Saga ( ou melhor seria dizer Ares) tornou a se recompor, ajeitando a longa túnica escura e o manto. Por fim, recolocou a Máscara cerimonial de modo solene, como se estivesse preparando-se para um ritual. Aproximando-se do berço a passos lentos, Ares antecipava o prazer que teria em finalmente sobrepujar sua irmã, não importando sob que modo ela se apresentasse.

Ele sorria maldosamente por trás da máscara. A adaga dourada surgiu novamente, brilhante em sua mão direita, de dentro de suas vestes.

A linda menina, afastada momentaneamente a ameaça que pairava sob Ying, agora parecia dormir inocentemente, parecendo não se dar conta do perigo.

Erguendo a adaga bem alto, Ares sorriu ainda mais, de modo selvagem. Podia sentir o desventurado e iludido Saga de Gêmeos, que lutava desesperadamente por retomar o domínio de seu próprio corpo e não cometer aquele sacrilégio imperdoável.

Tolo! Teus esforços são inúteis. Daqui em diante teu corpo me pertence até o momento em que não me for mais útil! Não tem como te livrares! Assista agora à morte da deusa a quem juraste ser fiel por tuas próprias mãos e depois lhe darei o prazer proibido de desfrutar da sua linda irmãzinha…Não sou benevolente? Deverias me agradecer por realizar teus sonhos mais secretos…Agora aquieta-te e não me atrapalhes mais!

Dominado o incômodo hospedeiro, Ares não esperou mais. Com toda a força de seu corpo emprestado e toda sua fúria assassina, desceu impiedosamente a adaga mirando o coração da indefesa criança.

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– Sinto muito, meu rapaz… – disse Ayoros, olhando compassivo o jovem inconsciente a seus pés. – Não queria machucá-lo, mas acredite, foi para o seu próprio bem.

Gentilmente, Ayoros o encostou na parede e o examinou para certificar-se de que não havia mesmo nenhum ferimento mais grave. Procurou conter ao máximo a sua força, buscando não atingir nenhum ponto vital, mas mesmo assim estava preocupado. Hargos era tão caro para ele como seu irmãozinho Ayolia. Aliás, onde estaria o jovem Leão? Hargos e Ayolia costumavam ser inseparáveis…Só esperava que o Mal que rondava o Santuário aquela noite não tivesse atingido seu irmão também…

O terrível pressentimento, a angustiante urgência voltou a tomá-lo com toda força. Deixando o jovem Hargos descansando em lugar seguro, cerrou os punhos, reunindo seu cosmo, preparando-se para outro possível confronto e irrompeu quarto adentro. Seja lá quem fosse, teria que matá-lo primeiro antes de ferir sua Ying e a jovem deusa que jurara proteger!

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– MESTRE!! – gritou Ayoros, entrando no quarto a tempo de ver uma cena inacreditável para ele: o venerável Mestre do Santuário prestes a apunhalar o recém-nascido avatar da deusa a quem todos veneravam! – PARE!! O QUE ESTÁ FAZENDO??!

Somente a velocidade da luz permitiu que ele conseguisse segurá-lo a tempo de cometer aquele sacrilégio. O Mestre só podia estar louco! Ayoros o agarrou com toda força, mas ele parecia dotado de uma força e um Cosmo descomunais, terrivelmente hostis…

O suposto mestre desvencilhou-se bruscamente do perplexo Cavaleiro de Sagitário e tornou baixar a adaga sobre o bebê, que desperto novamente com os gritos, chorava desesperadamente. Mas sua arma só encontrou o colchão do berço. Ayoros tomara a menina nos braços sem que ele tivesse percebido.

– Mestre!! O que há com você?! Ficou louco? Esta é Athena, a deusa que desce à Terra a cada 200 ou 300 anos para proteger a Humanidade e é nosso dever sagrado zelar por ela! O senhor sabe mais do que ninguém disso!! Por que está tentando matá-la?!?

Largue-me!! Não me atrapalhes, verme!! – gritou o Mestre com voz trovejante, totalmente diferente da habitual.

Como se Ayoros fosse uma simples criança, foi empurrado para o chão, indo bater dolorosamente na parede atrás dele. Durante a queda, agarrou-se sem querer na capa do intruso, arrancando-a e, por um capricho do Destino, a Máscara Cerimonial do Mestre desprendeu-se parcialmente, permitindo-lhe ver o rosto de seu agressor.

Ayoros quedou-se estático pela surpresa. Podia esperar qualquer um, menos aquele que estava diante de seus olhos. Ouviu um gemido fraco próximo a si. Seu olhar, então, incidiu sobre a cama do casal ao lado do berço. Lá Ying esforçava-se por cobrir-se com o lençol da cama e levantar-se pra ir até ele, aparentando estar confusa, ferida e humilhada como se tivesse acabado de ser… Não, Não era terrível demais!! Aquilo só podia ser um pesadelo!

Ying!! – agarrado ao bebê, Ayoros gritou lutando contra espanto que o paralisava, olhando, atônito de um para o outro. – O que… O que fez com ela? Por que está aqui… Assim? Se passando pelo Mestre Shion?

MALDITO!!! COMO TE ATREVES A ME DESAFIAR?! – bradou o renegado, tentando em vão esconder o rosto, que de tão convulsionado e maligno, nem parecia ser o daquele tão conhecido e amado pelo casal de cavaleiros de Athena. Um Cosmo aterrorizantemente poderoso cercou todo o ambiente. – Descobriste o que jamais deverias ter descoberto! MORRA!!!

