Edifício Comercial Plaza – 09:00hs. 

A sala estava totalmente organizada. Jovens hackers se espalhavam em meio à computadores e impressoras. Logan observava tudo ao longe. Jade, Brutus e Marcelo conversavam empolgados enquanto tentavam abrir uma caixa com alguns equipamentos. Salomé preparava um café para a equipe. 

Desde que Jade mostrou a sala, Logan começou a agir diferentemente com ela. Agora, ele não compartilhava mais o andamento dos trabalhos, e sempre que podia, isolava Jade das decisões. Ela percebeu a mudança e tentava de todas as formas ser inclusa nas atividades, mas o hacker não facilitava. Agora, os dois viviam um conflito latente, silencioso, mas totalmente palpável.  

Jade se colocou no meio do salão e chamou a atenção de toda a equipe. Subiu em cima de um caixote e começou a falar: — Primeiramente bom dia a todos! Eu sei que tudo aqui é literalmente novo, sei que passamos por dificuldades e tivemos alguns membros da equipe feridos, mas, agora, estamos começando uma nova fase na nossa missão de invadir a Prime. 

Logan observava a mulher fazendo o discurso. Ele se aproximou e abrindo os braços questionou o que Jade estava fazendo? 

— Você quer falar algo? — perguntou Jade, vendo o homem no meio da sala, parado. 

Logan puxou Jade do caixote e subiu sobre ele. 

— Vocês precisam de alguma motivação para trabalhar? Acho que todos aqui sabem o porquê de invadirmos a Prime. Não vamos perder tempo! Voltem ao trabalho! 

Jade percebeu que Logan ficou incomodado. Saiu do salão e entrou na copa. Encontrou Salomé preparando um café. A mulher estava em silêncio, os olhos fixos em algum ponto entre a cafeteira e o pó, e o pescoço levemente virado para a esquerda. 

— Tudo bem? — perguntou Jade. 

— Na verdade, não. 

— Você quer me contar o que está acontecendo? — Jade perguntou, percebendo um leve machucado no olho esquerdo da mulher. 

— Não sei se você pode me ajudar. Não sei se eu quero ajuda, afinal. 

— Eu posso ajudar, sim. Eu não vou aceitar nenhum tipo de agressão no ambiente em que eu estiver. 

— O que você vai fazer? Você precisa dele tanto quanto eu! 

Jade ficou em silêncio.  

— Ele só faz isso quando está bêbado — declarou Salomé. — Mas, eu provoco às vezes. 

— Nada justifica a violência. Você é a esposa dele. Não tem por que resolver as coisas com agressão.  

— Ele sempre foi assim. Desde quando o conheci. Eu já me acostumei. 

— Isso não é verdade! Você não precisa suportar isso só porque conheceu ele assim! Até onde vai dar essa violência? Você já pensou que ele pode te matar? 

— Chega, Jade! Eu preciso cuidar. É bom que essa conversa fique por aqui. Eu não gostaria de arranjar mais problemas em casa — ela falou, saindo da copa. 

Jade permaneceu indignada. 

 

 

EPISÓDIO: HOMEM MAU

 

 

Restaurante Cerejas – 10:00hs. 

Morgana se preparava para entrar no caminhão e ir até à mansão de Babemco, quando foi interceptada por Paolo.  

— Pra onde você vai? — perguntou o cozinheiro. 

— O chefe disse que eu poderia fazer as entregas no seu lugar — respondeu Morgana, surpresa por ver Paolo. 

— Eu já tô bem! Seu esquema de pôr laxante na minha comida, não funcionou. Eu tenho medicação e sei fazer alguns chás pra esse tipo de emergência. Agora sai do meu caminhão, imediatamente! Eu não vou pedir duas vezes. 

A garota invadiu a cozinha tomada pela ira. “Droga, meu plano foi por água abaixo”, pensava. Entrou no banheiro, mas deixou a porta entreaberta. “Que merda! Como eu vou tirar esse cara do meu caminho?”. Morgana lavou o rosto e enxugou com uma toalha. Ao abrir os olhos, tomou um susto ao ver Paolo atrás de si. 

— O que cê tá fazendo aqui?  

— Vim conversar. 

