Era noite, quando Jade chegou em casa. Ao entrar na sala, foi surpreendida pela presença de Victória, sua psicóloga. A mulher vestia uma calça jeans, camiseta branca simples e seus cabelos estavam presos em um rabo de cavalo. Ela sorriu e abraçou Jade. 

— Amiga, como você está? 

Jade largou sua mochila no sofá e se sentou ao lado dela. 

— Me sinto determinada. 

Victória fez uma cara de surpresa. — Que bom! Isso é bom, não é? 

— Acho que sim — respondeu Jade. 

A mãe de Jade entrou e deixou duas xícaras com chá sobre a mesa de centro. — Fiquem à vontade — disse Léia, deixando o ambiente.  

Victória tomou a xícara e tentava ler as expressões de Jade, mas a mulher parecia inexpressiva, como se realmente estivesse em um foco total. 

— Soube que você ficou algumas horas detida. Quer falar sobre isso? — Victória incentivou. 

Jade sorriu incomodada, mas não queria ser indelicada. — Sabe Victória, para ser bem sincera, eu acho que algo mudou dentro de mim. Algo que me fez enxergar as coisas com mais clareza. Não sei te explicar bem o que foi, mas é como se eu pudesse me perceber fora de mim, como se eu estivesse em um vídeo game e eu fosse o personagem e ao mesmo tempo o jogador com o controle nas mãos. Isso é um problema? 

— Depende! Pode ser um fenômeno dissociativo, o que é normal quando se passa por alguns traumas como você passou. Mas, todos nós em determinados momentos, experimentamos esse fenômeno. O que você vai fazer a partir disso é o que determina se é algo bom ou não. Você sente que você não é você? Que não tem controle sobre suas ações? Ou você consegue enxergar a si e direcionar melhor suas ações? Como você consegue perceber essa dissociação? 

Jade parece refletir. 

— Eu sinto que não importa mais as coisas que eu penso ou como eu me sinto. O que importa é somente o que eu faço. Só importam as minhas ações para alcançar o meu objetivo. É como se eu estivesse quebrada por dentro, sem remorso, culpa ou indecisões. Eu só preciso agir na direção do meu alvo e alcançá-lo o mais rápido possível. 

— Você precisa ter cuidado. Nós não somos seres isolados. Você convive com outras pessoas, outras vontades, você convive em sociedade, e sociedade esta regida por leis e normas. Então, o comportamento não pode ultrapassar certos limites. A sua liberdade acaba onde a liberdade do outro começa. 

— Eu só quero a minha família de volta. E eu não posso me dar o luxo de ficar sofrendo para sempre. Agora, Victória, é tudo ou nada. Se eu não jogar com todas as minhas cartas esse será um jogo perdido, e sinceramente, eu não quero mais perder neste jogo. 

Victória levantou e abraçou Jade mais uma vez. 

— Eu tô aqui. Pode contar comigo sempre — disse a psicóloga. 

 

 

EPISÓDIO: AS REGRAS DO JOGO

 

 

O décimo terceiro distrito de polícia estava um caos. Vários policiais entrando e saindo, presos gritando, mulheres carregando crianças de colo em desespero, um escrivão eufórico e sem controle. Tudo estava uma loucura. 

Porém, na sala do delegado Humberto, um clima de tensão e receio pairavam no ar. Yeda andava de um lado para o outro sem entender o motivo do seu pai ter suspendido a sua licença para atuar como delegada naquela jurisdição. 

— O que ele disse? Por que ele não me quer mais aqui?  

— Eu não sei, querida. Você precisa conversar com ele — disse Humberto. 

— O caso da Jade veio lá de Monte Verde. Eu era a delegada titular e toda a investigação continuou aqui pois o Babemco e a Jade estão aqui em Recife. Não entendo por que não posso mais trabalhar! Isso não vai ficar assim. Eu vou descobrir o que tá acontecendo — declarou Yeda, determinada. 

— Vai com calma. Seu pai é um homem muito importante e não vai passar a mão na sua cabeça. 

— Eu não quero isso. Quero que ele aja dentro da lei. Se houver uma justificativa plausível para me retirar do caso, eu saio sem problemas, mas se não, eu vou lutar até o fim. 

— Mesmo que para isso você enfrente o Delegado Geral de Polícia? 

— Mesmo que para isso eu enfrente o meu pai! — declarou Yeda, resilente.