Uma gigantesca massa de energia cósmica, mais parecendo um imenso cometa, formado pelo “Explosão Galáctica” do Cavaleiro de Gêmeos, intensificado mil vezes pelo poderosíssimo Cosmo do Deus da Guerra que o controlava, foi crescendo sobre o perplexo Ayoros, que mal teve tempo de erguer uma barreira energética para se resguardar e ao bebê. Dobrando-se com o corpo sobre a criança o mais que pôde visando protegê-la, aguardou o impacto.

Athena… – pensou ele, fechando os olhos concentrando forças para que a barreira suportasse a descomunal massa de energia.

– AYOROS!! – a voz de Ying tomou conta do quarto. – NÃÃÃÃOOOO!!!

As surpresas daquela noite realmente pareciam não ter fim. Há poucos segundos tão frágil e indefesa, Ying agora estava de pé, magnífica com a Armadura de Gêmeos, imponente, braços e pernas abertos em cruz em frente a ele, protegendo a ele e à pequena Athena. Um Cosmo que era e ao mesmo tempo não era dela, pois era muito mais poderoso que o de um Cavaleiro de Ouro a cercava, iluminando a todo o ambiente numa luz cegante. O golpe de Ares/Saga fora defletido e este parecia estar um tanto atordoado com o impacto, mas o casal sabia que isso não iria durar muito.

– Ayoros, pegue Athena e sua armadura e saia daqui agora! Eu vou enfrentá-lo!!

– Não!! Ying, você não pode!! – ele tentou protestar.

– Não discuta comigo!! Saia!! Este é Ares, o deus da guerra! Não é mais meu irmão. Ele vai nos matar a todos se ficarmos aqui. Leve-a, por favor!! Ele não pode matá-la!!

– Ying… – Ayoros hesitou, mas continuou insistindo, fazendo menção de se aproximar. – Não!! Vamos enfrentá-lo juntos! Não vou permitir que se sacrifique!

Ying, que até então não tirara os olhos do inimigo, o fitou, muito séria. Ayoros estranhou. Era como se não fosse a sua Ying…

– Não pretendo me sacrificar, mas também não permitirei que você o faça! – disse, firme e autoritária, mas, em seguida, a expressão dela suavizou-se e ele reconheceu o jeito doce de olhar que ela sempre destinava apenas a ele. – Saia, meu amor… E leve nossa criança… Não estou sozinha. – disse enigmática. – Olhe bem pra mim.

A princípio Ayoros franziu a testa, sem entender, mas quando ergueu o olhar, fitou espantado a forma espectral de uma mulher alada de feições indistintas, que se elevava, imensa em meio ao Cosmo, por trás da Amazona que amava, . “Niké1!!”, ele pensou, perplexo, rememorando as outras vezes em que a deusa se manifestara.

Vá, Ayoros de Sagitário!! Cumpra seu dever com Athena! Leve-a daqui! – falou uma voz que não era a de Ying, embora saísse dos lábios dela.

As dúvidas dele desapareceram como por encanto. Sério, ele fez uma reverência rápida, colocou a caixa da armadura dourada de Sagitário nas costas e aninhou a menininha nos braços, dirigindo-se até à janela.

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PARE, MALDITO!! NÃO O DEIXAREI ESCAPAR COM ELA!! – Ares protestou, já pronto pra atacar de novo. Então começou a gritar: – TRAIDOR!! ASSASSINO!! PEGUEM O TRAIDOR AYOROS DE SAGITÁRIO!! ELE TENTOU MATAR ATHENA!! NÃO O DEIXEM FUGIR!! AYOROS E YING SÃO TRAIDORES!!!!!

Não havia tempo de se defender. Num salto, Ayoros evadiu-se pela janela com Athena nos braços, sem olhar pra trás, o impacto do tremendo Cosmo, sem querer lhe dando impulso pra tomar distância. Ying, sob a influência da deusa da Vitória, tornou a se colocar na frente, detendo a maior parte do novo ataque.

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Caindo alguns metros, Ayoros conseguiu proteger com seu corpo o bebê da melhor maneira que pôde, mas sentia a dor de vários ferimentos em suas costas, embora uma boa parte do ataque tivesse sido absorvida pelo cofre da armadura. Respirando com dificuldade, ele olhou, indignado e apreensivo, a janela do quarto, onde explosões de Cosmo sucediam-se, demonstrando a luta encarniçada.

Aquele desgraçado… Jogando a culpa em cima de mim pra se safar… – Mas, na verdade, ele nem se importava com aquelas acusações absurdas, sua angústia era apenas pela mulher que amava. – Ying…Niké, por favor, não a deixe morrer…

Olhando para a linda menina em seus braços, lutou contra o impulso de voltar e ajudar sua amada, mas seu dever de cavaleiro de Athena falou mais alto. Tinha um dever a cumprir. Precisava confiar em Ying e na deusa que a acompanhava. Assim que o bebê estivesse à salvo, voltaria.

Lançando um derradeiro olhar, voltou-se e pôs-se a correr o mais rápido que pôde em direção aos limites do Santuário.

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Mu corria o mais que podia, agora com Aldebaran de Touro, carrancudo e soturno, correndo silencioso ao seu lado. Amaldiçoava intimamente a impossibilidade de teletransporte nos limites do Santuário. Infelizmente, seria impossível superá-la de novo naquele momento, ainda mais sem a ajuda dos Cavaleiros de Gêmeos, cuja Casa se encontrava abandonada quando por lá passaram. Máscara da Morte, banido por Ying durante seu desafio e Shaka de Virgem, principalmente, eram ausências notáveis. Sentia que seria crucial não perder tempo… Sentia que algo de grave acontecia. O clima estava por demais tenso.

