circulo
Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin

 

Custódio sentado ao lado da mesa, cabisbaixo conversa com Afonso. — Isso vai acabar me enlouquecendo se eu não colocar para fora. Assumir minha culpa de vez. — Ele olha o pai e depois Noemi. — Roberto morreu por minha culpa. Ouvi ele me chamando, gritando meu nome, me pedindo para abrir a porta. Os gritos dele não sai da minha cabeça. Tenho pesadelos quase todas as noites. E na minha casa é pior. Chego ouvir as batidas dele na porta, todas as vezes que chego lá.

Afonso e Noemi entreolham. Ele fica de pé e sai dizendo: — Vou dar um telefonema e já volto.

Noemi pega a mão do filho, apoiada em cima da mesa. — Você não tem culpa de nada. Era hora do seu irmão. Como era hora da sua mulher e depois da sua irmã.

Custódio — Eu fiz o que pude para salvar a vida da minha mulher, de Estela então, nem se fala. E a morte das duas ficou apenas um vazio, mas quanto ao Roberto o remorso está me consumindo, como se eu tivesse uma dívida com ele. Não sei explicar.

Afonso retorna.

Custódio levanta — Estou indo pra casa, sei que vocês costumam dormir cedo e estou aqui atrapalhando. Nada que eu continue falando vai mudar o que aconteceu.

Afonso — Senta ai, rapaz. Foi muita coragem sua vir aqui e justificar o que aconteceu com o Roberto. Tem uma pessoa que pode lhe provar que você está se martirizando por algo que não aconteceu, não dá maneira que está imaginando. Eu e sua mãe já sabemos o que realmente aconteceu naquela noite. Nunca falei nesse assunto antes, com você, devido o que aconteceu com a sua finada e não em relação ao Roberto.

Custódio — Que pessoa? O que está falando?

Afonso — Você já vai saber, ele estava com o Roberto minutos antes da morte dele.

Noemi — Quanto isso, vou preparar um café.

Noemi não demora servi-los.

Dudu entra. Fica surpreso vendo Custódio, e fala com o pai. — Por que não me falou que Custódio estava aqui na hora que me ligou, pedindo que eu viesse?

Afonso sorri — Pra gente não ficar conversando pelo telefone e você não demorar vir. — vira-se para Custódio — Eduardo estava com o Roberto naquele dia. Os dois que arrobaram a porta da sua casa. — e pede para Dudu — Conta para o Custódio o que aconteceu naquele dia. Ele está se sentindo culpado pela morte do Roberto.

Dudu senta ao lado da mãe que também lhe serve um café. — Como assim?

Custódio — Eu ouvi o Beto me chamando, várias vezes.

Dudu — Sim! Antes da gente arrebentar a sua porta, o Beto tentou convence você abri-la. Chegou a dizer que tinha encontrado Raquel. Que o destino, a vida havia pregado uma peça em vocês dois, que se apaixonaram pela mesma mulher.

Ele toma um gole do café antes de prosseguir. Custódio o olhava boquiaberto: — Encontrei o Beto na frente da casa do pai. Ele tinha acabado de saber da morte da Giza. Ficou muito abalado. Disse que ia convencer você sair de dentro da sua casa. Ia fazer isso pelo nosso pai, que estava muito aborrecido pelo seu comportamento, de se trancar na sua casa, sem querer ver ninguém. Quando chegamos lá, ele gritou mesmo, como eu disse, várias vezes, e sem resposta sua arrobamos a porta e você estava totalmente bêbado. Beto, então, resolveu ir para Goiás convencer Raquel voltar pra você. Saímos juntos de lá, eu deixei o Beto na estação e fui pra casa.

Custódio — Ele foi encontrado morto perto do hospital.

Dudu — Enquanto, estamos indo para a estação Beto me perguntou se por acaso eu sabia do paradeiro da Estela, eu falei que ela estava trabalhando no hospital, e que também morava lá perto. O Beto deve ter mudado de ideia e resolveu procurá-la e o pior aconteceu, como já sabemos. A vida, as vezes, nos prega surpresas e não conhecemos os propósitos de Deus. Ele permitiu a morte do Beto e também de Estela. Lembro-me ela dizendo, no dia do meu casamento que Roberto lhe fazia muita falta. Quero acreditar que vão se encontrar novamente em algum lugar.

Custódio — A única lembrança que mantenho vivo em minha memória é Estela me dizendo que veio para São Paulo procurar o pai e o irmão, e eu encontrando a foto do meu pai, junto as coisas dela, e simplesmente indo embora depois, sem me dar a certeza ser minha irmão ou não.