Morgana abriu a boca para chamar alguém, mas Paolo pôs a mão sobre sua boca impedindo-a de falar. Em seguida, ele trancou a porta do banheiro e encostou a garota contra a pia.  

— Fica caladinha, sua vadiazinha. Se você der um pio eu juro que quebro a sua cara. 

Os olhos de Morgana pareciam querer saltara das órbitas. Ela estava em pânico. A respiração acelerada. As mãos começaram a tremer.  

Paolo retirou a mão de sobre a boca dela e em seguida segurou a coxa da garota. 

— Me solta — disse Morgana, tentando manter o controle. 

— É de um homem que você está precisando — ele afirmou, enquanto apalpava os seios dela. 

— Me solta, agora! 

— Cala a porra da boca, antes que eu te dê um murro! 

Paolo continuou alisando a barriga e as pernas de Morgana, enquanto encostava seu corpo contra o dela.  

— Que merda você pensa que tá fazendo? — ela perguntou. 

— Você vai sentir logo, logo — ele afirmou, continuando a se excitar. 

Morgana reuniu o resto de força que tinha e empurrou o homem contra a parede. Ela rapidamente abriu a porta e saiu do banheiro em disparada. 

Ainda no Edifício Plaza, Jade vai até o bar, que fica no primeiro andar e se encontra com Licurgo que parece perdido no ambiente. Os dois se sentam no balcão. 

Apesar de ter uma aparência grosseira, Licurgo é um homem atraente. Ele tem um rosto maduro e firme, alguém decidido, mas que não deixa de ser esperançoso. Ele abraça Jade ao encontrá-la. 

— Precisávamos desse momento — disse Jade, sorrindo. 

— Isso é um fato. 

— O que você vai pedir? 

— Uma água com gás. 

— Eu vou de marguerita! 

O bartender anotou os pedidos e correu para preparar as bebidas. Os amigos sorriem, tentando quebrar o gelo. 

— Eu achei que você tivesse voltado pra fazenda — disse Jade. 

— Eu ia voltar, mas a delegada me pediu ajuda e eu decidi ficar mais alguns dias.  

— Onde que você tá ficando?  

— A Yeda tem um apartamento no Montese. É uma quitinete na verdade. Mas, é bem aconchegante e cabe nós dois. 

— Que bom. Se precisar de algo… estou por aqui. 

— Eu preciso, sim. Preciso saber o que tá acontecendo? Eu sei que você tava no hangar que explodiu. A Yeda foi muito discreta, mas tem uns policiais que abriram o bico. E, sem falar que eu tava lá quando aconteceu. Por que você estava no Hangar? Qual seu envolvimento com aqueles hackers? 

O garçom deixou as bebidas. Jade tomou um gole generoso da marguerita. 

— Você quer a verdade? 

— Claro que sim. Se eu vou me envolver nessa merda toda, eu preciso ao menos saber o que tá acontecendo. Você é minha amiga. Você sabe que pode confiar em mim — disse Licurgo. 

— Tá ok, então se prepara que lá vem bomba. Eu estou ajudando uma galera a invadir o sistema da Prime. São vários hackers que trabalham com esse propósito. Mas, como você sabe, parece que Babemco descobriu onde trabalhávamos, foi lá e mandou explodir tudo.  

Licurgo pediu que o garçom trouxesse uma dose de martini. 

— Isso é loucura. 

— Eu não acho! — declarou Jade. 

— Você vai ser presa por fazer isso. 

— Sabe o que pode me deixar louca? É não fazer nada pelo meu filho. 

— Como isso pode trazer o Cícero de volta. 

— Quando eu tiver a Prime nas mãos eu vou exigir que o Babemco me devolva o Cícero. 

— Tem alguém à frente dessa operação que você tá participando? 

— Tem sim. Ele se chama Logan e já foi sócio do Babemco. Mas, aquele filho da puta traiu ele e agora o Logan quer se vingar. 

— E você confia nesse Logan? 

Jade ficou pensativa. Será que ela podia confiar mesmo em Logan? 

Depois que Licurgo saiu, a candidata Helena Melo se aproximou de Jade, as duas se abraçaram e começaram um diálogo empolgado. 

— Gostou da sala? — perguntou Helena. 

— Eu amei. Nem sei como te recompensar por isso.  