Helena Melo sentou em seu sofá segurando uma taça de champanhe. A porta da varanda estava aberta e ela podia avistar a cidade lá embaixo e todo o seu movimento frenético. 

— Você não tem medo de altura? — Jade perguntou, sentando no sofá em frente. 

— Não! Na verdade, morar em uma cobertura faz com que eu me sinta um pouco maior do que os outros. E, não falo isso como algo orgulhoso, mas como se eu merecesse, sabe? Eu trabalhei tanto, sofri muito e agora posso me recolher na minha torre. É meio que um prêmio pelo meu esforço e eu me alegro com isso. 

— Tem razão. Faz tempo que você trabalha com construção?  

— Comecei como corretora de imóveis há quinze anos. Depois abri a construtora há dez, e minhas lanchonetes há sete anos.  

— É incrível! 

— Eu também acho. Mas, nada que uma mente inabalável não possa construir — disse Helena, batendo na cabeça com o indicador. 

— Sim — Jade disse, admirada. 

— Falando em mente inabalável, como anda a sua? 

— Não ficar só em casa tem me ajudado. Tô tentando fazer exercícios todos os dias. Lendo bastante. Meditando e fazendo algumas coisas em busca de ajudar meu filho. 

— O que você tem feito? 

— Eu conheci um cara que invadiu o sistema da Prime. Ele era sócio do Babemco e nós estamos tentando tomar o controle do software da empresa. 

— Isso é sério? 

— Sim. Muito sério e você é a primeira a saber disso. Peço segredo, por favor. 

— Guardarei seu segredo — disse Helena, com ar de cumplicidade. 

As duas brindam e tomam a bebida em sincronia. 

A manhã segue agitada na capital pernambucana. Na sala de Babemco, na Prime Security, Melquiades continua trabalhando tentando bloquear todas as portas de acesso e procurando o IP do computador hacker. 

— Como algo assim foi acontecer? — questionou Babemco para Melquiades. 

— Tudo começou com uma permissão dada por Marieta. 

— Eu preciso visitar essa desgraçada. Ela acha que vai sair impune de tudo isso? 

Melquiades salta da cadeira. 

— O que foi? — perguntou Babemco, curioso. 

— Encontrei o computador! 

— Isso! Onde que o desgraçado está? 

— É um hangar abandonado. Fica na região metropolitana, próximo à Caucaia — informou Melquiades, observando pela tela do notebook. 

Babemco digita um número em seu celular e aguarda alguém atender do outro lado da linha. 

— Oi, Capeto. Quanto tempo! Como estão as coisas? — perguntou Babemco. 

Do outro lado da linha, o velho Capeto tentava equilibrar o celular em uma mão e o cigarro na outra. 

— Por aqui tudo tranquilo — respondeu o capanga de Babemco, com uma voz cansada. 

— Tenho um trabalho pra você. Preciso que, discretamente, você investigue um endereço para mim. Alguém nesse lugar está tentando invadir a minha empresa. Quero saber quem está por trás disso. 

— Só a sondagem?  

— Por enquanto sim. Depois que descobrir quem são os autores, eu tomo as medidas cabíveis — decretou Babemco. 

— Onde fica o endereço? 

— Vou te informar. 

Prédio da Secretaria de Segurança Pública do Estado de Pernambuco. Onze horas da manhã. Yeda aguarda para entrar no gabinete do Delegado Geral. Ela está ansiosa.  

Alguns minutos de apreensão e a atendente pede que ela entre. 

A sala é ampla e as paredes amarronzadas. Uma estante de livros cobre os quatro cantos do ambiente. Tudo é limpo e organizado. 

O doutor Diógenes é um homem elegante e charmoso. Negro, um metro e oitenta e noventa quilos de massa magra. Ele encara Yeda, atrás de uma mesa de mogno. 

— Mas, que bela visita — disse doutor Diógenes. 

Yeda está desconfiada e visivelmente chateada. 

— Creio que o senhor já deve saber o motivo da minha visita. 

— Sei? O que te contrariou? Somente algo que não foi de acordo com a sua vontade pra te fazer vir até mim, imagino. 

— Isso não é um jogo! — dispara Yeda. 

Ainda de maneira relaxada, Diógenes responde: — Se isso não fosse um jogo, você não teria sido suspensa e eu não teria que responder nada a você. Então, não, isso não é um jogo, mas, seguimos regras e talvez elas possam te incomodar um pouco. 

— O que eu fiz de tão errado dessa vez? 

— Se houvesse erros, tenho certeza de que você não os reconheceria. 