Dudu — Por que não começa se olhar para si mesmo? Sem deixar a dor ultrapassar a sua alma, assim, um dia encontrará a resposta.

Custódio — Você está certo. Os fantasmas só existem dentro da minha cabeça. Eu jurava ser culpa minha a morte do Roberto, e, no entanto… — levanta — Estou indo pra minha casa, é lá que devo enfrentar os fantasmas. — e se despede indo embora.

Dudu e Afonso ficam pensativos.

Afonso — Não estamos fazendo mal esconder dele a respeito de Raquel e das crianças?

Dudu aponta os pais — Vocês dois que lembram do Roberto quando era pequeno, disse o menino ser muito parecido com ele, quando eu os levei lá para conhecerem as crianças. Então, quem garante que Raquel não está mentindo, e as crianças são filhos do Roberto e não do Custódio. Simplesmente vamos dar a ele uma esperança que pode não ser real. Logo essas crianças vão querer saber quem é o pai e Raquel talvez esteja querendo dar um pai vivo para os filhos dela, quando chegar essa hora. Vai ser a palavra dela contra o que o Custódio vai pensar ou não. E somente ele que vai aceita-los como filhos ou não.

Afonso — Lembro perfeitamente bem a fisionomia do Roberto quando era pequeno e não consigo mentir, eu vejo o Roberto no menino sim.

Noemi — Eu também. Na hora que vi aquele menino, falei comigo mesmo, ele é filho do Roberto. Ele é meu neto de sangue.

Dudu — Quanto a mim, prefiro deixar Raquel acreditar que não sabemos disso. — balança a cabeça — Não! Aquele menino é um desavio que Custódio irá enfrentar, da mesma maneira que ele enfrenta a irmandade com Estela.

Afonso — Se explique melhor?

Dudu — Isso que me passou pela cabeça agora que o menino é o filho que Custódio aceitou como seu, para punir Raquel?

Noemi — Do que está falando, filho?

Dudu – Que estou indo para casa, já está tarde. Amanhã é um novo dia. — Beija Noemi — Boa noite, mãe. Até mais ver pai. — e vai embora. Chegando em casa, pega os manuscritos, e observa. Pega uma folha em branco e começa escrever com ponta tinteiro.

Custódio de volta em casa, abre uma garrafa de vinho e toma no gargalho, depois abre outra, e se pergunta: — Por que? Por que meu destino foi assim? Onde está a resposta de uma pergunta que não se cala?

Ele olha ao redores observando a sala escura. Toma o vinho e embriagado vai para o quarto, tira a camisa e se deixa cair na cama.

Ezequiel, ali, o observa. Uma grande tela se abre, em sonhos, custódio retorna ao passado. Ele se vê numa rua, com Luiz. — Estou procurando Margaret, amiga de sua irmã.

Custódio — Ela aparece aqui aos domingos depois do almoço. Deve estar na casa dos pais, nesse momento.

Luiz agradece, puxa as rédeas do cavalo e sai.

Custódio também conduz o seu, e deixa-o no estábulo. Entra pela porta da cozinha, para surpreso vendo Margaret com Estela e Raquel jantando.

Estela para o irmão. — Que surpresa é essa de aparecer a está hora em casa? — ri — Com certeza vai cair uma grande tempestade.

Custódio, sério, fixa Margaret, depois Raquel, cabisbaixa. Estela lhe fala. — Minha amiga vai morar aqui agora. Ela precisa de um lugar para ficar.

Custódio — Posso saber por quê?

Estela se refere a amiga. — A Ma está grávida, vai ter um filho do namorado. O pai dela a colocou para fora de casa. Como ela não tinha para onde ir veio me procurar.

Custódio volta olhar Raquel, que permanece cabisbaixa, comia em silêncio. Disfarçadamente ele pega um copo e despeja suco, do jarro encima da mesa, pergunta para a moça. — E o pai do seu filho? Ele sabe que está grávida?

Margaret, envergonha. — Creio que ele vem me procurar. Que ainda vai me levar para a casa da avó dele, e lá, vou poder esperá-lo até se formar na Europa, como quer o pai dele.

Custódio — E se ele não vier lhe procurar?

Margaret nada responde, apenas seca as lágrimas que escorrem pelo rosto.

