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O Diário de Lucca: Capítulo 11 – A Mentira

Por ainda não ser assumido para a sua família o namoro entre Lucca e Dario estava acontecendo às escondidas. Ao mesmo tempo em que isso deixava as coisas interessantes, de certa forma deixava sim, também se transformava em uma intensa dor de cabaça. Pincipalmente quando Lucca tinha que inventar desculpas para poder se encontrar com o seu namorado.

Depois da escola ele se encontraria com Dario no campus da universidade federal da cidade, mas primeiro tinha que despistar seus pais sobre isso. Alguns minutos antes do sinal tocar Lucca começou a guardar seu material escolar na mochila e isso chamou a atenção da professora que naquele dia ficou com a última aula da manhã.

— O que você está fazendo Lucca? — perguntou a educadora com seus braços cruzados.

— Guardando meu material. — respondeu Lucca.

— Eu disse que podia? Não, eu não disse que podia. Então coloque tudo sobre a mesa de novo ainda faltam. — olhou para o relógio do seu aparelho celular. — Cinco minutos para a aula terminar.

Lucca soltou um suspiro baixo e deixou seu caderno e estojo sobre a mesa enquanto esperava o sinal tocar para poder pegar sua mochila e sair correndo da sala da aula. Assim que o sinal soou por toda a escola, Lucca guardou seu material escolar o mais rápido que podia deixou aquele lugar, ouviu a professora falar alguma coisa, entretanto preferiu fingir que não escutou nada.

Ficou em frente ao portão da escola, esperando por Arthur. Quando o amiga apareceu entre os demais alunos da sala em que estudava, Lucca foi até ele e segurou seu braço o levando para longe do portão da escola.

— O que tá fazendo? — perguntou Arthur confuso, soltando seu braço das mãos do outro adolescente.

— Preciso da tua ajuda.

— Da minha ajuda?

— Sim. — Lucca olhou para os lados e em seguida baixou o tom de voz. — Eu vou me encontrar com o Dario hoje de tarde e preciso que você minta para mim. Vou dizer para minha mãe que vou estar na tua casa, mas na verdade vou estar na UFSM com o meu namorado.

— Entendi. — sussurrou Arthur.

— Posso contar com você então? — perguntou Lucca esperando.

— Sim, claro. Afinal somos amigos, não? — sorriu Arthur. — Melhor amigos, como irmãos… — continuou a sorrir.

— Certo… — sussurrou o nosso protagonista. — Muito obrigado Arthur. — abraçou o melhor amigo e em seguida pegou o caminho para sua casa.

Arthur ficou por alguns instantes observando o amigo se afastar. Chutou uma pedra para longe, desfez o sorriso que havia em sua face e apertou os lábios. Foi em direção aos seus colegas que o esperavam para irem juntos a qualquer outro lugar antes de cada um ir para seus respectivos lares.

O grupo se dirigiu para o bairro que ficava atravessando a BR, foram até um bar onde o mais alto do grupo de amigos recolheu um pouco de dinheiro de cada um para comprar 2litros de refrigerante e um pacote grande de salgadinho. Ficaram na frente do estabelecimento conversando, entre os assuntos se encontravam temas como videogame, animação japonesa, futebol, garotas e muito pouco entravam nos assuntos da sala de aula que haviam sido tratados naquela manhã.

— E aquele garoto, Arthur? — perguntou um dos garotos, o mais alto do grupo. Chamado Cristian.

— O que tem ele? É meu amigo… — respondeu Arthur enquanto bebia refrigerante. Se encontrava sentado no meio fio da calçada.

— Ele é meio gay. Né? — disse outro garoto rindo, Aloísio, os outros começaram a rir em seguida.

— Onde vocês querem chegar? — perguntou o rapaz de cabelos negros rindo também para esconder que não estava na mesma linha de pensamento deles.

Aloísio sentou ao lado do rapaz e em seguida perguntou em um tom de brincadeira:

— Ele já… Você sabe… Chupou seu pau? — começou a rir depois de fazer a pergunta assim como os demais que estavam ali.

— Vocês são idiotas. — disse Arthur rindo junto, mas queimando por dentro. — Lucca é só meu amigo e eu sou homem. Gosto de mulheres.

— Mas a gente não disse ao contrário. — falou Cristian que em seguida continuou. — A gente só queria saber se esse Lucca aí ele é mesmo, sabe, viado. Ele tem jeito de viado, geralmente a gente só vê ele falando com as meninas. Só curiosidade.

— Entendi. — disse Arthur, em seguida levantou e esmagou o copo de plástico que usava. O jogou na lata de lixo que estava em frente ao bar. — Eu tenho que ir para casa agora, já estou com saudades do meu videogame.

— Vai lá então. — disse Aloísio levantando do meio fio. Ele e Arthur apertaram suas mãos. — A gente se fala mais tarde.