— Espero sinceramente que você tenha certeza do que está fazendo. Conhecendo a filha que tem, sabe que eu não vou desistir de continuar no caso. 

— Eu sei o que estou fazendo. E você, sabe o que está querendo fazer? 

— Sei que sempre vou fazer a coisa certa. Tenho que ir — Yeda disse, se retirando da sala. 

— Espera! — disse Diógenes levantando-se. — Tenha cuidado. Têm gente muito poderosa que pode te fazer algum mal.  

— Eu sou delegada! E, não foi com covardia que eu cheguei até aqui! Posso ir agora?  

Doutor Diógenes confirma com a cabeça e observa a filha deixar a sala. Ele está preocupado. 

Yeda entrou em seu carro e dirigiu até um posto de gasolina. Percebeu quando um jipe parou atrás dela e um homem desceu vindo em sua direção. Ela o conhecia de algum lugar, mas não conseguia lembrar agora. Ele se aproximou da porta e inclinando-se para o interior do veículo falou: — Precisamos conversar! Me encontra no café no cruzamento da rua Bandeirantes. Eu sei por que o seu pai te suspendeu. — Ele virou-se e retornou para o seu carro. Yeda achou aquilo estranho, mas o seu instinto policial dizia que ele realmente tinha algo. Decidiu seguir o conselho do estranho. 

Cinco minutos e a delegada estacionou na calçada do Café Status. Um lugar aconchegante com cheiro de café torrado e chocolate amargo.  

Sentaram-se em uma mesa nos fundos e pediram café expresso. O homem era grisalho, barbudo e tinha a pele branca com manchas vermelhas pelas bochechas. Aparentava ter uns cinquenta anos, não mais do que isso. Ele vestia a camisa do décimo quinto distrito, devia ser algum escrivão ou inspetor. 

— Desculpa chegar daquela forma, mas, tive que ser o mais direto possível. Meu contato na Secretaria de Segurança me ligou falando que você estava lá, então eu tive que correr para não te perder de vista — disse o homem, um pouco ofegante. 

— Qual seu nome? 

— Eu sou o Borges. Inspetor do décimo quinto distrito. Estou próximo da aposentadoria, graças a Deus. Não suporto mais a podridão dessa polícia — ele disse estendendo a mão para Yeda.

— O que você sabe sobre mim e o meu pai? 

— Eu nem acredito que estou fazendo uma coisa dessas, mas sinceramente, estou cansado de tanta podridão e impunidade. Seu pai já foi um homem bom, mas agora parece um cão perdido sendo puxado pela coleira por políticos e empresários poderosos. Ele se vendeu, isso que é a verdade. E, você está sendo vítima de tudo isso. 

— Você tá falando de coisa muito séria. Se descobrem suas acusações, podem abrir um processo administrativo. 

— Eu vou me aposentar em breve. Só quero tentar reparar algumas coisas antes de sair. 

— E, o que você sabe sobre a minha suspensão? Por que você acha que meu pai suspendeu minha licença para atuar no caso da Jade? — questionou a delega, tomando um pouco do café. 

— Seu pai está muito envolvido com o Babemco. Esse homem é o demônio em pessoa, e tenho certeza que seu pai vai afundar se continuar se vendendo para ele. 

— Isso só pode ser brincadeira. Meu pai pode ser tudo, menos corrupto — Yeda tenta falar aquilo com convicção. 

— Não, Yeda. Você não conhece seu pai. Ele está atolado nesse lamaçal e você precisa fazer alguma coisa pra parar tudo isso. 

Yeda parece apreensiva. 

Um prédio está em construção. Homens trabalham incansavelmente. Helena e Jade andam pela obra observando tudo ao redor. 

— Aqui é o meu mais novo empreendimento. Vai ser um hotel de luxo com apartamentos para aluguel, um lago artificial e um píer privado. Tudo feito exclusivamente para clientes de alto padrão — explana Helena. 

— Com tudo isso, como você ainda arruma tempo pra política? — questiona Jade, observando uma betoneira misturando a brita e o concreto. 

— Mente inabalável e rotina organizada. Acho que nada mais — sorri Helena, confiante. 

— Eu preciso aprender a ter esse poder que você tem. Isso pode mudar toda uma realidade. 

— Sim, e você vai! Mais uma vez quero deixar claro. Eu estou com você e pode contar comigo em qualquer situação. O Babemco pode ser poderoso, mas não foi com medo de gente poderosa que eu cheguei até aqui. Foi com trabalho, coragem e ousadia que me ajudaram a conquistar tudo. Então, seja ousada, corajosa e tenha os melhores amigos por perto — brincou Helena. 