Custódio ainda observa Raquel, sem se manifestar, sorri falando com Margaret. — Por mim, pode morar aqui o tempo que precisar. Vou adorar ver uma criança correndo, gritando dentro desta casa. Uma casa tão grande e vazia. Tem muito espaço para criar o seu filho aqui dentro. Melhor ninguém saber onde está morando. Não quero minha casa vista como ponto de má reputação. Creio que entende o que falo. E se acredita que o pai do seu filho vem lhe procurar, deixe que a procure pela cidade. Se isso acontecer, ficarei sabendo. Aviso ele que você está aqui. — Vira-se para a irmã. — O que me diz disso?

Estela — Meu irmão está certo, Ma! Melhor ninguém saber que você está aqui. Não vai ficar bem! — pega-a na mão — Bom, minha amiga, pelo menos você não precisa mais se preocupar com moradia.

Margaret — Não sei como agradecer todos por me aceitarem aqui. — olha Raquel cabisbaixa. — Você ainda não disse nada, Raquel. Claro que eu também gostaria de ouvir a sua opinião. Não quero atrapalhar a vida de ninguém.

Raquel a encara por segundos, levanta, pega o prato e joga o alimento que sobrou no lixo. Todos esperam a reação dela. Raquel suspira, antes de dar lhe a sua opinião. — Fico feliz pelo seu bebê, e nem precisava perguntar a minha opinião, não vou colocá-la para fora desta casa, caso o pai do seu filho não venha lhe procurar. — da pausa, e acrescenta com tristeza no olhar. — Eu tenho marido e não sei se um dia darei a ele um filho. Você vai ter um filho e não sabe se um dia terá o pai dele como esposo. Como é a vida, não é? Perfeita, mas não como desejamos. Faço votos que o pai do seu filho tenha por você um amor maior, e que seja incapaz de abrir mão da felicidade que possam viver juntos. Um sentimento múltiplo vale todos os sacrifícios do mundo, e nem mesmo a pior desgraça consegue destruir um amor quando é puro e verdadeiro. — pede licença e sai.

Estela bate palmas — Raquel sabe falar bonito quando abre a boca. Meu irmão, você deveria dar valor na esposa que tem. Que desgraça é essa que não segue destruir o amor que Raquel tem por você? Uma desgraça que não permite vocês dois serem felizes?

Custódio — Pergunte a ela?

Estela — Já perguntei um milhão de vezes. Raquel não tem coragem de se abrir comigo. Quem sabe você possa me dizer, e eu posso ajudar os dois.

Custódio — O que você faria para destruir uma desgraça?

Estela — Fazendo outra maior, assim a desgraça menor perde o valor! — balança a mão. — Não! Não! Não daria certo. Chegaria um dia onde o bem jamais iria prevalecer… — mexe os ombros — Não sei o que poderia fazer para ajudá-los! Desgraça não tem fim.

Custódio — Exatamente onde chegou a desgraça que Raquel falou. Uma desgraça que nunca terá fim! Raquel não consegue esquecer o que fiz, e eu também não.

Estela — Eu não acredito que uma mal pode ser maior que o amor entre duas pessoas que se amam de verdade.

Custódio mira Margaret, que em silêncio ouvia a conversa. — Responde você a pergunta da minha irmã? Ou será que não pensou ainda, que a sua situação poderia ser pior pelo que está acontecendo com você?

Margaret — Não sei onde estaria nesse momento. Talvez morando na rua se não me aceitasse aqui.

Custódio pega outra vez suco, com os olhos vibrados em direção a moça. Disfarça saboreando a bebida, e depois diz: — Aqui dentro não vai lhe faltar nada. Nem a você nem ao seu filho. Na hora em que eu souber que o pai do seu filho lhe procura, eu aviso ele que você está aqui! — mostra o prato dela, com alimentos. — Termine seu jantar. Tem que comer por dois. E o cheiro está muito bom. Qual das duas preparou o jantar?