— Eu não fiz pensando em ter algo em troca. Eu só quero te ajudar. Confio em você. 

— Parece que você é a única que está me apoiando. Meus amigos não entendem e querem que eu pare.  

— Você precisa ser determinada. Não dá pra conseguir nada sem determinação, foco e resiliência. Você tem que insistir até conseguir.  

— Você não imagina o quanto eu me inspiro em você, sério. Cada dia eu te admiro mais. 

— Ai que coisa fofa!  

As duas se abraçam fortalecendo ainda mais a aliança. 

— Esse prédio também é seu, não é? — perguntou Jade. 

— É meu sim. 

— Preciso de mais um favorzinho. 

— Manda! 

— Preciso alugar esse bar em que estamos. Só por hoje à noite. E, preciso de bebida liberada! 

— Vai rolar festinha?! 

— Vai sim! Vai rolar festinha hoje à noite! 

— O bar é todo seu e a bebida é por conta da casa! — festeja Helena. 

As duas sorriem, compartilhando cumplicidade. 

Quando Licurgo entrou no apartamento, se deparou com Yeda próxima à janela, contemplando a rua. 

— Trocaram os pneus do seu carro? — questionou Licurgo. 

— Trocaram sim. E aí, como foi lá com a Jade? 

— Foi surpreendente. Nem sei se posso te contar o que descobri! Você é delegada, então… 

— O que tá rolando? 

Licurgo se senta e dobra as pernas relaxadamente. — Bem, ela estava no Hangar ajudando um hacker a invadir o sistema da Prime. 

Yeda tomou um susto. 

— Invadir o sistema da Prime? Mas por qual motivo? 

— Ela disse que vai tomar o controle da empresa e negociar com Babemco. Pedir o Cícero de volta. 

— Isso é loucura! 

— Foi o que eu disse. 

— Qual a chance de isso dar certo? 

— Não sou bom de estatística. 

Yeda foi até à cozinha, encheu uma xícara com café e retornou para a sala, onde Licurgo estava. 

— Sinceramente não sei quem armou aquele teatro para mim? — disse Yeda, mudando de assunto. 

— Você acha que o seu pai faria aquilo? 

— Me ameaçar no meio da rua, daquela forma? Não sei, mas eu vou descobrir. 

— Eu não preciso mais falar o quanto tudo isso está ficando esquisito, né? 

— O que eu tô fazendo é diferente. Eu tô tentando agir dentro da lei. E, como agente de segurança pública eu não posso me acovardar. Eu preciso enfrentar e desmantelar todo esquema de corrupção. 

— Você tá suspensa da polícia. Você não tem autoridade aqui em Recife. Se quiser voltar à ativa, vai ter que ir pra Monte Verde. Quem vai te apoiar aqui pra você desmantelar o crime? Pensa nisso. 

Yeda tomou mais um gole do seu café e permaneceu pensativa. 

Morgana passou um bom tempo trancada no banheiro. Depois do susto que passou com Paolo, ficou desconfiada e não sabia mais o que fazer em relação ao assédio sofrido. Ela pensou em contar tudo para o chef Dilard, mas teve medo de ser desmentida pelo seu agressor. Pensou em deixar o restaurante, mas, precisava estar ali para ter o mínimo de chance de entrar na mansão do Babemco. Até que decidiu permanecer, e encontrar um meio de enfrentar o desafio. Agora que começara a luta, iria até o fim. Estava determinada. 

Depois de limpar o chão da cozinha, Morgana percebeu que Paolo passou muito tempo no armário. O chefe Dilard o designou para organizar os alimentos e materiais, e aquele era o tipo de serviço que duraria no mínimo uns dois dias. Aquele era um lugar isolado da cozinha, e a primeira coisa que Morgana pensou era de que ela não deveria entrar ali em hipótese alguma. Precisava de todas as formas fugir da presença de Paolo e evitar ficar sozinha com ele. 

Ao mesmo tempo, saber que ali, seria um lugar propício para o assédio; deu uma ideia para Morgana. Uma ideia macabra, diga-se de passagem. 

Quando Jade retornou para o escritório da equipe, a primeira coisa que ela quis fazer foi falar com Logan, ela precisava quebrar o gelo entre eles e ganhar a confiança do hacker mais uma vez. 