Depois do tour pelos empreendimentos da candidata. Jade foi para o Hangar de Logan. 

Enquanto Jade se despedia da candidata, Capeto observava tudo através de um binóculo. Ele estava do outro lado da rua, escondido em seu carro, e fotografando Helena Melo e Jade diante do Hangar. 

— Essas fotos estão perfeitas — disse Capeto para si, observando Jade e Helena. 

O homem continuou de tocaia anotando e fotografando quem entrava e saía do ambiente. Em poucas horas, tudo seria reportado à Babemco. 

Na sala da Prime Security, Capeto jogou as fotos sobre a mesa. Ele conseguiu identificar Logan, Jade e Helena Melo como os principais autores de invadir o sistema da empresa. 

Babemco observava as fotos com um sorriso cínico no rosto. 

—  Logan Hunter! Quem diria! Eu achando que ele estava preso. Mas, não, agora temos mais um na lista. O que esse cara acha que está fazendo? E, o que essas duas imbecis acham que estão fazendo com esse lunático — disse Babemco se referindo à Helena e a Jade. 

— Parece a liga da justiça lutando contra o mal — brincou Capeto. 

— A questão é que eu não sou o mal. Eu construo o mal. Eu manipulo o mal com minhas mãos, mas não me confundo com ele. Eles pensam que estão lutando, quando na verdade não tem ninguém na arena para lutar. 

— O que você tem em mente? — questiona Capeto. 

Babemco sorri para o seu capanga. 

— Eu tenho algo em mente, sim. Algo grandioso! 

Dentro do Hangar, Jade acompanha Brutus e Marcelo trabalharem juntos para invadir o sistema da Prime. As coisas agora estão fluindo e eles estão conseguindo quebrar todos os códigos de defesa. 

Salomé, a esposa de Logan, se aproxima de Jade e diz: — Você foi incrível ajudando a libertar o Marcelo. 

Jade encara a mulher. — Eu fiz o que era necessário. Você tem filhos? 

— Sempre quis ter, mas o Logan não quer. Ele fala que essa não é a vocação dele. 

— Entendo! Eu faço tudo isso pelo meu filho. É o instinto de mãe que fala mais alto. 

Jade observa uma mancha roxa no antebraço de Salomé. 

— Se você precisar de ajuda, é só falar… — Jade diz, focando no braço machucado da mulher. 

Salomé tenta esconder o braço embaixo do seu casaco. — Eu tô bem — ela disfarça, se afastando. 

Logan se aproxima com uma garrafa de champanhe. 

— Vamos fazer um brinde e agradecer à nossa mais nova integrante, Jade!  

Todos levantam e aplaudem a mulher. Jade sorri com tudo aquilo. 

Enquanto isso, no Café Status, Yeda continua conversando com o policial Borges, que agora põe um envelope sobre a mesa e pede que a delegada abra. 

— O que tem aí dentro? — questiona Yeda. 

— Algumas fotos que eu tirei do seu pai com o capanga do Babemco, um tal de Capeto.  

Yeda retira as fotografias e confirma o que o policial afirmou. Borges estranha por não ver nenhuma surpresa na expressão da delegada. 

— Você conhece? — questiona o policial. 

— Ele é suspeito de assassinar uma senhora dona de uma pousada em Monte Verde. Vimos imagens dele carregando o corpo da Jade, também — ela afirma à respeito de Capeto.

— Então você acredita em mim agora? 

— O que eu sei é que o meu pai tem contato com um criminoso. Isso ainda não me diz muita coisa, mas com certeza, é algo suspeito. Eu vou investigar. 

— Eu segui esse tal de Capeto até um bar que fica no porto. Talvez você consiga descobrir mais sobre ele lá. 

— Me passa o endereço — pede a delegada ainda mais determinada. 

O carro de Bruno estaciona diante do Hangar. Jade o recebe prontamente. O advogado segue a mulher pelo ambiente estranhando toda a situação. Ele observa os computadores, vários jovens totalmente submersos nas telas e uma euforia que toma conta de todo o lugar. 

— Eu espero não me arrepender de saber o que está acontecendo aqui — afirma Bruno. 

— Bem, Bruno, eu preciso ser sincera com você. O que estamos fazendo não é algo…aprovado pela sociedade — revela Jade.

— Ok! Continue. 