Quando Arthur entrou em seu quarto recebeu uma mensagem de Lucca pelo WhatsApp. O amigo disse que estaria saindo para o campus se encontrar com Dario e que provavelmente a mãe dele iria tentar com falar com ele para saber onde se o filho se encontrava. Arthur respondeu que o combinado entre eles estava tudo certo, deixou o telefone celular de lado e sentou em frente a televisão do quarto. Ligou o videogame, colocou os fones de ouvidos e todo o resto do mundo desapareceu.

O ônibus que ia para o campus da universidade com certeza era o mais infernal da cidade, assim Lucca começou a pensar depois de ter começado a pregá-lo para se encontrar com o namorado. Sempre estava muito cheio e muito quente, muitos odores também fazia parte do pacote, enfim, uma lata de sardinha cheia de peixes fedorentos. Era alegria quando a condução finalmente chegava ao campus da federal, aquele local havia mais verde do que toda a cidade de Santa Maria junta. Lucca ficava mais leve quando sentia a doce brisa agraciada pelas árvores bater em seu rosto.

Antes de pegar o primeiro ônibus havia enviado uma mensagem para o melhor amigo, esperava que tudo ocorresse certo naquela tarde, pois ainda não se sentia preparado para sair do armário para os pais. Dario o esperava na casa do estudante, estava sozinho naquele momento e o seu colega de quarto só retornaria bem mais tarde, por esse motivo convidou Lucca para passar um tempo com ele.

— Oi meu amor. — disse Lucca dando um selinho no namorado assim que entrou na casa do estudante.

— Como você tá? — perguntou Dario correspondendo o selinho. Os dois se dirigiram para o sofá onde ficaram senados um de frente para o outro.

— Bem, só a aula de química que além de eu achar difícil aquele professor é quase impossível. Eu fico louco para falar alguma coisa ou pular no pescoço dele.

— O que ele fez agora? — Dario perguntou rindo.

— Os outros garotos da sala sabem que para ele parar de dar aula e ir para o outro assunto é só perguntar sobre gays, o que ele acha. — soltou um suspiro antes de continuar contando a história. — Hoje ele disse que ser homossexual não é natural por causa dos átomos. Ele disse que dois átomos iguais se repelem e por conta disso ser gay ou lésbica não é natural e a natureza mostra isso.

— Ele só esquece que somos humanos… Com sentimentos e não átomos. — disse o namorado.

— Isso! — disse Lucca em um tom alto. — Odeio aquele homem com todas minhas forças, olha Dario… Eu acho que nunca odiei tanto uma pessoa como com aquele velho asqueroso.

— Tanto ódio pode fazer mal, sabia?

Disse Dario acariciando o braço do namorado, Lucca deu de ombros.

Dario se aproximou de Lucca, lhe dando um selinho que em seguida se transformou em um beijo de verdade. As mãos do universitário exploravam o corpo do namorado, enquanto suas línguas se encontravam dentro de suas bocas. Lucca sentia seu corpo pegar fogo conforme o beijo seguia ambos se colocaram deitados naquele sofá, com Dario por cima do nosso protagonista.

Quando Lucca sentiu o pênis do seu namorado cutucar sua barriga, se afastou rindo e disse:

— Acho que é melhor a gente esfriar um pouco.

— Por quê? — perguntou Dario se aproximando.

— Porque eu ainda não estou me sentindo pronto para isso, Dario.

— Certo. — suspirou o namorado se ajeitando no sofá. — Você é virgem, né.

— Sim. Agora se você quer terminar comigo por isso… — disse Lucca em um tom de brincadeira e rindo.

— Para com isso Lucca. — respondeu Dario rindo também. Em seguida continuou. — Vamos para o bosque do campus? Sentar um pouco na sombra.

O estudante gordinho respondeu com um balançar afirmativo de cabeça.

Sentaram na sombra de uma árvore bem grande, um do lado do outro. Enquanto Dario observava as pessoas irem e virem pelo o caminho do bosque, Lucca, com sua cabeça deitada entre as pernas do outro, brincava com a grama até que decidiu entrar em um assunto.

— Eu quero sair do armário para a minha família. Bem, para a minha mãe primeiro.

— Sério? — perguntou Dario surpreso.

— Sim. É loucura?

— Não, não é. Acho isso muito bom. Eu gostaria de ter coragem de sair do armário para a minha mãe, mas ela é muito religiosa, sabe. Até foi por isso que eu vim cursar universidade longe de casa.

— Entendi…

— Acha que a tua mãe vai reagir como? — perguntou Dario.

— Não sei. Quer dizer, ela é bem religiosa também, mas nunca demonstrou nada extremo. — sorriu para o namorado, em seguida Lucca continua falando. — Eu vou sair do armário para ela e esperar uma semana para contar sobre nós. — tentou sorrir ao terminar a frase, mas esperou para ver a reação do namorado.

— Sobre nós?

— Sim. Eu não quero continuar mentindo, Dario. Não me sinto bem fazendo isso.

— Eu entendo que você não se sinta bem, Lucca, mas…

— Mas? — perguntou o mais jovem enquanto levantava para ficar cara a cara com o seu amante. — Não quer que saibam que estamos juntos Quer dizer, mais pessoas saibam.