— Preciso falar contigo. Tem um tempo? — Jade perguntou para Logan. 

Os dois se afastaram e se sentaram em um sofá reservado para as pausas e relaxamento. Logan estava desconfiado. Jade serviu um pouco de café para os dois. 

— Eu quero começar te pedindo desculpas — iniciou a mulher. 

— Você não fez nada. Por que as desculpas? 

— Eu fiz sim. Eu fui longe demais e tomei a sua frente. Acho que estava tão empolgada em terminar o serviço e não perder o link que acabei esquecendo da sua liderança — Jade retirou um cigarro do maço e ofereceu para Logan. — Lembra quando você me encontrou no parque? Eu com muito medo e desconfiada de tudo. Foi você que me inspirou confiança. Foi você que me fez acreditar que seria possível derrubar o Babemco. Ninguém foi capaz de me fazer levantar e tentar lutar de novo. Mas, você conseguiu mexer comigo e me fazer acreditar de novo. Eu quero te agradecer por isso. 

— Você nem queria me escutar — ele sorri com a lembrança. 

— E hoje nós estamos aqui. Por sorte do destino eu consegui arranjar um lugar e alguns computadores, mas você que tem a gana. Você tem a mente e as ideias. E eu reconheço tudo isso. Reconheço e agradeço. 

— Tá querendo me fazer chorar? 

— Não, não é isso. Só quero me colocar em meu lugar e reconhecer o seu lugar. Você é o nosso líder e você é quem nos inspira. 

— Obrigado pelo reconhecimento. Eu vacilo, às vezes… 

— Sim, e é por isso que te chamei aqui. Pra gente alinhar as coisas. Pra gente colocar tudo em seu devido lugar. E, pra gente quebrar um pouco esse estresse e tensão dos últimos dias. Nós tivemos muitas perdas, pessoas feridas e tudo isso acaba sobrecarregando a equipe. 

— Você tem razão. 

— Que tal dar uma parada? Esfriar um pouco a cabeça e relaxar, hein?! 

— Parece uma boa ideia. 

— Eu reservei o bar do edifício pra gente. Cinco horas de bebida à vontade. Tudo por conta da casa. Que tal? 

— Isso é incrível. Acho uma boa ideia! 

— Vai lá! Avisa pra todo mundo que você vai levar a equipe pra curtir um Happy Hour — Jade incita. 

— Jade, você é uma figura! 

— Eu só quero agradecer. Obrigada mesmo. Falo do coração — Jade fala, abraçando Logan. 

O dia estava declinando quando Yeda entrou no 13º Distrito de Polícia. Cumprimentou alguns agentes e em seguida foi à sala do delegado Humberto.  

Algumas ligações, dois e-mails que precisavam ser enviados e três detentos que brigavam, depois de tudo isso o doutor Humberto conseguiu dar atenção para Yeda. 

— Que loucura tá aqui hoje — murmurou Humberto, sentando em sua cadeira. 

— Eu poderia falar contigo em outro momento, mas acredito que o assunto é de extrema urgência. 

— Mais um problema pra eu resolver? 

— É sobre o delegado geral… 

— Ihhhh… — o homem revirou os olhos, impaciente. 

— Eu denunciei ele na corregedoria. 

— Você fez o quê?! 

— Denunciei o meu pai. 

— Perdeu o juízo. 

— E logo em seguida, me pararam no trânsito e me ameaçaram. Tá sabendo de alguma coisa? 

O delegado se levantou, fechou as cortinas e conferiu se a porta estava trancada. 

— Você é maluca, Yeda?! Por que você denunciou seu pai? 

— Eu entreguei fotos dele com o Capeto e também os arquivos do inquérito em que o capanga do Babemco foi detido por explodir o Hangar. 

— O Ministério Público já arquivou esse inquérito. E que fotos são essas? 

— Um escrivão me deu. 

Humberto estava inquieto, organizava alguns papéis, mexia nas canetas e não conseguia focar no que Yeda acabara de falar. 

— Seu pai tá envolvido com o crime organizado, e o Babemco é um dos cabeças — afirmou o delegado, quase sussurrando. 

— Por que você não endossa minha denúncia? 

— Eu não quero morrer. 

— Você acha que eu corro risco real? — questionou Yeda. 