Quando já deixavam pra trás a Casa de Libra, abandonada há muitos anos, desde a última Guerra Santa, então tudo pareceu atingir seu clímax. Lá em cima, explosões de Cosmo e gritos, que ecoavam por todos os cantos, sendo repetidos por todo Santuário. Aldebaran estacou, perplexo.

– Mu, você está ouvindo? – perguntou, olhando pra mansão do mestre. – Não pode ser… Ele não pode ter dito… quero dizer…

– Acalme-se, meu amigo. – Mas mesmo o imperturbável Cavaleiro de Áries estava longe de se sentir tranqüilo. – Estamos muito longe ainda. A distância e todo esse barulho podem ter nos confundido. Conhecemos bem Ayoros e sabemos que isso é absurdo. Continuemos em frente. Talvez os outros cavaleiros estejam mais informados da situação. Depressa! Não temos um segundo a perder!

O outro fez que sim e continuaram correndo. Em poucos minutos, deixaram pra trás as Casas de Sagitário, que estava sem seu guardião ou sua linda consorte Ying de Gêmeos, os quais deveriam se encontrar agora no templo de Athena; em Escorpião, nem sinal de Milo; em Capricórnio, que também se encontrava abandonada, apesar de Mu e Aldebaran sentirem o Cosmo de Shura próximo dali, provavelmente os precedendo no foco da ação. Se aproximavam céleres da Casa de Aquário, mas nada da presença marcante do Cosmo gélido de Kamus de Aquário, ou do presunçoso e rebelde Afrodite de Peixes, igualmente banido, este pelo Mestre Shion em pessoa.

Por enquanto eram os únicos Cavaleiros de Ouro que pareciam estar presentes no Santuário, mas diversos cavaleiros de prata e bronze iam aparecendo, assim como vários guardas. Fosse qual fosse a ameaça dessa vez, seria logo descoberta e debelada.

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A luta parecia equilibrada, os ataques se sucediam sem cessar. Ying, embora muito ferida, se mantinha firme, mesmo considerando que, tecnicamente, lutava contra o próprio irmão. No entanto, Ares sorria em seu “invólucro”. Conhecia os truques dela pelas memórias presentes no corpo que usava e, ainda que a Amazona fosse uma pessoa imprevisível em sua essência e que Niké a favorecesse, sabia que aquela mortal não suportaria mais tanto esforço… Ainda mais que um “aliado” acabava de chegar…

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Alertado pelos gritos e barulhos de explosões, Shura cobriu a distância entre sua Casa e o Templo de Athena em poucos minutos. Do lado de fora da porta dos aposentos particulares um grupo confuso de guardas discutia entre si se deveria ou não desobedecer as ordens que o Mestre dera antes para não entrarem o que quer que acontecesse. A maioria deles queria invadir o local, afinal não ouviram que Ayoros tentara matar Athena e um grupo da guarda pessoal do mestre já não se encontrava em perseguição do traidor? E a bela Amazona, a qual sem saber, era o objeto secreto de desejo de grande parte dos homens do Santuário desde que chegara? Ela estaria mesmo envolvida?

O tumulto era grande entre eles, que não pareciam conseguir chegar à conclusão alguma; uns 3 ou quatro mesmo sem o consenso dos demais começou a forças as pesadas portas de madeira, mas elas estavam fortemente trancadas e nem se moviam enquanto que o entrevero no interior do quarto somente recrudescia mais e mais. Irritado com a idiotice daqueles que se intitulavam soldados do Santuário, Shura abriu caminho entre o grupo desorganizado e com um movimento rápido e certeiro de seu poderoso braço direito, rasgou uma abertura nas pesadas portas de madeira como se elas fossem feitas de papel, permitindo seu acesso.

O que viu ali dentro o fez parar, perplexo.

Uma coisa absolutamente inconcebível para um Cavaleiro de Athena se passava dentro daquele aposento: Um Cavaleiro de Ouro, no caso, uma Amazona, Ying, ainda que parecesse estar muito ferida, lutava ferozmente com o Mestre do Santuário em pessoa!! Estranhamente, ele parecia estar sem a sombria Máscara cerimonial, mas pela roupa e paramentos, ainda que o ambiente estivesse inundado pela ofuscante luz das ininterruptas explosões de Cosmo, o que não permitia ver com clareza o rosto do Supremo Cavaleiro, Shura não teve dúvidas. Elevando seu Cosmo ao máximo, tomado pela fúria e desejo fanático de proteger seu líder, atacou com seu mais terrível golpe, sem pensar duas vezes.

– EXCALIBUR!!! MORRA,TRAIDORA!!!!

Ying recebeu o golpe em cheio, de frente, pois se virara, mesmo em meio a um ataque de Ares, ao sentir quem entrara. Mas não houve tempo para uma reação, explicações ou pedidos de ajuda. Com a rapidez de um relâmpago, Ying sentiu-se como se estivesse sendo rasgada de alto a baixo, seu sangue espirrando abundante nos homens que a encaravam com atitudes diversas: Shura, seu atacante, frio e implacável, com a ira justamente aplacada, crente de ter apenas cumprido seu dever de defender seu superior; Ares, no corpo de seu gêmeo Saga, ria às gargalhadas, triunfante.

– Shura… – Do chão, onde desabara pesadamente, Ying falou com a voz fraca, a consciência e a vida esvaindo-se como areia numa ampulheta. – Você… cometeu…um engano… terrível…Ele… Ele…não é… – Mas os belos olhos que já se encontravam enevoados fecharam-se.

