

— Faria qualquer coisa mesmo, Abigail?

— Sim, mamãe. Tudo o que pedires.

— Mesmo que machuque?

— O que é uma dor comparada à felicidade que eu possa te dar?

— Então faremos um acordo, é o seguinte…

 

SALA DO PROJETO NEON, AGORA.

 

— Para vocês dois que chegaram agora, essa aqui é minha filha, Abigail. Fruto de um estupro que eu sofri quando eu tinha 16 anos, ela não queimou quando a casa pegou fogo e agora está aqui… Para me ajudar a por um ponto final nessa história… Na minha história.

— Mãe, o que pensa em fazer?

— Ah, meu filho Scott! Antes de mais nada, não quero que odeie o seu pai… Odeio admitir, mas ele sempre o amou muito, e eu também o amei, apesar das circunstâncias.

Scott se aproxima do palanque.

— Então vem com a gente. Deixa esse passado pra lá e podemos ser uma família novamente, por favor.

— Afaste-se, Scott! Não me obrigue a fazer algo que eu não quero.

— Eu só queria um abraço, mamãe. Por favor, me abrace! Eu sou teu filho.

— Afaste-se!

— Pelo amor de Deus, Hilda. Tenha um pouco de compaixão, ele é teu filho, ele sentiu falta da mãe dele.

Scott se ajoelha na escadinha do palanque, em prantos.

— Eu faço o que você quiser. Tudo o que você quiser, mas volta pra a gente, mãe. Por favor, eu preciso de você.

— Eu sou… Um monstro, um câncer… Tudo que eu toco se destrói. Você não merece ter uma mãe como eu, Scott.

Scott se levanta para subir no palanque. Hilda o ameaça com a arma.

— FIQUE LONGE! NÃO SE ATREVA A VIR ATÉ AQUI!

— Então terá que me matar.

Scott se aproxima de Hilda. Ela está tremendo, seus olhos lacrimejam. Scott se ajoelha, faz com que Hilda coloque o cano da arma bem na sua testa.

— Me mata, mãe! Se a senhora me ama, então me mata!

Dan grita:

— Scott, o que tá fazendo? Saia logo daí!

— Eu não saio daqui sem a minha mãe! Ou você vem com a gente, ou vai ter que me matar.

Scott começa a chorar. Hilda, igualmente chora. Não sabe que decisão tomar.

— Vamos, mamãe. ATIRA! VAMOS! ME MATA! ME MATA DE UMA VEZ POR TODAS!

Ellie grita:

— Hilda, pelo amor de Deus, ele é teu filho!

— Me desculpe, Scott…

Hilda acerta a arma na cabeça dele fazendo ele se afastar. O capitão Dan e os outros se aproximam. Hilda volta a ameaçá-los com a pistola.

— Scott, filho. Fique longe dessa mulher.

Eles se afastam. Cristhian pergunta:

— Hilda, você ainda tem a chance de fazer um ato de bondade pelo menos uma vez na vida… Entregue-se! Eu te perdoo por tudo.

— Vocês… Vocês também vão me perdoar um dia?

Ellie responde:

— Hilda, a culpa não foi sua. O Addan te manipulou todo esse tempo, não se deixe vencer por isso. Se vier com a gente, eu esqueço tudo e… Eu vou conseguir te perdoar.

— Dan, Scott? Preciso ouvir agora da boca de vocês… Vocês me perdoam?

Dan e Scott dizem, respectivamente:

— Sim, Hilda. Eu te perdoo.

— Eu te perdoo, mamãe.

— Eu só queria escutar isso. Não queria terminar isso sem me reconciliar com as pessoas que eu causei o mal. Enquanto estive naquela sala escura, pensei em tudo na minha vida, e pensei o quanto eu teria sido feliz se nunca tivesse deixado o Addan controlar minha vida e minhas emoções… Agora sim me sinto pronta. Abigail, querida… Esse é o momento em que você cumpre a sua promessa comigo.

— Mamãe… Precisa mesmo disso?

— Sim… Filha.

— Tá bom, mamãe.

Hilda pega um frasco do bolso de seu blazer e despeja em cima dela. Scott e os demais ficam tentando entender o que está acontecendo.

Após despejar todo aquele líquido em seu corpo, Hilda fica no meio do palanque.

— Eu causei muito mal a todos vocês, e agora… Mereço a minha penitência. Mas não queria partir sem o perdão de vocês.

Ela acena para Abigail. Esta estende as suas mãos e começa a forçar o seu poder psíquico.