Jade se aproxima de Logan e o apresenta ao advogado. 

— O Logan foi um dos fundadores da Prime, mas o Babemco o traiu e o retirou da sociedade. Agora, Logan pretende invadir a Prime e retomar o que é seu — explica Jade. 

— E como isso vai te ajudar? — pergunta Bruno para Jade. 

— Eu o ajudei convencendo minha sogra a liberar o acesso. E, acabei ajudando o Marcelo, um dos nossos melhores hackers, a sair da prisão. Quando tivermos a Prime, vamos exigir que o Babemco devolva meu filho. 

— Você fala como se fosse um deles — observa Bruno. 

— Mas ela é uma de nós! — afirma Logan. 

Jade sorri, sentindo que de fato faz parte da equipe. 

— Bem, eu preciso dizer que isso é um crime sim. Se o Babemco descobrir os autores, ele pode denunciar vocês e todos acabam atrás das grades. 

— Nós temos dispositivos anti rastros. É muito difícil chegar até nós — garante Logan. 

— Não existe outro meio de atingir o Babemco. Nós tentamos de tudo, você sabe. O que me resta agora é pegar o que ele tem e negociar o resgate do Cícero — diz Jade. 

— Eu não aprovo nada do que vocês estão fazendo aqui, mas, como eu sou seu advogado, tenho que manter o sigilo profissional. Mas, o meu conselho é que você saia de tudo isso e vamos tentar resgatar o Cícero por meios legais. 

— Sua esperança é louvável, mas, não vai ser possível. Eu já cheguei até aqui e agora não posso mais retornar. O que eu mais quero é atingir o Babemco de alguma forma e fazer com que ele sinta um pouco da dor que me causou. Só a prisão não é suficiente. Ele precisa perder. Ele precisa sofrer. 

Yeda entrou no bar e foi recebida com uma lufada de ar com cheiro de urina e cerveja. O ambiente era pesado, feio e obscuro. Homens carrancudos, escondidos na penumbra, sentavam-se ao redor de mesas cobertas de cigarro e bebida barata. A delegada se sentou próxima a um balcão de madeira antiga e pediu uma água com gás. O balconista era um homem gordo e com cara de sapo. Ele carregava uma toalha encardida ao redor do pescoço e sua testa era coberta de verrugas.  

Yeda até abriu a tampa da garrafa, mas não conseguiu tomar a água. Ela observou quando um homem magro saiu do banheiro, que ficava nos fundos, e veio reclamar com o balconista. 

— A merda do vaso entupiu de novo! — avisou o magricela. 

O balconista com cara de tédio, entrou na cozinha, e logo em seguida saiu carregando um desentupidor de vaso. Yeda percebeu a oportunidade e levantou-se, seguindo o homem. 

Ela o aguardou entrar para segui-lo e trancar a porta atrás de si. O homem tomou um susto quando viu a delegada ali. Ela com muita calma, sacou uma arma de brinquedo e apontou em direção a ele.  

— O que é isso, moça? — questionou o balconista, levantando as duas mãos em rendição. 

— Toma essas fotos — ela entregou o envelope nas mãos do homem. — Me diz quem é esse cara e onde eu encontro ele? 

— Eu não sei de nada, moça! 

— Eu não tenho muito tempo, amigo. Se tu quiser sair daqui sem tomar uma bala nas fuças, me diz quem é o velhote da foto! 

O balconista tomou as fotos em suas mãos e tremendo observou as imagens. 

— Eu não sei! 

Yeda encostou a ponta da arma na testa dele. — Fala logo onde eu encontro o velhote? 

— Se abrir minha boca e falar onde ele mora, amanhã eu sou um homem morto. 

— Se você não me disser onde eu encontro ele, você vai morrer agora mesmo — ameaçou a delegada. 

O balconista parecia estar em um grande sofrimento. 

— Rua vinte e nove, a última casa da rua. Uma casa com fachada amarela. Eu não lembro o número — desembucha. 

Yeda empurrou o homem e destrancou a porta. — Eu sei onde te encontrar. Espero que não esteja blefando. 

Ela deixou o ambiente e o balconista deslizou pela parede sentando no chão. Ele estava em pânico. 

 Capeto estacionou seu carro a duas quadras do Hangar. Tirou uma bolsa de viagem do porta-malas e caminhou em direção ao lugar. Enquanto observava o perímetro o homem fumava um cigarro e percebeu que todas as câmeras ali, eram da Prime Security. 