O Cavaleiro de Capricórnio, com um estranho e incômodo nó na garganta, fitava, sem conseguir desviar o olhar do rosto dela, da pele muito pálida que contrastava morbidamente com o sangue vermelho-vivo que ainda vertia do corpo inerte da mulher aos seus pés. Um vinco se via entre as grossas sobrancelhas rebeldes. O que ela teria querido dizer com engano terrível?

Percebeu, então que outra coisa o incomodava: o som de uma gargalhada cruel e selvagem que não se interrompia. Desviando o olhar à custo da jovem agonizante, olhou para o mestre, perplexo com sua atitude. Foi então que o choque da realidade quase o derrubou, deixando-o atônito e sem ação. Finalmente entendera o que a Amazona quisera dizer com engano…

– Por Athena! – Shura murmurou, perplexo. Quem era aquele homem que se vestia com as roupas do Mestre do Santuário? O cabelo longo e desgrenhado de um estranho tom de cinza, os olhos vermelhos e sanguinários de um demônio, mas… Ele o conhecia…Era… Era…

– Gêmeos!! Saga!! Não pode ser!! Você… A sua irmã… O que…

Mas não houve mais tempo para espanto ou conjecturas. No mesmo instante em que os olhares se cruzaram, um raio vermelho de cosmo atravessou o ar atingindo o cérebro do Cavaleiro de Capricórnio, que caiu de joelhos aos pés de Ares com o olhar esgazeado e fixo.

Segurando a cabeça entre as mãos, Shura ainda tentou resistir ao poderoso golpe de controle mental, mas ainda ele sendo um Cavaleiro de Ouro mais experiente e forte que o pobre Hargos, foi inútil. O poder de Ares sobrepujou sua vontade. O deus da guerra acabara de conseguir mais uma perigosa marionete!

Ajoelhando-se sobre um dos joelhos, a cabeça abaixada, numa respeitosa reverência, Shura, ofegante e pálido, aguardava suas ordens, submisso.

Muito bem, meu escravo… – a voz de Ares reverberava invadindo o cérebro, aniquilando o que lhe restava de consciência. – Agora que já tirou a vadia de Gêmeos do meu caminho… – ele olhou para a jovem agonizante como se ela fosse um mero pedaço de carne jogado a um canto. – Vejamos se você, sendo da orgulhosa tropa de elite dos Cavaleiros de minha cara irmã, consegue cumprir com seu dever… – A voz dele mudou, tornando-se igual à do verdadeiro mestre Shion, enquanto ele ajeitava a Máscara cerimonial no rosto, ocultando suas feições. – Mate o traidor Ayoros…e também a falsa Athena que ele leva com ele. É uma afronta à nossa deusa que aquele apóstata e esta infeliz tenham se atrevido a usar a própria criança, após simular sua morte, como um suposto avatar divino. Tal crime deve ser punido com uma morte das mais dolorosas…Cumpra seu dever, Shura de Capricórnio… – ele sorriu maligno por detrás da Máscara. – Vá!

Shura se levantou de pronto, no rosto uma máscara de pedra, tal sua firme determinação em cumprir as ordens recebidas custasse o que custasse.

– Sim, Santidade. Assim será feito.

Com uma reverência rápida, ele virou as costas e se retirou célere do Salão, rumo ao cumprimento de sua terrível missão.

*****************

Ying!!!Não!! Não pode ser!!!

O grito que ecoou em sua mente, a dor excruciante que parecia ter-lhe atravessado o corpo inteiro como se fosse a lâmina afiada de uma espada…Uma espada…

Ayoros caiu de joelhos, ofegante e confuso. Lágrimas abundantes lhe vinham aos olhos e lavavam o rosto sujo de sangue e poeira sem que ele percebesse. Em seu braços, a criança protestava um pouco contra a força com que era estreitada, quase com desespero…

– Ying… Ying, meu amor, perdoe-me… – ele murmurava, cego pelas lágrimas, sacudindo a cabeça numa negativa inútil e desesperada. – Não deveria tê-la deixado sozinha contra aquele monstro… Não.. NÃO!! VOCÊ NÃO PODE ESTAR MORTA!!

Aflito, ele olhou em volta. Precisava deixar o bebê à salvo e voltar para a Mansão do Mestre. Não conseguia mais sentir o Cosmo de Ying, mas não podia aceitar que o pior tivesse acontecido. Não com ela. Isso não podia acontecer. Era seu dever protegê-la…

Não…Ying diria que meu dever é proteger Athena…Ela me implorou pra deixá-la à salvo… – pensava Ayoros, num dilema, olhando a linda menina em seus braços.

Não estava muito longe dos limites do Santuário. Mais um pouco e estaria fora, poderia se misturar com a multidão de turistas assim que o dia clareasse e chegar à Atenas, talvez fosse mais seguro até mesmo fugir do país. Se bem que sabia que seriam caçados estivessem onde estivessem…

Não podia ficar ali parado. Sentia que o cerco se apertava em torno deles. Ouvia os gritos e passos dos soldados e cavaleiros se aproximando. Em breve os localizariam. Precisava sair dali o quanto antes!

Uns duzentos metros adiante, á direita, Ayoros viu uma sombra escura nas rochas acima, próximo ao penhasco, parecia uma caverna ou saliência na rocha.

Imediatamente se encaminhou para lá. Não tardaria a amanhecer e precisava sair do Santuário o quanto antes… Sentia-se muito confuso, dividido entre a urgência em resgatar sua amada e o dever de proteger aquela criança tão indefesa e ao mesmo tempo tão especial.