— Tenho certeza. Ano passado, quatro policiais sumiram sem vestígios, e todos ligados em denúncias contra o seu pai, ou investigando o Babemco. 

— Eu sou filha dele. Acha que ele pode fazer algo contra mim? 

— Você não vai querer ter seu pai como inimigo. E, se os outros quiserem que você saia de cena. Você pode tá causando um conflito entre seu pai e os criminosos. Daí, não somente você estará correndo riscos, mas o seu pai também. 

Yeda não havia pensado nisso, mas ela parou para refletir e percebeu que aquilo era uma possibilidade. 

Morgana passou parte do dia observando de longe as atividades que Paolo realizava. Aproveitou a ausência do cozinheiro e entrou no depósito, averiguando cada canto do local. Nos fundos do lugar, ela encontrou uma prateleira coberta de sacos com grãos de feijão. Conseguiu apoiar o celular entre os sacos, de forma que a câmera do objeto ficasse escondida e o aparelho totalmente camuflado. Era ali! Havia achado o local ideal para esconder o celular. Dali, a câmera conseguia filmar todo o corredor e registrar tudo o que aconteceria dentro daquele depósito. Era o cenário perfeito. 

Às dezenove horas, os hackers foram liberados, e toda a equipe desceu até o primeiro andar do Edifício Plaza para se confraternizarem no bar. Logan parecia relaxado conversando com os rapazes. Marcelo e Brutus não paravam de sorrir enquanto degustavam uma caipirinha. Salomé ficou contraída no canto da sala. Ela não conseguia vislumbrar um final agradável, depois de toda aquela bebedeira. 

Jade conversava com todos pela frente, tentando ao máximo ser carismática e acessível, mas, os tremores nas mãos haviam voltado. Ela tomou mais algumas doses de tequila, antes de puxar Logan para um canto do bar. 

— E aí, curtindo? — Jade questionou. 

— Você tá fazendo algo excelente por nós. Você é demais! 

Jade entregou uma dose para Logan. — Tudo isso só foi possível por causa da sua visão. 

Logan virou a dose e tomou tudo em um gole só. Jade pediu mais duas doses. 

— Se não fosse a sua visão, nada disso estaria acontecendo — ela disse, entregando mais uma dose à Logan. Ele não pensou duas vezes e tomou a bebida com avidez. 

— Sensacional— disse Logan, limpando o canto da boca com as costas da mão. 

— Toma! Você merece tudo isso e muito mais — Jade disse, colocando mais um shot na mão do homem. 

Logan virou a bebida e sorriu satisfeito. — Isso só pode ser um sonho. Eu quero conhecer essa sua amiga. Acho que nós vamos nos dar bem. 

— Você vai sim. Ela é maravilhosa. 

No décimo terceiro distrito, Yeda e o delegado Humberto continuam conversando. Ele levantou e preparou dois drinks, deu um para Yeda e retornou para sua mesa. 

— O que você sabe sobre o envolvimento do meu pai com o Babemco? 

Antes de responder, o delegado tomou uma dose da bebida. 

— Eu soube de coisas bizarras. Sabe o Complexo Fantasma? Era tipo um clube de milionários se divertirem às custas das presidiárias. 

— Tá falando que meu pai tá envolvido com o Complexo? 

— Tem uma grande probabilidade. 

Yeda se levantou indignada. — Você faz ideia do que se passava naquele lugar? 

— Coisas bizarras — respondeu Humberto. 

— Eu vou colocar ele atrás das grades. Isso não pode ficar impune. 

— Eu admiro a sua integridade. 

Enquanto isso, no restaurante Cerejas… 

Morgana se aproximou do Depósito e percebeu que Paolo continuava seu trabalho. O homem estava concentrado organizando as prateleiras. A garota se aproximou e ficou na soleira da porta. 

— Nós precisamos conversar sobre o que aconteceu? — incitou Morgana. 

Ele a viu de canto de olho, mas logo retornou para as prateleiras, não deu muita bola. 

—Você acha que vai ficar assim? Que você pode tocar em mim e fica por isso mesmo? — ela se aproximou e encostou a mão no antebraço dele. 

— O que você quer? — ele disse, observando a mão dela repousada sobre o braço dele. 