Estela aponta o talher, com alimento, em direção ao irmão — Picadinho de carne! Quer comer um pouco? Está uma delícia! Como dizia papai, quando aprovava uma boa cozinheira. Está supinpo! — Levanta, sem esperar a resposta. — Senta, eu sirvo você. Vai saborear, porque está mesmo delicioso. — Pega um prato na prateleira e serve arroz, feijão e picadinhos de carne, e coloca-o na frente do irmão, ainda de pé. Ela volta ao lugar e vendo o irmão parado, olhando o alimento. — Mudou de ideia? Não vai comer? Está uma delícia. Tenho certeza que vai adorar, e olha lá se não repetir. — e fala com Margaret, se referindo ao irmão. — Custódio vivia implicando com as cozinheiras. A primeira coisa que ele fez depois que papai morreu foi fechar as portas do restaurante por não tolerar más cozinheiras. Meu pai batalhou anos e anos para mantê-lo aberto. Minha mãe ficou muito magoada quando ele fez isso. Ela sempre segurava a barra, na cozinha, quando faltava boa cozinheira, tanto que preferiu voltar a morar no sitio que era do meu avô, onde ela e o pai se conheceram, em vez de vir morar em São Paulo.

Custódio senta ao redor da mesa e degusta o arroz vagarosamente, e depois o picadinho, fala com a irmã. — Não foi você quem fez o jantar. Conheço o que prepara. Se cozinhasse assim, eu não teria fechado o restaurante e nós dois daria muito bem como sócios. Eu não ia precisar ficar procurando boa cozinheira, cada vez que faltava uma, como nosso pai fazia, quando queria poupar a nossa mãe do serviço.

Estela alegre — Está igualzinho o que a nossa mãe preparava, não está? Parece que foi ela que apareceu aqui e fez o jantar. — balança o ombro, outra vez — Vai ver foi! Lembro-me dela uma vez me dizendo: Uma mulher segura o seu homem pela boca, basta descobrir o segredo do tempero que o agrade.

Custódio — Nunca mais comi um picadinho de carne, igual ao que nossa mãe fazia. Pelo jeito você descobriu o segredo dela. Ou, será que já colocou a sua amiga na cozinha para cozinhar. Sei que ela veio para cá ontem à noite.

Estela fica intrigada. — Espere, aí? Você não aparece aqui faz dois meses. Quem o avisou que minha amiga chegou aqui no meio da noite? — Custódio nada responde, leva alimento na boca, comendo sem pressa. Estela completa: — Tião! Você deu ordens para o seu escravo lhe dizer tudo o que acontece aqui dentro. Principalmente quem entra e sai.

Custódio leva na brincadeira. — Você é muita esperta irmãzinha. Estou feliz pela sua inteligência, e prepare sempre uma refeição como esta que venho almoçar e jantar todos os dias em casa. Combinado?

Estela — Você deveria colocar o seu escravo no troco, e cobrar um pouco mais as informações por tudo o que realmente acontece dentro desta casa?

Custódio intrigado — Como assim?

Estela — Tenho pena de Raquel! Se um dia ela pisar em falso, você será capaz de matá-la. Um homem como você colocando um escravo para vigiar a esposa vinte quatros horas, não confia em si próprio.

Custódio — Você está querendo que eu perca o apetite?

Estela ri — Não maninho, claro que não! Quer mais um pouquinho? E um outro dia mesmo, Raquel me falou uma coisa, e vejo agora que ela está certa.

Custódio — O que lhe falou, Raquel?

Estela — Quando eu cheguei nesta casa, achei estranho o comportamento dela. Bom, até hoje ela não conversa muito comigo. Na semana passada ela chorou dois dias, depois que os pais dela saíram novamente em viagem, dizendo que a filha estava bem casada e o genro passaria a cuidar dos negócios no lugar dele.

Custódio — O que têm isso? E depois o que é dele é dele. O que é meu é meu, sem misturar os negócios, enquanto ele estiver vivo.

Estela — Um rei só abandona o trono quando tem certeza que não vai perder o reinado, caso, um dia ele retorne, e Raquel sabe que foi você quem convenceu o pai dela a fazer isso.

Custódio — De onde ela tirou essa ideia maluca?

Estela — Quando eu cheguei aqui, vendo Raquel fazer todo o serviço de casa, perguntei porque ela não tinha uma escrava para ajudá-la, pelo menos na limpeza, e sabe o que ela me respondeu?

Custódio — Não faço a menor ideia.

Estela — Que ela não se importava de fazer o serviço doméstico, assim, o ajudava a se ocupar, principalmente a cabeça. Enquanto tinha algo para fazer não ficava pensando em bobagens. Achei isso normal, porque a mamãe também fazia isso, e com muito gosto. Dizia que tinha prazer em cuidar do que era dela, principalmente trabalhar no restaurante, para ficar bem pertinho do papai.

Custódio levanta — Terminei o meu jantar. Estava mesmo uma delícia.

Estela — Foi Raquel quem preparou o jantar!

Custódio volta, e fica paralisado.