– Eles estão perto… – murmurou Ayoros, ofegante, apertando a criança num abraço protetor. – Não se preocupe, pequena…Perdoe-me… deusa Athena… eles não lhe farão mal. Eu, Ayoros de Sagitário, não irei permitir isso!

Já quase alcançavam a segurança da gruta – pois assim ela se havia revelado aos olhos do Cavaleiro ao se aproximar mais – quando se viram subitamente cercados por um grupo de cerca de dez homens. Não estavam armados, porque não se permitia o uso de armas no Santuário, mas nem por isso pareciam menos perigosos…

– Entregue-se, Ayoros de Sagitário! – gritou um dos guardas, tomando a frente. – Está sendo acusado de alta traição! Melhor não oferecer resistência… Ou seremos obrigados a usar a força!

Ayoros sentiu o medo e a hesitação ocultos na voz do soldado. Medo porque eles deviam saber que diante do poder do Cosmo de um Cavaleiro de Ouro, ainda mais ele conhecido como um dos mais poderosos, nada podiam fazer. Hesitação não apenas derivada desse medo, mas do respeito e admiração que sua figura honrada e justa sempre inspirara a todos.

Envolvendo o bebê com o braço direito, trouxe-a protetoramente pra mais junto de si, enquanto erguia o outro braço, devagar, num gesto conciliador. Com um pouco de sorte e muita calma, poderia virar a situação a seu favor.

– Vocês sabem quem eu sou… e o que posso fazer. Acham mesmo que estaria aqui assim diante de vocês se fosse um renegado? – falou, procurando manter o máximo de serenidade possível nas atuais circunstâncias.

A hesitação crescia, os soldados se entreolhavam, nervosos, procurando saber no outro que atitude deveriam tomar. Com um lampejo de esperança crescendo, Ayoros continuou, cauteloso.

– Não tenham medo de mim. Juro por Athena, que está aqui em meus braços, em sua forma humana, que não sou um traidor. Nem eu e muito menos Ying, minha esposa.

– M-Mas o Mestre…Ele disse que… – arriscou um deles.

Ayoros ficou tenso. Será que conseguiria vencer a atávica obediência cega aos desígnios quase sagrados do venerado Mestre do Santuário? Empertigando-se, olhou diretamente nos olhos de cada homem naquele grupo e falou:

– Todos aqui que possuem um mínimo de ligação com o Cosmo devem ter sentido a sombria influência que pesa sobre o Santuário nos últimos dias, creio eu. Aquele que os convocou agora, acreditem em mim, não é o verdadeiro Mestre do Santuário, Ele é…

– CALE-SE, TRAIDOR IMUNDO! – reverberou a voz possante de Shura de Capricórnio, surgindo repentinamente por trás do grupo de soldados e cavaleiros menores.

Como uma nuvem sombria e ameaçadora de tempestade, Shura, a expressão maligna e estranha nos olhos frios, foi lentamente se aproximando com passos pesados. Ayoros tentou em vão afastar de sua mente a imagem insistente de um carrasco se acercando de sua vítima. Ele, no caso. E a criança.

Havia algo errado, muito errado. Ayoros sentiu só de olhar pra ele. Não…Só de sentir seu Cosmo, que jamais fora tão sombrio… E aquele olhar fixo e alucinado, a expressão transtornada…Seria possível que fosse…

– Shura? – Ayoros hesitou, entre cauteloso e apreensivo. – O que… O que há com você? Nos conhecemos a anos. Assim como todos os Cavaleiros você deve saber que eu jamais faria nada contra a honra e as leis do Santuário! Você deve saber que eu havia sido escolhido pelo mestre para…

– CALE-SE, EU JÁ DISSE! – A voz era tão glacial, e ao mesmo tempo tão cheia de rancor e fúria contida, que Ayoros empalideceu. – Saga deveria ter sido escolhido porque ele é muito mais preparado que você… Mas você não pôde esperar, não é? Você o atraiçoou e eliminou para assumir o poder no Santuário…Você e aquela cadela… A irmã que ele idolatrava… COMO PUDERAM?!?

Ele se aproximava perigosamente do Cavaleiro de Sagitário que o ouvia perplexo, sem conseguir apreender o total sentido daquelas estranhas palavras. Os outros que o acompanhavam, entre indignados e incrédulos, foram fechando o cerco cada vez mais em torno de sua presa…

– O que está dizendo, Shura?! Ficou louco? Eu e Ying não fizemos nada!! Saga está vivo! Mas ele…Ele… – Ayoros hesitou mas não havia outra forma de dizer aquilo a não ser diretamente. – Ele foi dominado pela presença poderosa e sombria que vem assombrando o Santuário há dias! Aquele que está lá em cima, na Mansão do Mestre, se passando pelo próprio, gritando aos 4 ventos que tentei matar Athena é Saga dominado pela essência de Ares, o maligno deus da guerra!!

O impacto daquela informação caiu como uma bomba no grupo de soldados e cavaleiros, que começaram a discutir entre si se aquilo poderia ou não ser verdade, provocando um verdadeira balbúrdia.

Numa lentidão enervante, Shura, cuja expressão em nada se modificara daquela sombria e glacial, levantou a mão direita, num gesto imperioso de silêncio.

– Você mente. Eu, pessoalmente estive com o Grande Mestre e posso atestar que ele é o venerável Mestre Shion, como sempre foi. Se alguém enlouqueceu aqui foi você, Ayoros de Sagitário!