— Por que você fez aquilo? Você se sente atraído por mim? — ela questionou, com uma voz mais sussurrada, enquanto colocava os cabelos para trás, deixando os ombros amostra. 

Paolo percebeu o movimento que ela fez e parou imediatamente o que estava fazendo. 

— Você tá querendo, né? — ele perguntou. 

— Querendo o quê? 

Ele segurou no braço dela e puxou-a para o interior do Depósito. Morgana tentou se desvencilhar, mas, não pôs força o suficiente para isso. 

— É melhor parar com isso. 

— Você gostou da minha pegada?  

— Eu preciso voltar ao trabalho — ela disse, encarando-o. 

Paolo fechou a porta, virou a chave e retirou-a do buraco. Morgana segurou o trinco e pediu que ele abrisse. 

— Para com isso — ela continuou sussurrando. 

— Você quer? — ele passou a mão pelos seios e apertou o corpo dela contra si. 

Morgana sorria parecendo satisfeita com a investida dele. 

— Tá gostando, tá? 

— Para… — ela sussurrou. 

Ele continuava a agarrar e beijar-lhe o pescoço. Foi quando de repente a atitude dela mudou. Morgana começou a se debater e empurrar Paolo. Ele insistia em apertar-lhe, mas ela combatia dando pequenos socos no peito do homem. 

— Me solta, eu vou gritar — ela ameaçou. 

Ele continuava a abraçar-lhe queimando em desejo, e ela se debatia tentando se livrar. Foi quando Paolo tapou a boca dela e foi desabotoando a calça jeans da garota. 

— Para com isso, Paolo, pelo amor de Deus, para com isso — ela clamava, derramando lágrimas de terror. 

Ele continuou, agora, abrindo sua própria calça.  

— Para com isso! — ela gritava, mas ele tapava a boca dela. 

A câmera do celular flagrava todo o ato. O estupro, o assédio e a violência. 

Era quase uma hora da madrugada quando Jade estacionou diante da casa de Logan. Salomé desceu do carro carregando o hacker que estava totalmente embriagado. O homem cantarolava uma canção antiga e tentava relembrar toda a letra, mas não conseguia.  

Jade também saiu do carro, deu a volta e segurou o homem ajudando-o a entrar em casa. Depois que ele se sentou no sofá, Salomé foi até à porta conversar com Jade. 

— Por que você fez isso? — Salomé perguntou. 

— O que foi que eu fiz? 

— Olha a situação dele? O que você tá pensando? Eu te disse que quando ele bebe fica violento! 

— Ele tá apagado. Vai dormir já, já. 

— Ele não vai dormir tão cedo. Ele vai me perturbar durante o resto da noite. 

— Nós precisávamos relaxar. Eu só quis ajudar. 

— É melhor ir embora — disse Salomé, batendo a porta. 

Jade voltou para o carro, sentou no banco do motorista e ligou o celular. Ela ficou atenta observando o movimento no interior da casa.  

Trinta minutos foi suficiente para o barulho tomar de conta da casa 25 da rua Independência. O som de vidro quebrando e portas sendo batidas era notável.  

Jade se levantou e foi até à janela tentar ver o que estava acontecendo. Mas, o que ela testemunhou não foi nada agradável. 

Logan partiu para cima de Salomé e lhe deu várias vassouradas. Em seguida, ele arremessou um vaso que atingiu as costas da mulher. Por fim, o homem derrubou a esposa no chão e lhe estapeou por vários minutos. 

Jade discou para a polícia. Eles precisavam dar um basta nisso. 

Em poucos minutos a rua da Independência estava iluminada pelo giroscópio da polícia. E, vários agentes ocupavam a calçada da casa 25.  

Logan saiu de casa algemado. Salomé foi amparada pelos socorristas. Jade tentou ajudar, mas ela não quis ajuda. 

— Tudo isso, é culpa sua. Culpa sua! — decretou Salomé em direção à Jade. 

Quando Morgana chegou em casa naquela noite, sua mãe percebeu que algo estava diferente. A filha correu para o quarto e se trancou sem ao menos dar boa noite. 

— Tá tudo bem, querida? — perguntou Léia, sabendo que havia algo errado. 

— Me deixa, mãe. Eu só preciso de um tempo — Morgana respondeu, com uma voz chorosa. 