— É que meus pais não sabem da minha sexualidade. Eu quero contar eu mesmo, mas com eles, principalmente com a minha mãe, eu tenho que ter tempo para fazer isso. Eu vou voltar para minha cidade natal no final do ano… Por causa do natal e passar a virada com eles. Se tudo estiver eu conto e daí podemos contar para seus pais.

— Tudo bem Dario, eu não quero te forçar a nada.

— Não precisa se preocupar com isso.

Lucca beijou os lábios de Dario com delicadeza e em seguida o abraçou forte, ação retribuída com a mesma intensidade. Se afastaram sorrindo um para o outro, mas continuaram sentados e agora envolvidos em outra conversa.

Quando estava no ônibus indo para o centro da cidade, onde pegaria a condução para o seu bairro, Lucca recebeu uma mensagem de texto da autoria de Arthur. O seu melhor amigo escreveu que a mãe do nosso protagonista foi até a casa do rapaz o procurar e ficou muito brava quando não o encontrou por lá. Lucca sentiu sua espinha gelar. Uma intensa tempestade esperava por ele em sua casa e, então, começou a repensar se queria voltar, poderia chegar ao centro da cidade e esperar pelo o próximo ônibus para o campus da universidade federal.

Deixou a condução e caminhou até um dos bancos da parada de ônibus. Quando observou o céu da cidade percebeu algumas nuvens cinza. Haveria uma tempestade, mas não só na casa do nosso protagonista, todavia em toda a pequena cidade de Santa Maria. Quando o ônibus que vai para o seu bairro estacionou em frente à parada, Lucca nem pensou duas vezes e logo entrou pela a porta aberta. Pagou o cobrador e sentou nos bancos dos fundos.

Seria hoje que sairia do armário? Precisaria sair do armário, poderia esconder a sua mentira com outra mentira mais elaborada. Porém qual seria essa segunda mentira? Tinha uns vinte minutos para pensar até chegar a sua casa.

Era hora de avaliar e foi isso que sua mente fez durante os vinte minutos do centro da cidade até a sua casa, vinte e cinco com o trânsito.

O que poderia acontecer quando saísse do armário para os seus pais, ou só para a sua mãe? Bem, o de pior é ela não o aceitar e o do de extreme pior é ser expulso de casa. A coisa boa seria se ele fosse aceito sem mais perguntas, o que geralmente era difícil de acontecer em suas fantasias. Se fosse expulso de casa teria com quem morar? Não, teria que viver na rua e assim se tornaria só mais uma estatística nesse nosso Brasil.

— Finalmente chegou, né. — disse a mãe de Lucca sentada no sofá assim que o filho entrou pela a porta da frente da casa. — Senta aqui, precisamos conversar. — continuou Julieta.

O adolescente sentou no sofá, ficando de frente para a mãe.

— Em que lugar você estava? — perguntou Julieta.

— Fui na casa de uns amigos, jogar videogame.

— Que amigos? Não me diga que foi na casa do Arthur porque eu sei que não foi, Lucca. Fui até lá e você não estava.

Lucca suspirou e em seguida disse:

— Fui jogar na casa de um amigo, eu não disse que fui no Arthur. Não tenho só ele como meu amigo, tenho outros amigos.

— Que outros amigos?

— Meus outros amigos, mãe…

— Mas eu não os conheço. — disse a mãe em um tom fimre.

— E?

— E? Lucca, eu sou sua mãe. Tenho o direito e o dever de conhecer todos seus amigos, todas as pessoas com quem você anda. Principalmente quando ainda é menor de idade.

— Deixa disso. — disse o filho dando de ombros.

Lucca levanta do sofá, mas Julieta aponta para o móvel e diz:

— Pode voltar a sentar, a nossa conversa ainda não terminou.

Lucca bufou de raiva e voltou a sentar, encarou sua mãe com um sorriso forçado.

— Continuando… Você me disse que passaria a tarde com o Arthur, mas quando eu fui lá te chamar para ir ao supermercado comigo descubro que  mentiu. Você mentiu para mim, Lucca, mentiu para a sua mãe. — suspira e em seguida continua. — Eu fiquei preocupada, Lucca, você tem que entender isso. Não pode sumir assim do nada sem dizer para onde foi, a cidade anda violenta nos últimos anos… Não pode fazer isso.

Aquilo bateu fundo no peito e na mente do nosso protagonista, as palavras da sua mãe haviam feito efeito e mesmo não gostando o seu interior concordava completamente com ela. Mentiu para onde iria, realmente poderia ter lhe acontecido alguma coisa e talvez seus pais nunca soubessem se esse acontecimento hipotético tivesse sido real.

Lucca suspirou e em seguida disse:

— Desculpa, mãe. Eu fui para o campus da universidade federal, eu fui encontrar uns amigos mais velhos. A gente ficou conversando na sombra do bosque e não aconteceu mais nada, além disso. Eu juro.

— Tudo bem, Lucca. Agora pode ir para o seu quarto.

O adolescente sorri e em seguida deixa a sala da casa, vai para o seu quarto onde se joga na cama assim que entra.

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