Estela gargalha — Por que ficou tão surpreso, mano? Seu escravo nunca lhe disse que Raquel se tornou uma excelente cozinheira? Eu fiquei sabendo que você mandou a Mafalda, a escrava que trabalhava aqui, trabalhar na fábrica, colocando Raquel no lugar dela. E não foi Raquel quem me contou não, foi o Tião. Então, eu lhe pergunto: Será que você não consegue perceber que está perdendo Raquel cada vez mais, fazendo da maneira que faz? Não é afastando os pais de Raquel que você vai…

Custódio — Não se meta na minha vida com Raquel, eu já lhe pedi isso antes!

Estela — Meu Deus! Você está tão cego que não percebeu o que fez, quando afastou os pais de Raquel, mais uma vez de perto dela, para que eles não vejam o que você está fazendo com a filha deles. Eu até sugeri, que invés de ficar trancada no quarto chorando, Raquel fosse atrás dos pais. Que fosse com eles para bem longe daqui, e nunca mais lhe mandasse notícias, e provavelmente você não se importaria. Mas, hoje, vi com meus próprios olhos que Raquel estava certa, quando me disse, que no dia em que você saboreasse um prato feito por ela, sem ela lhe oferecer, estava certa no que estava fazendo, querendo lhe mostrar, do jeito dela, que pode ser muito mais que uma mulher na sua cama.

Custódio fuzila a irmã com ódio.

Estela — Como a vida é surpreendente, não é meu irmão? Pena que Raquel não viu você lamber os lábios com o que ela preparou. — vira-se para Margaret — Desde o dia em que vim morar nesta casa é a primeira vez que meu irmão faz uma refeição aqui. O Tião me contou da primeira refeição que Raquel preparou, nem mesmo ela conseguiu comer. — E se refere ao irmão, que seriamente olha as duas moças. — O Tião devia ter lhe contado que foi ele quem ensinou Raquel a cozinhar. Que ficou ao lado dela, até que aprendesse as medidas certas. Se você pensava em se casar com uma mulher prendada, deveria ter se casado com uma que já soubesse a cozinhar, ou, como cresceu dentro da cozinha de um restaurante e têm o paladar refinado, deveria ter ensinado Raquel, em vez de cuspir no prato que comeu. A única coisa que ainda não entendo, muito mais depois que conheci os pais de Raquel, é saber da fortuna que eles têm, onde a filha nem se quer pegava um copo de água pra beber, aceitou

Custódio aponta a irmã, sem esperar ela terminar a conversa — Não interfira no que você não sabe. E foi bom, você me dizer que o Tião ensinou Raquel a cozinhar. Que ficou o tempo todo ao lado dela, para que aprendesse as medidas certas. Vou dar um bom castigo a ele.

Estela gargalha — Espere, aí? Você ficou com ciúmes do Tião?

Custódio rapidamente sai, na sala ele para pensativo. Rapidamente abre a porta da frente, entra no quartinho onde Tião come, sentado na ponta da cama. O escravo fica de pé, surpreso vendo-o ali. — Pega suas coisas, e vá lá para fábrica, até eu resolver o que vou fazer com você.

Tião nada entende: — Fiz alguma coisa errada, patrão?

Custódio — Faça o que estou lhe mandando. Você tem cinco minutos pra sumir daqui. — e sai.

No outro dia. Tião algemado, sente tristeza. — Porque o patrão está fazendo isso comigo? O que fiz de errado? Eu mereço uma explicação.

Custódio — Pedi que ficasse de olho em Raquel, e não do lado dela, na beira do fogão, ensinado a cozinhar.

Tião — O patrão me perdoa se fiz errado, mas eu fiz o que a madame me pediu.

Custódio — Paguei comida, muitos dias a você, e se eu soubesse que estava ensinando Raquel, teria deixado morrer de fome, ou comer aquele grude que ela preparava.

Tião seca o rosto molhado de lágrimas, com as costas das mãos, ergue a cabeça e fala com firmeza: — Eu nunca vou me arrepender pelo que fiz. Porque não fiz nada errado! O dia que a madame precisar da minha ajuda de novo, vou ficar do lado dela, e ajudar de novo no que for preciso.

Custódio se dirige aos compradores de escravos — Tire esse negro daqui! Leve-o para bem longe, e que ele nunca mais apareça na minha frente.

Tião — O patrão está me dispensando porque está se remoendo de ciúmes da madame comigo.