Ele estava obviamente dominado pela mesma força maligna que dominara Saga, pensou Ayoros, lançando um rápido olhar em volta, avaliando sua situação. Estava cercado. Não havia brechas a não ser que estivesse disposto a ferir aqueles soldados, muitos deles seus amigos ou velhos veteranos que o viram crescer. Não sabia o que fazer, mas não podia deixar que ferissem a criança inocente em seus braços. Com movimentos cautelosos e lentos para mostrar que não tinha intenções escusas de atacar, ele recuou e colocou a criança na entrada da pequena gruta atrás de si.

– Entregue-se, Sagitário! Pare de se esconder atrás dessa criança! Você pagará por sua blasfêmia… – Shura sorriu, sombriamente, mostrando a mão direita, coberta de sangue. – Assim como a sua vagabunda já pagou em minhas mãos.

O tempo parou para Ayoros ao olhar aquele sangue nas mãos de Shura. Sentiu seu coração gelar e uma fúria irracional foi tomando conta de si. Seus piores temores se confirmavam. Queria que tudo aquilo fosse um pesadelo e ele acordasse em seu quarto com sua querida Ying aconchegada junto a si, sonhando em seus braços protetores. Mas não era um pesadelo. Era real. Sabia que Shura odiava Ying desde que ela o humilhara durante o Desafio, porém jamais pensara que chegaria a esse ponto.

– Você a matou… – lágrimas de desespero e fúria cegaram os olhos escuros e doces do honrado Cavaleiro de Ouro.

Shura, debochado, lambeu lubricamente o sangue em suas mãos.

– Matei… E gostei de fazer isso, Ayoros…Gostei muito. Ela mereceu isso. – Então mentiu, só pra fazê-lo sofrer ainda mais e perder o tênue controle que ainda lhe restava.. – E não foi uma morte fácil, eu lhe garanto…A fiz sofrer muito antes de parti-la em duas com minha Excalibur!

Nunca Ayoros se sentira tão furioso, tão perdido, tão absolutamente desesperado! Seu Cosmo explodiu à sua volta com uma potência assustadora, arremessando longe os perplexos soldados e cavaleiros que o cercavam. Jamais o haviam visto daquela maneira e apesar de terem ouvido o porquê de sua fúria, começaram a se questionar sobre sua inocência…

– DESGRAÇADOO!!! – Com um brado de fúria, Ayoros partiu irracionalmente às cegas pra cima de Shura, sem medir as conseqüências.

Em um lance absolutamente impossível de ser acompanhado por olhos humanos, Shura rechaçou o ataque imprudente do desnorteado Cavaleiro de Sagitário. Este agora jazia ao chão. Profundos ferimentos no abdômen, tórax e braços vertiam sangue em abundância. Shura o olhava de cima, implacável.

– Patético… Este é o Cavaleiro mais forte do Santuário? – ele cuspiu no chão e dirigiu-se aos soldados, que tornavam a se acercar, cautelosos. – Estão vendo? Essa é a prova de que ele é um traidor vil! Um impostor! Ele e a sua amante!! Athena não o teria protegido se sua fúria fosse justificável? – Shura fez uma cara de desdém e continuou: – Ying de Gêmeos tentou matar o Grande Mestre assim como esse demônio irracional que estão vendo tentou matar a verdadeira Athena. Se eu não tivesse chegado a tempo, o pior poderia ter acontecido porque não é mistério o quanto nosso venerando líder anda debilitado devido sua avançada idade…Eles se deixaram levar pela ambição e tentaram algo abominável para seus propósitos pessoais.

Ayoros, com imenso esforço conseguiu se levantar, embora cambaleante.

– Isso… não é verdade…Não podem acreditar… nesse absurdo…Me escutem…Por favor…

– CALE-SE! – Ele mal disfarçava o sorriso insano no rosto distorcido pelo domínio de Ares. – A morte é a pena para os traidores…

Ele olhou para os soldados e ordenou, friamente.

– Matem.

O grupo hesitou. Shura se irritou.

– Não viram que ele os atacou com seu Cosmo e me atacou também agora? Sou o Cavaleiro mais fiel à Athena, que me deu a espada justiceira Excalibur! Cumpri meu dever, defendendo o Grande Mestre desses traidores e sua falsa Athena. Agora é a vez de vocês!

A aura de Ares, que também envolvia agora o Cavaleiro de Capricórnio concentrou-se em seu olhar fulminante para cada um dos homens do grupo de soldados. Uma fúria cega e irracional tomou conta de cada um deles de maneira devastadora e incontrolável, transformando-os em bersekers1 . Com um brado de fúria sangüinária, eles cercaram o debilitado Cavaleiro de Sagitário e caíram em cima dele como um bando de lobos famintos faria com sua presa.

Recuando um pouco, para melhor apreciar o terrível espetáculo – poderia ser chamado de massacre, sem medo de exagero – porque Ayoros não reagia como era de se esperar naquela situação extrema. Shura, ou melhor dizendo, Ares que o dominava, ria desfrutando de cada golpe desferido no honrado Cavaleiro de Athena.

Mas por que ele não reagia? Ares, perguntava-se, intrigado. Iria se deixar matar assim de maneira tão infame, sendo que ele, na verdade, era inocente assim como Ying? O máximo que ele fazia, cada vez mais inutilmente em virtude da debilidade crescente, era se defender e desviar os piores golpes, mas em nenhum momento atacava aqueles insetos insignificantes para o poder supremo de um Cavaleiro de Ouro. Mas…Por que? Teria enlouquecido de dor pela perda da amada Amazona e queria tanto assim se juntar a ela?