Capeto precisava ser rápido. Ele queria aproveitar o pôr do sol e os últimos raios de luz para fazer o serviço. Começou pelos fundos do lugar. Retirou uma dinamite e conseguiu acoplar por dentro do prédio, em uma parede de metal. Colocou mais dois explosivos na parte de trás cobrindo a área dos fundos. Observou que do lado tinham algumas janelas de vidro, porém eram altas e ele não seria visto. Pôs mais alguns artefatos de um lado e do outro. 

Avistou uma escada enferrujada que dava no teto e subiu por ela. Lá em cima, espalhou mais três dinamites todas unidas por um relógio digital e ligadas à um detonador. Detonador este que estava guardado no bolso de Capeto. 

Enquanto o homem descia a escada tranquilamente entre as sombras da noite, Yeda, do interior do seu carro, observava todo o movimento. Ela não conseguia acreditar no que estava testemunhando. 

“Preciso de reforços. Esse cara com certeza tá armado”, pensou a delegada. 

Porém, ela não tinha como pedir reforços. Sua licença foi suspensa, sua arma e distintivo apreendidos. Ela estava por conta própria. Precisava da ajuda de alguém para enfrentar Capeto. 

Ela pegou o celular e fez uma ligação. 

— Licurgo, onde você tá?  

— Tô organizando minha mala. Eu te disse que ia voltar pra fazenda. 

— Preciso da sua ajuda. É uma emergência. Pega um uber e vem pra cá. Vou te passar o endereço! — disse Yeda projetando urgência na voz. 

— O que tá acontecendo, Yeda? 

— Quando você chegar me dá um toque. Preciso que venha, agora! 

Yeda não podia perder Capeto de vista. Saiu do carro e foi em direção ao Hangar. 

No interior do Hangar, Bruno conversava com Jade sobre tudo o que ele havia descoberto. Ela tentava convencê-lo de que as coisas iriam dar certo e que Logan e sua equipe conseguiriam tomar a Prime. 

— Quando nós tivermos algo concreto contra o Babemco, você vai me dar razão — disse Jade para o advogado. 

— Não sei se vale a pena. É muito arriscado. 

Logan, Brutus e Marcelo comemoravam. A tela do computador mostrava uma barra com 80% de login concluído.  

— A Prime é nossa! — gritava Brutus, em êxtase. 

Mal sabiam eles do risco que estavam correndo. 

Capeto se ajoelhou para recolher alguns fios que havia retirado, mas, foi surpreendido pela delegada Yeda que apontava um trinta e oito na sua nuca.

— Levanta as mãos para cima e põe atrás da cabeça, bem devagar — ordenou Yeda, com uma voz firme. 

O homem foi se levantando devagar, mas suas mãos continuavam inertes próximas ao corpo. 

— A senhorita tem algo contra mim? — perguntou Capeto. 

— Cala a boca e faz o que eu tô mandando! 

— Acho que você está me confundindo. 

— Não, eu sei bem quem você é e vi o que você fez aqui. 

— Não é sobre isso que eu estou falando. 

— Vamo velhote, mãos na cabeça, agora — ela ordenou encostando ainda mais o cano da arma na nuca de Capeto. 

— Em toda minha carreira na polícia eu fui treinado para reconhecer um instrumento. Nós, avaliávamos o peso, o material e a capacidade de cada arma. — ele disse virando-se de frente para a delegada. — E, eu sei reconhecer muito bem o peso de uma arma de verdade e de um simulacro. É por isso que eu sei que esse negócio que você tá apontando para mim, nunca foi e nunca será uma arma de verdade. 

Os olhos de Yeda quase saltaram das órbitas quando ela percebeu que o homem sabia que ela estava desarmada. 

Capeto com muita agilidade, segurou o punho da delegada e torcendo o braço dela, a desarmou. Em seguida, empurrou-a contra uma grade de metal, sacou sua arma e deu uma coronhada na fronte da delegada. Yeda caiu desacordada. 

O homem deixou o local às pressas. 

Capeto entrou em seu carro e sentou no banco do motorista. Ele fez questão de limpar algumas casas de aranha grudadas em sua calça preta. Olhou ao longe o Hangar iluminado. A lua era testemunha quando o capanga de Babemco retirou o detonador e segurou-o em sua mão direita. Ele olhou o relógio e esperou dar dezoito horas. Faltavam apenas trinta segundos. Seus dedos roçaram o botão vermelho. Ele sorriu satisfeito. 

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