Mafalda chega correndo e entra na frente dele, impedindo de ser levado. — Tião, pelo amor de Deus pra onde estão levando você?

Tião — O mau desentendimento do patrão com a mulher dele acabou sobrando pra nós dois, Mafalda!

Comprador puxa Mafalda — Saí da frente, negra, deixa a gente sair?

Tião, sendo puxado, ainda fala com ela. — Cuida bem do nosso bichinho Mafalda, eu volto buscar vocês dois um dia, não sei como, mas eu volto.

Mafalda, em prantos, fala com Custódio. — Porque o patrão fez isso com Tião? Porque está fazendo isso comigo? Eu to esperando um filho dele. Minha criança poderá nunca conhecer o pai, não ser que o senhor me deixa ir junto do Tião.

Custódio — Pelo filho dele, que você disse que está esperando, vou lhe dar duas opções, para escolher uma. Você continua trabalhando na fábrica até o meu filho com Adalgisa nascer, depois, eu a levo para cuidar da criança, onde vai poder cuidar do seu filho também, ou, faço com você o mesmo que eu acabei de fazer com Tião. Troco você por outra, e vai correr o risco de não ir para o mesmo lugar que ele, você sabe disso.

Em lágrimas Mafalda se defende: — Eu e Tião não temos nada a ver com o problema do patrão com a madame.

Custódio — Você não. Por isso estou lhe dando opções de escolha. O Tião me desobedeceu e odeio quando me desobedecem, então, não pense em fugir daqui para ir atrás dele, porque se fizer isso, poderá ter uma vida pior a que estou lhe oferecendo. Agora volte ao trabalho.

Mafalda sai passando por Roberto Lacerda, chegando. — O que aconteceu? Porque vendeu o seu escravo?

Custódio — Tião foi o primeiro que tirei do meu caminho. O segundo quem sabe seja você, por ser o responsável pela destruição do meu casamento, quando também colocou aquela outra no meu caminho.

Roberto — Por acaso eu lhe pedi para viver com Adalgisa debaixo do mesmo teto? Foi a partir daí que piorou a sua vida com Raquel. Então, não venha culpar a mim e muito menos descontar sua ira em qualquer outro que aparecer na sua frente. Em nenhum momento, desejei que você se desentendesse com Raquel. Deus sabe que estou falando a verdade. Tanto que se eu pudesse, daria minha vida em troca da sua felicidade com Raquel. Juro a Deus que daria! Isso é para você ver o quanto estou dizendo a verdade.

Custódio o encara seriamente. — Sabe por que está dizendo isso? Porque sabe que é uma coisa impossível. Meu pai se ouvisse você dizer isso, mesmo por brincadeira lhe diria: sua vida é preciosa demais para ser trocada por alguma coisa. Nunca a coloque em risco. Os anjos podem dizer amém.

Roberto Lacerda ri — Não acredito nessas bobagens. Nunca precisei socorrer a esse tipo de ajuda celestial. E como disse, a vida é preciosa e curta, então, o que devemos fazer além de aproveitar os momentos bons que a vida oferece, porque a morte é o fim de tudo.

Custódio — Eu queria acreditar ser a morte é o fim de tudo.

Roberto Lacerda — Você está com raiva só de mim e do Tião ou do mundo inteiro?

Custódio — Sabe qual o nome do meu filho com Adalgisa? Roberto Lacerda.

Roberto — Não sei por que vai dar o meu nome ao seu filho, se vive me culpando pela sua vida errada com a mulher que ama. E depois, poderá ser uma menina. Já pensou nisso?

Custódio — Escolhi o nome dela também. Vai ser o da mãe, assim, todas as vezes que eu olhar para a criança, vou lembrar de você ou dela, o resto da minha vida. E vou responder agora a pergunta que me fez a respeito do Tião. E mato qualquer homem que se aproximar de Raquel.

Roberto — Você mandou matar… Não!!! Você não fez isso!

Custódio — Adalgisa levou meses para engravidar e — Faz um gesto com as mãos, enquanto pega alguns documentos na mesa. — Que bobagem estou dizendo. Estou começando ficar maluco. Raquel não seria louca de me trair com outro homem.

Roberto — Muito menos lhe trairia com um escravo.

Custódio que ameaça deixar a sala volta — Porque me respondeu isso?