— Tudo bem. Seu prato tá no micro-ondas. Se quiser conversar, é só chamar. 

Aquela foi uma noite infernal. Morgana tomou três banhos, se sentindo suja e indigna. Ela estava totalmente arrasada e se sentindo violada por ter que suportar uma agressão daquele nível. 

Mas, o celular estava em suas mãos e o vídeo também. Ela salvou uma cópia do vídeo e editou, retirando a parte em que ela flertou com Paolo. Precisava somente da violência e do momento em que pediu para ele parar, mas não foi atendida. 

— Ele me paga!  

Quando amanheceu, Morgana foi uma das primeiras a chegar no restaurante Cerejas. Ela aguardou o chef Dilard e foi logo lhe chamando, informando que tinha algo sério para conversar. 

— Espero que seja algo relevante. 

Morgana entrou no escritório do chef e se sentou. Ele percebeu o olhar baixo e as mãos trêmulas da garota. Viu que era algo sério. Deixou sua doma sobre a mesa e se aproximou. 

— O que aconteceu? 

A garota retirou o celular do bolso, abriu na galeria e mostrou o vídeo para o chef. Dilard assistiu tudo em silêncio. Parecia surpreso. 

— Por que ele fez isso? 

— Fez contra a minha vontade! E, ainda debaixo do seu nariz. Vou falar com o senhor Gabriel, ele é dono e vai tomar as providências. 

— Não precisa falar com Gabriel. Deixa que eu resolvo isso. 

Morgana levantou-se e encarou o chef.  

— Você vai desligar ele?  

— Com certeza! — respondeu o Chef. 

Morgana se aproximou ainda mais do homem. 

— Eu quero mais uma coisa. 

— O que você quer? 

— Quero ficar no lugar do Paolo fazendo as entregas na van. 

— Mas isso não… 

Morgana o interrompeu. — Se você não consegue, então talvez o Gabriel consiga, ou talvez a polícia. Eu quero isso. Você pode fazer? 

O chefe se afastou, sentindo a ameaça. — Tudo bem. Entregas! Temos um acordo, então. — Ele disse, estendendo a mão. Morgana apenas o encarou sem dar a mão, e saiu da sala. 

Delegacia da Mulher. 10 hs da manhã. 

Um agente acompanhou Jade até as celas de detenção. O ambiente era mal iluminado e sujo. Homens jogados no chão encaravam a mulher caminhando pelo corredor. 

Até que o agente parou e indicou a cela à esquerda. — É essa aqui — apontou. 

Jade se aproximou e viu Logan, cabisbaixo. 

— Mas que merda hein… — disse Jade, segurando as grades. 

Logan levantou a cabeça e encarou a mulher. — O que você quer? 

— Vim ver como você está. Precisando de algo? 

— Só preciso sair daqui. 

— Meu advogado ainda tá internado, então… 

— Não banca a esperta comigo — ele fala levantando-se. 

Jade se afastou das grades. 

— Eu sei o que você fez — Logan disse. 

— Sabe? Que bom! Pelo menos agora você entende que eu não sou nenhuma idiota. 

— Não mesmo. 

— Nós conseguimos invadir a Prime. O Brutus e o Marcelo formam uma dupla e tanto, e eles me respeitam muito. 

— Quando eu sair daqui eu vou chutar o seu traseiro branco e rico pra bem longe — Logan ameaçou. 

— Não, não vai mesmo. Você não vai chegar nem perto do escritório, e não vai fazer parte de absolutamente nada, seu espancador covarde de merda! Você não é nada. Você é a merda de um verme pequeno e covarde. Nunca mais encosta a mão em mulher nenhum, porque é isso que acontece com projetos de homem como você.  

— Você acha que é esperta?! 

Jade deu um sorriso sarcástico. — O que você acha? 

— Acho que você não sabe com quem está brincando. Se pensa que Babemco é um homem mal, é porque ainda não me conheceu por inteiro. 

— Eu não tenho medo de suas ameaças. Homens como você só servem para ser enganados. Nunca mais se aproxima de mim. Ou então, você vai experimentar o que é o mal. 

Jade deu as costas e saiu, deixando Logan totalmente enfurecido. 

Eram dez da manhã quando Yeda chegou ao décimo terceiro distrito de polícia. Foi até a sala do delegado Humberto e sentou-se diante dele. 