Não iria nem mesmo tentar defender o bebê indefeso que era o avatar terreno de sua preciosa deusa?

Shura olhou para a menina. Ela chorava desesperadamente, assustada com toda aquela violência. Engatinhando com dificuldade naquele terreno pedregoso, ela parecia querer ir até seu pai postiço, como se pudesse tirá-lo das mãos daqueles “homens maus” que o estavam machucando…Uma suave aura cor de ametista parecia emanar dela…

BASTA! – bradou Shura, com a voz autoritária de Ares.

Os soldados prontamente largaram Ayoros, ainda ofegantes e com os olhos brilhando de fúria fervilhante.

– Mas, meu senhor… – disse um deles que até espumava como um cão raivoso. – Ele ainda respira…

– Estou vendo… – falou em voz baixa, mas claramente audível, se aproximando do corpo maltratado do Cavaleiro de Sagitário que ainda o encarava, mesmo com os olhos semicerrados pelo inchaço nos supercílios. – Saiam daqui, eu mudei de idéia…O golpe final será meu…Afinal… – ele sorriu sarcasticamente. – Devo isso a um irmão de armadura…

Alguns com relutância visível, outros parecendo confusos, como se não soubessem onde estavam, um a um ou em grupos de 2 ou 3 foram se afastando do local, até que Shura estivesse sozinho com Ayoros e a pequena deusa.

– O Grande Mestre quer que eu dê cabo de você pessoalmente pra que Ele tenha certeza de que a Justiça foi feita… – Com facilidade incomum, Shura agarrou Ayoros pelo pescoço e o ergueu, carregando-o até a beira do penhasco.

– Ju-Justiça? – a voz de Ayoros era ofegante e abafada pela dificuldade que sentia para respirar. – Seu…fantoche… miserável…Se lembrasse do que… é… Justiça… Solte-me…

Com a mesma expressão pétrea e maligna nos olhos amendoados, Shura o largou, observando-o cambalear e lutar para se manter de pé. Atrás dele, um vazio de mais 80 metros de altura…

– Já perdi tempo demais com você, Ayoros… – em câmara lenta, ele ergueu a mão direita esticada como a lâmina de uma espada. – Siga a sua Amazona para o reino de Hades.

– Shura! Não!!!

– EXCALIBUR!!!

 

O golpe nem foi tão profundo, Shura estranhamente estava contendo sua força, mas a precisão foi o suficiente para que o impacto o jogasse para trás, para as trevas do precipício às suas costas…

Em silêncio, Shura limpou lentamente o sangue que espirrou em seu rosto e peitoral da armadura. O rosto continuava impassível e vazio, mas haviam lágrimas em seus olhos que escorreram sem que ele sequer as notasse, enquanto se afastava de volta à Mansão do Grande Mestre.

Um suave movimento, próximo à beirada do precipício chamou sua atenção. A menina, arrulhando consigo mesma, se aproximava perigosamente da beira, parecendo procurar aquele que acabara de cair.

Dando de ombros e ele deu as costas e apressou o passo.

Assim é melhor…Assim não precisarei sujar as minhas mãos com sangue inocente…

E logo desapareceu no caminho que levava de volta ao templo de Athena.

***************

Seu corpo inteiro parecia pegar fogo…Sentia-se como que tivesse sido realmente rasgada ao meio…Estava tudo escuro…Estaria morta, então? Os mortos sentem dor?

Soltando um gemido abafado, sentiu que alguém a carregava com cuidado para não feri-la ainda mais, se é que isso era possível… É, parecia que ainda estava viva mesmo e alguém parecia preocupado em mantê-la assim…

Ficou quieta, tentando identificar seu protetor, mas sentia a mente tão enevoada e confusa que estava difícil demais…De uma coisa tinha certeza não era Ayoros. Conhecia seu cheiro, seu calor, sua energia…Além disso, esperava que ele se encontrasse o mais longe possível dali com o bebê, a sua menina…Ou melhor, na verdade, a deusa Athena reencarnada…mas já a amava como se fosse o bebê que perdera…

No entanto, sabia que o conhecia. Parecia muito jovem…Sua respiração ofegante e curta, demonstravam o quanto estava nervoso…Queria dizer que estava tudo bem…Não se importava de morrer desde que Ayoros e Athena estivessem longe dali e à salvo…Sua vida não importava…Mas não conseguia… Não tinha forças sequer pra abrir os olhos…

Depois de um tempo indefinido de caminhada rápida e furtiva, sentiu-se colocada com gentileza extrema sobre um leito estreito. As partes dilaceradas de sua armadura __ sua indestrutível armadura de ouro! – foram retiradas com cuidado, expondo o corpo maltratado. No entanto, sentia-se entorpecida demais para sentir pudor. Seu protetor, no entanto, pareceu incomodado. Sentiu que o calor corporal do rapaz se intensificava no rosto, significando que ele corava. Devia ser um cavaleiro jovem ainda, talvez mesmo um aprendiz…Ainda não acostumado a tratar de feridos do sexo oposto.

– Não se preocupe…Eu…Eu… vou cuidar de você! – a voz rouca do aprendiz de Ayoros soava baixa e angustiada. – Juro que não a deixarei morrer!

Com esforço supremo, Ying abriu os olhos e embora a visão ainda saísse de foco e ela enxergasse 3 dele, o reconheceu de pronto:

– Hargos! – A voz saía num sussurro doloroso, mas nem se importou. – Você está bem?

Ele riu.