Roberto — No dia que pensar em me matar, lembra que me disse que coloquei duas mulheres lindas na sua vida, e que poderia acabar no inferno por causa delas? Que Adalgisa era a diaba pior? — rindo completa, em deboche. — O diabo enganou você que já está atolado dentro do inferno, mandando matar um escravo por ciúmes de Raquel. Da para ver o quanto seus olhos estão bufando de ódio. — levanta as mãos para cima. — Vou começar tomar cuidado, quando me aproximar de Raquel, e se cometi alguma falha, estou começando a me corrigir. Sou seu amigo, e quero a sua amizade sempre.

Custódio — Um amigo tão fiel que seria capaz de dar a vida em troca da minha felicidade com Raquel. Vou me lembrar dessas suas palavras quando eu estiver no inferno e você não estiver lá comigo. Vou buscá-lo onde tiver. Adalgisa e Raquel também, e nós quatros, juntos, vamos continuar cutucando, um ao outro, no meio do fogo.

Roberto Lacerda — Lá você divide metade da sua fortuna comigo? Só metade. Não precisa prometer tudo. — Custódio ri — Viu como sou bom amigo, fiz você rir. — Beija os dedos cruzados — Prometo, que sempre vou ser seu amigo, mesmo quando cutucar um ao outro, no inferno.

Custódio ainda ri — Você não vale nada, como sempre diz o seu pai. — Ameaça sair, retorna — Há, falando em pai, encontrei o senhor Afonso ontem. Ele ficou feliz em saber que você está trabalhando comigo, até me agradeceu, dizendo que eu consegui em um ano o que ele não conseguiu em quarenta.

Roberto muda a feição do rosto, sem mais o sorriso nos lábios. — Bom saber que já nasci dando trabalho ao meu pai. Que filho que não nasce dando trabalho? — volta a sorrir — Deixa o seu nascer e me conta depois. Onde foi que encontro o velho?

Custódio — Eu estava saindo do restaurante onde fui almoçar.

Roberto estranha — Você tem duas casas e agora deu de almoçar em restaurante? Há, lembrei! Seu pai tinha restaurante e você sentiu saudade. — rindo — Do seu pai ou da comida?

Custódio, ao entrar em casa, na cozinha vê Estela lavando verduras, ele se afasta, sem ser visto por ela. No corredor empurra lentamente a porta do quarto de Raquel e estranha vendo a cama vazia. Ameaça sair, mas decidido vai em outra porta, no fundo do quarto. Os olhos ganham brilhos ao ver Raquel relaxar dentro da banheira.

Raquel, olhos fechados não percebe a presença dele. Custódio é despertado por barulhos. Estela abre a porta ao lado, chamando Margaret para o jantar. Custódio, de dentro no quarto, vê as duas passando no corredor. Estela estranha vendo a porta entreaberta. Fica surpresa vendo-o.

Estela — Não acredito que veio jantar em casa. Você não confirmou, então, não avisei Raquel. Acabei de requentar a sobra do almoço. Lembra que a mamãe sempre dizia, nunca devemos jogar alimento no lixo. O que não comemos serve de alimentos aos animais. Tanto que eles tinham um chiqueiro para dar aos porcos o alimento que sobrava do restaurante.

Custódio, em gozação. — Quer que eu faça um chiqueiro no jardim?

Estela — Falando em Jardim, onde foi parar o Tião? Não o vi o dia todo.

Custódio nada responde, vendo Raquel chegar no quarto. Ela usava um roupão. Custódio passa pela irmã — Fiz o que você me pediu.

Estela sai atrás do irmão. — Como assim, o que eu pedi? Não entendi a sua resposta.

Custódio pega uma dose de cachaça, não tem pressa. — Você não me pediu para tomar providências, antes que ele tomasse o meu lugar na cama da minha mulher.

Estela indignada — O que você fez com o Tião???

Custódio — Por que quer saber? Bom, lembro de você também me dizer que o Tião é um negro muito bonito, no entanto, minha irmã, você é livre e desimpedida para ir atrás dele onde ele estiver. Assim, fico livre de você também, e se eu pudesse também a venderia por uma boa grana. Mandaria para bem longe de mim.

Estela inconformada — Eu não acredito que você vendeu o Tião! Eu pedi a você que resolvesse sua vida com Raquel e não dar um sumiço nele. Como pode fazer isso?

Custódio — Eu já disse, você é livre para ir atrás dele.

Estela grita — Eu não estou falando de mim! Estou falando do que você fez. Você vendeu o Tião como se ele fosse um espinho no seu caminho. É fácil resolver quando se têm a vida de uma pessoa nas mãos. Você agiu como se a vida dele não fosse nada. Não foi isso que você aprendeu com o nosso pai. Ele sempre ensinou que a vida, não importa a vida de quem seja, deve sempre estar a cima de qualquer valor e você… – ela se cala vendo Raquel colocar um punhado de joias em cima da mesa.