— Vim correndo. Você disse que era urgente — informou Yeda. 

— Sim, e preciso resolver isso logo. O dia hoje tá corrido e não tenho tempo pra formalidades. 

O delegado retirou uma arma e um distintivo da sua gaveta, e em seguida entregou nas mãos de Yeda. 

— O que significa isso? — ela perguntou, surpresa. 

— Isso? É quando uma pessoa age com honestidade e integridade em meio a tanta sujeira e corrupção. Quando alguém busca trabalhar dentro da lei, sem passar por cima de ninguém e sem vender os seus princípios. Seja bem-vinda de volta, doutora Yeda. 

Ela levantou-se com lágrimas nos olhos. Tomou o distintivo e pôs ao redor do pescoço. Colocou a arma no coldre e pendurou na cintura. Ela não conseguia disfarçar o sorriso e as lágrimas que escorriam por sua face. 

— Eu só tenho a agradecer — ela disse, emocionada. 

Humberto se aproximou e deu um abraço na delegada.  

— Nunca deixe que tirem a sua retidão. Continue sendo esta mulher corajosa e firme que você é. 

Yeda enxugou as lágrimas do rosto e encarou o delegado. — E o meu pai?  

— Eu resolvo isso. Essa é minha delegacia e seu pai não pode interferir em tudo.  

— Se precisar de ajuda, sabe que pode contar comigo. 

Yeda saiu da sala do delegado em êxtase. Agora, enfim, ela estava de volta à ativa e com certeza iria atrás dos responsáveis pelas atrocidades no Complexo Fantasma e o capanga do Babemco.  

Uma van branca se aproximou da mansão do Babemco. Depois de passar pela portaria, o veículo deu a volta até a entrada da cozinha e estacionou. Primeiro, Carlão desceu carregando uma caixa com tomate e alface. Em seguida veio Morgana com uma caixa de figos e damasco. 

A garota parecia deslumbrada quando entrou na cozinha da mansão. Ela acompanhou Carlão até um depósito e por onde passava observava se tinha câmeras no percurso. 

Depois de deixar a mercadoria, Morgana aguardou Carlão retornar para a van e foi até um corredor que dava para o restante dos cômodos da casa. Caminhou até uma sala cheia de quadros e poltronas e não viu nenhuma câmera.  

Ela estava dentro. E isso era maravilhoso. Agora, precisava mapear todo o lugar até encontrar o Cícero. Não seria uma tarefa fácil, mas, nada impossível. 

Morgana estava um passo mais próxima de colocar as mãos no filho da Jade. 

Quando Jade entrou no escritório, todos os hackers pararam as atividades e prestaram atenção nela. A mulher subiu no caixote mais uma vez, e chamou Brutus e Marcelo para ficarem ao seu lado. 

— Primeiramente, quero agradecer a cada um que cooperou com essa operação até aqui! E também dar uma excelente notícia à todos: A Prime Security é nossa!!! Conseguimos invadir o sistema e já temos acesso a tudo lá dentro!!! 

Todos aplaudem demonstrando entusiasmo. 

— Isso não seria possível, sem a ajuda do Brutus e do Marcelo, e obviamente de todos vocês!  

A equipe inteira continua aplaudindo. Um membro levanta a mão e pergunta por Logan. 

— Bem. O Logan agrediu a sua esposa e foi detido pela polícia. Hoje mesmo eu falei com ele e informei que a partir de agora, ele estava fora da operação.  

Os hackers sorriem demonstrando um certo alívio. — Graças a Deus, ele não vai voltar. 

Jade continua encarando a todos. — Então, hoje eu estou liderando toda a equipe, com o apoio de Brutus e Marcelo. Eu não posso forçar ninguém a continuar, mas se ficarem eu juro que teremos os melhores resultados e um clima mais leve, a partir de hoje. Se tiver aqui alguém que não concorde com a minha liderança, o momento de sair é agora. A porta está aberta!  

Jade aguardou. Ninguém foi embora. 

— Vocês irão ficar mesmo?! 

“Sim”, gritaram os hackers.  

Jade continuou imponente sobre o caixote. Todos lhe observavam admirando-a. Agora ela estava por cima, segura, determinada e com sede de vingança. 

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