– Não está em condições de se preocupar comigo, Ying. – ele sorriu ao vê-la abrir os olhos. – Fique bem quieta. Você foi muito ferida por…por…Bem, acho que você sabe…

– Shura…mas ele não…teve culpa.. Foi Ele!! Hargos…Aquele…Vestido como o Grande Mestre… não é… o meu… irmão… Ares… É…Ares…

– Eu sei. Sshh… – ele procurou silenciá-la. – Esse é meu quarto. Consegui trazê-la até Sagitário mas preciso tirá-la daqui rápido antes que aquele monstro nos encontre. É…É… terrível… – ele parecia confuso e assustado. – Ying, ele está dominando a mente de todos!

Ying fechou os olhos. Lágrimas solitárias escorreram dos olhos azul-violeta. Mas não era hora de desespero e sim de agir.

– Sim… Ele está… se aproveitando… da habilidade e do… Cosmo de… Saga.

Hargos pareceu considerar aquilo, mas se perguntava como um Cavaleiro de Ouro forte como Saga de Gêmeos podia ter se deixado dominar daquele jeito, mas preferiu guardar seus pensamentos pra si mesmo e não angustiá-la ainda mais.

Imediatamente, lavou e cuidou com habilidade das feridas mais urgentes, cobrindo-as com os linimentos e bandagens que tinha disponíveis. A expressão concentrada fazendo com que parecesse mais maduro. Quando terminou não parecia muito satisfeito, olhando pra Ying, muito pálido.

– Eu já fiz o pouco que aprendi com mestre Ayoros…mas… – ele sacudiu a cabeça, sentindo-se impotente e inútil. As hemorragias pareciam ter cedido um pouco, mas o estrago era grande e ele temia ter chegado tarde demais.

Ying suspirou fracamente, a visão entrava e saía de foco.

– Hargos… Você…sabe… de Ayoros? Ele…conseguiu… sair do… Santuário, não é?

O rapaz sacudiu a cabeça, aflito.

– As notícias são desencontradas… Estou procurando ser discreto porque suponho que minha situação por aqui, assim como a de Ayolia, que não sei onde se meteu, não seja das mais seguras… Ying, vocês estão sendo considerados traidores, é isso que corre por aí! Que vocês tentaram assassinar o Grande Mestre e a reencarnação de Athena. Outros ainda dizem que vocês substituíram a verdadeira deusa pela filha de vocês…

Ying ficou ainda mais pálida, se é que isso era possível.

– Era de… se esperar que…Ares fizesse… algo assim… – Ying fechou os olhos tentando sentir onde Ayoros estava, sua mente buscando a dele. Estava sendo difícil manter-se consciente o bastante, mas ao fim de angustiantes segundos conseguiu captar sua presença…Seu Cosmo parecia fraco.. Tão fraco que quase duvidava de que ainda pertencia a este mundo… Oh, Ártemis!! Não, não! Precisava encontrá-lo…

– Hargos…Preciso… chegar até ele… – Ying concentrou toda a sua força, mas não conseguiu sequer erguer o tronco.

O jovem aprendiz procurou acalmá-la.

– Por favor, não deve se esforçar. Sua situação é muito delicada…

– Mas…Se eu não for… poderá ser… tarde demais! Sinto que Ayoros está…Oh, Hargos! – o desespero na voz dela apertou o coração do jovem Cavaleiro de Bronze.

– Nenhum dos dois sobreviverá e tudo terá sido em vão se você se precipitar no estado em que está! – Hargos falou com uma severidade que surpreendeu Ying.

Ela fechou os olhos. Realmente sentia-se fraca demais, muito pior até do que quando fora ferida por Kannon e perdera sua filha… Mas não podia ficar parada esperando a morte, pois isso significaria a morte de seu amado e da deusa recém-nascida…

Abrindo os olhos, tentou parecer conformada com sua impotência.

– Então…Procure Mu…Sinto que ele está por perto…Ele nos ajudará…E Ayolia…Ele deve estar… se sentindo perdido… no meio desse caos…

– Mas.. Mas, eu…Não posso deixá-la sozinha!! – o pobre Lince se sentia dividido e confuso, segurando a mão dela com desespero.

Ying quase sorriu.

Eu não posso ir a lugar algum…E não creio que me procurem aqui… Seria óbvio demais…Não perca tempo, meu amigo… Eu imploro, vá!

Hargos ainda hesitou, mas sabia bem que não adiantaria ficar ali parado. Também estava preocupado com Ayolia e sabia que Mu, como o mais ponderado dos Cavaleiros, seria de grande ajuda para eles naquela situação.

– E-Eu não demoro, Ying. Por favor, não tente fazer nenhuma bobagem…

– Eu prometo.

Hargos ainda olhou pra ela um segundo e saiu em seguida para procurar a ajuda pedida e encontrar seu irmãozinho postiço.

Assim que se viu sozinha, Ying se preparou para o que precisava fazer. Era um recurso extremo. Nevara sempre a avisara que somente devia ser usado em último caso pois dificilmente sobreviveria àquilo. Se Saga estivesse em seu juízo perfeito também seria contra…

Fechando os olhos, Ying respirou profundamente, bem devagar, concentrando-se como na primeira vez que despertara seu Cosmo. Ignorando os protestos dolorosos do corpo maltratado, sentou-se em posição de lótus, e voltando-se pro mais recôndito de seu ser buscou a essência de seu Cosmo. Se conseguisse despertá-la…

1 Niké, a deusa da Vitória (N.A)

2 Berseker: “homem-fera” , homens que, de acordo com mitologia nórdica, durante a batalha eram tomados de uma fúria devastadora, transformando-se em guerreiros sangüinários e invencíveis.(N.A)

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