Raquel se refere a Custódio, sem olhar para ele. — Isso dá e de sobra para pagar a carta de alforria do Tião e da Mafalda. Estou comprando a liberdade dos dois para que possam viver livres onde quiserem, ou, peça a eles que vão morar em uma das fazendas do meu pai. Sei que você é responsável pelos negócios dele. — e na mesma velocidade que chegou sai, voltando para o quarto.

Custódio fica parado, olhando as joias deixadas a mesa.

Estela calma, completa: — Está aí a sua resposta, meu irmão. Ninguém tem tudo o que deseja. Com o gesto de Raquel, acabei de descobrir o que está errado entre vocês dois. Você deve se remoer por dentro, desejando que Raquel fosse filha de um João ninguém, assim, teria ela rastejando em seus pés, como você, talvez, gostaria. Mas eu duvido! Eu duvido que um dia você tenha Raquel em seu poder. Depois desse gesto que ela acabou de fazer, bem provável ela morrer de fome, invés de se entregar aos seus caprichos. Dinheiro ela têm e bastante vindo do pai, a sua fortuna não faz diferença para ela.

Custódio pega as joias e aperta-as entre as mãos. — Isso é o que vamos ver? Um dia, eu a terei em minhas mãos.

Estela — Quero estar viva quando chegar esse dia, meu irmão. Quero que Deus permita eu ver com meus próprios olhos, qual dos dois vão se dar por derrotado. Você ou Raquel. Eu creio que seja você, então faça o que ela lhe pediu. Não a decepcione mais ainda, você só vai perder. E me arrependo de ter aberto minha boca. Eu devia ter perdido a voz, quando falei a você o que não precisava ouvir. O Tião não fez nada demais. Ele não tem nada a ver com seus desentendimentos com Raquel. Quis apenas ajudá-la, da maneira que ele achou correto. Então, seja justo, como Raquel está sendo. — chama Margaret e vão para a cozinha.

Custódio, ainda parado no lugar, fixa intensamente as joias, e as coloca no bolso do casaco.

Naquela mesma noite, invade o quarto de Margaret. Decido convencê-la se tornar sua amante aos olhos de Raquel.

Custódio tapando a boca da moça com as mãos. — Achou que eu aceitaria você dentro da minha casa sem receber algo em troca? Posso adotar o seu filho como meu, se for boazinha comigo, e tudo sair perfeitamente bem entre nós. O que me diz? — e deixa a boca dela livre para que falasse.

Margaret, assustada, e, em prantos, sussurra em pouca voz: — Prefiro a morte que ter outro homem na minha vida que não seja o pai do meu filho.

Custódio aperta a boca dela, com força, e salta para trás, com Estela invadindo o quarto. — O que está acontecendo aqui?

Custódio aponta Margaret — A culpa é dela, disse que eu podia vir aqui no meio da noite.

Margaret em prantos, faz gestos negativos com a cabeça. Estela, enfurecida, junta os pertences da moça. — Você não passa de uma vadia, eu a quero longe da minha casa. — Puxando-a, joga-a para fora da casa, fechando a porta.

Estela em prantos — Raquel, perde-me por aceitar ela dentro de casa.

Raquel, deprimida abaixa os olhos.

Passa por Custódio que encarava a irmã.

Estela — Como você pode ser tão nojento, se colocando a isso no mesmo teto que a sua mulher? Raquel tem razão de agir tão friamente com você, que não presta.

Custódio — Você coloca uma vadia dentro da nossa casa e eu que não presto?

Estela — Pra mim, a partir de agora você também não presta! É tão nojento quanto ela. Sinto vergonha de olhar pra você como meu irmão, com certeza, nosso pai deve estar…

Custódio grita — Cala a boca, Estela! Eu não aguento mais ouvir você falar dos ensinamentos que recebi do nosso pai. Eu não suporto mais ouvir a sua voz! Eu deveria…

Estela sai correndo, passando por ele.

Atenção: A Widcyber tem a autorização do autor para publicar este conteúdo.

cropped-wid-1.png

NAVEGAR

  • >
    error: Este conteúdo é protegido! A cópia deste conteúdo não é autorizada em virtude da preservação de direitos autorais.
    Rolar para o topo