Hilda começa a flutuar. De braços abertos parecia estar pronta para sair dali voando. Os outros ficam atônitos, Scott ainda no chão sendo acudido por seu pai tentando entender o fenômeno.

Abigail faz com que Hilda ficasse flutuando até uma altura de aproximadamente 5 metros do chão. Naquele estado, Hilda começa a proclamar em alto e bom som, uma citação poética:

Descobri hoje um grande poder oculto;

Um dom de fênix para renascer das minhas próprias cinzas,

Descobri que a estrada não acabou, ela só tomou um desvio…

“No meio do caminho tinha uma pedra”

Como em todo caminho tem uma perda

Eu dei o melhor de mim, lutei com as armas que sabia lutar

Fui derrotada, eu assumo.

Apenas FUI. Não sou. Não serei.

E agora?

Levantarei de novo, quantas vezes for preciso.

Não usarei ninguém como espelho.

Quero chegar à frente e ver minha própria imagem,

O reflexo do que sou, do que fui e do que serei….

Como já disseram: “Quem sempre vence perde a glória de chorar”.

O que seriam as grandes vitórias sem os grandes fracassos?

Etapas…Ciclos…

Eu sou o meu próprio motor de ignição

E cabe a mim e a ninguém mais a escolha

De ficar triste e ganhar pena

Ou ficar feliz e ganhar a própria glória…

E eu escolhi tentar outra vez…

Paciência…Sabedoria só se ganha com tempo.

E o tempo?

“O tempo não pára”

Usarei uma força que eu talvez nunca tenha

E direi o que quiserem ouvir.

Para o frio, existe o calor

E essa chama até então desconhecida não permitirá

Que o frio permaneça.

 

— Adeus, Scott! Adeus, Dan… Está na hora de me juntar com os meus pais… Nas chamas.

Hilda acende um isqueiro que estava em seu bolso, ela o joga para pegar na ponta de seus pés. Quando a chama do isqueiro encosta no tecido de sua roupa, rapidamente o fogo começa a se alastrar das pernas dela e vai subindo para o restante do corpo.

Scott grita em desespero:

— NÃO!! MAMÃE!!

Dan, Ellie e Cristhian, em total desespero:

— HILDA!!

— MEU DEUS!

— HILDA!

Abigail em lágrimas, segurando a sua mãe no ar enquanto ela está em chamas.

Scott tenta se aproximar, Dan o agarra no chão impedindo que ele se aproxime, Scott está chorando como nunca. A dor de testemunhar aquela cena deplorável ficará marcada para sempre na sua vida.

No final das contas, Hilda também foi mais uma vítima da sociedade corrupta.

Isso jamais vai justificar os seus erros e suas maldades, mas tudo o que ela vivenciou até aqui precisava ter um fim.

E o seu fim foi exatamente como a sua vida começou: Através do fogo.

Com o fogo ela mudou a sua vida para sempre, e agora pelo fogo, ela retornará.

As chamas,

As cinzas,

Um coração cruel,

Que nem sempre foi tão cruel assim.

Ela infelizmente não soube como se expressar, e escolheu o pior caminho para seguir. Ao igual que muitos de nós seres humanos fazemos iguais. Hilda era humana, acima de tudo.

Mas antes de ser uma mulher amargurada e vazia, ela foi uma menina cheia de sonhos.

Sonhos interrompidos,

Mas que no último suspiro, teve a chance de ver sua parentela pela última vez, até por fim se juntar às chamas.

Ela não perdeu,

Ela venceu…

Nas chamas.


 

 

 R.I.P 

HILDA


 

 

VALE DICERE RETORNA COM EPISÓDIOS INÉDITOS A PARTIR DO DIA 16 DE JANEIRO.

 

 

 

 

AGUARDAMOS VOCÊ LÁ!

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  • Episódio chocante! Hilda mostrou as suas várias camadas. Senti toda a amargura e o sofrimento dela. Mais uma vez um episódio focado na vilã, e pelo que parece o último. Espero que a revelação de quem é de fato a filha de Hilda faça sentido para o decorrer da série. Acredito que Abigail vai ser de grande ajuda para o time do capitão Dan.

    • Hilda mostrou que não foi apenas uma vilã qualquer e suas camadas trouxeram todo o background que a personagem precisava. Vamos aguardar pra ver o que Abigail fará. Valeu, meu amigo!

  • Pesquisa de satisfação: Nos ajude a entender como estamos nos saindo por aqui.

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