Boa noite, querido(a) leitor(a)! Hoje é carnaval, e o bloco do Observatório da Escrita acaba de entrar na passarela com um enredo especial: a língua portuguesa. Que venha a comissão de frente!

Segundo estudos linguísticos, inúmeras línguas faladas na Europa e na Ásia teriam-se originado de uma base chamada proto-indo-europeu. Conforme os séculos se passavam e os povos se espalhavam pelos territórios, a língua se desmembrava em novas representações e assim sucessivamente, formando uma enorme e complexa árvore. Os principais troncos ou famílias foram:
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Indo: o sânscrito se destaca neste grupo;
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Helênico: do qual surgiu o grego;
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Germânico: família do alemão, do holandês, do inglês e das línguas escandinavas;
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Céltico: onde estão o irlandês e o gaélico;
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Eslavo: representado por russo, polonês, tcheco e outras dezenas de idiomas;
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Românico: daí surgiu o latim.
O latim possui duas formas básicas. A primeira forma é a clássica, utilizada pela camada erudita da sociedade romana e caracterizada por seis casos de declinação dos nomes (substantivos, adjetivos, pronomes e numerais), além de um sistema verbal diferenciado do que é corrente em português — você já ouviu falar em supino?
A forma vulgar é bem mais simplificada e foi utilizada pelas camadas mais populares. Infelizmente não há registros de sua gramática, já que era uma modalidade predominantemente falada. isto obriga os linguistas muitas vezes a estimar a evolução das palavras do clássico para o vulgar.
Através da expansão territorial e política do Império Romano por boa parte da Europa, o latim se modificou através de influências sociais e culturais de cada localidade, e assim surgiram as línguas neolatinas: francês, provençal, italiano, romeno, catalão, espanhol/castelhano, galego e português, entre outros menos populares. A nossa língua se originou graças às misturas entre o galego e o romanço — língua com tendências árabes decorrentes da dominação dos mouros na Península Ibérica durante a Idade Média e que surgiu do idioma moçárabe.
O primeiro texto conhecido atualmente em língua portuguesa (numa forma ainda muito próxima do galego) data de aproximadamente 1189. No decorrer do século XIV, o idioma sofre as primeiras modificações e se distancia cada vez mais do galego, até o primeiro auge no século XVI. Em 1536, o padre Fernão de Oliveira lança a primeira “grammatica” daquela que seria nosso maior bem cultural.
Em 1500, os portugueses desembarcaram no Brasil e tomaram contato com os indígenas; depois vieram os africanos durante os séculos de escravidão; as invasões culturais francesa, inglesa e estadunidense; as imigrações de povos de toda parte — japoneses, italianos, russos, alemães etc.; a globalização, a internet e a computação. Tudo isso foi e continua sendo responsável por modificar e renovar o português e a dar-lhe o formato atual.
O português também foi levado a diversos países da África, da Ásia e da Oceania. Não à toa, é a quinta língua mais falada do mundo. Considerada difícil por muitos terráqueos devido à complexidade gramatical e vocabular, ainda assim é muito admirada pela beleza de sua forma e pela sonoridade, seja no dialeto brasileiro, seja no euro-africano. Artistas famosos como Laura Pausini, J.K. Rowling, Ricky Martin e Shakira falam português fluentemente.
Ala das Cantigas
No final do século XII, Portugal vivia uma tendência literária chamada Trovadorismo. Em poucas palavras, era um estilo marcado por poemas cantados (as trovas) por cavalheiros doidos pra conquistar belas damas em serenatas à janela. A mais antiga já descoberta em galego-português se chama Cantiga da Ribeirinha. Segue um trecho:
No mundo non me sei parelha,
mentre me for’ como me vai,
ca ja moiro por vós – e ai!
mia senhor branca e vermelha,
Queredes que vos retraia
quando vos eu vi em saia!
Mao dia me levantei,
que vos enton non vi fea!
Uma moça do século XXI certamente se sentiria ofendida ou estranha ao ouvir uma música com esta letra. Lá vai a tradução para o português atual:
No mundo ninguém se assemelha a mim,
Enquanto a vida continuar como vai,
Porque morro por ti — e ai!
Minha senhora branca e de bochechas rosadas,
Queres que te retrate
Quando eu te vi sem manto!
Maldito seja o dia em que me levantei,
E então não te vi feia!
Lindo, não? As mulheres do século XII adoravam. Por outro lado, nem todas as cantigas eram tão românticas assim. Para fazer escárnio contra alguma donzela “mimizenta”, o trovador lançou a seguinte pérola:
Original:
Ai dona fea, fostes-vos queixar
que vos nunca louv’en[o] meu cantar;
mais ora quero fazer um cantar
em que vos loarei todavia;
e vedes como vos quero loar:
dona fea, velha e sandia!
Tradução:
Ai, dona feia, foste queixar-te
que nunca te louvei em meu cantar;
mas agora quero fazer um cantar
em que te louvarei de qualquer maneira;
e vês como te quero louvar:
dona feia, velha e maluca!
Ala dos Conquistadores
Em 1500, Pedro Álvares Cabral e sua equipe desembarcaram no Brasil e conquistaram as terras até então habitadas pelos indígenas. Ficou a cargo do escrivão Pero Vaz de Caminha o desenvolvimento de uma carta aos reis de Portugal. Nela, Caminha narrou os primeiros dias na nova terra e tudo que ali existia. Segue um trecho:

Entendeu a mensagem? A língua já se parecia um pouco mais com a que utilizamos hoje, é fato; mas ainda tinha muitas diferenças. Repare na exótica forma jnoramçia. (ignorância). Não aparece nenhum acento, mas a letra Y faz a festa no texto.
Ala das Gramáticas
Uma gramática do século XVI e outra do século XIX. Compare os escritos nas folhas de rosto.
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Ala dos Povos
Como dito antes, o português sofreu influência de diversos povos e línguas, conforme a realidade mudava no decorrer dos mais de 800 anos. Segue uma lista de palavras que utilizamos hoje em dia.
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Origem |
Exemplos |
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Línguas indígenas |
Sergipe, carioca, tucano, capivara, perereca, piranha, cupim, gambá, abacaxi, guaraná, mandioca, tapioca, pipoca, Piauí. |
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Línguas africanas |
Acarajé, Iemanjá, axé, moqueca, farofa, samba, fubá, dendê, cochilar, quilombo, senzala, bunda, zumbi, camundongo, jabá. |
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Francês |
Abajur, ateliê, batom, champagne/champanha, champignon, chantilly, crepe, filé, maionese, menu, omelete, purê, vanguarda. |
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Inglês |
Jeans, mouse, notebook, link, futebol, handebol, basquete(bol), vôlei, short, game, layout, know-how, coach, OK, sanduíche. |
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Alemão |
Blitz, diesel, kitsch, química, guerra, cobalto, chique, encrenca, hamster, níquel. |
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Italiano |
Pizza, palhaço, espaguete, adágio, ária, tenor, violino, violoncelo, banquete, arlequim, soprano, talharim, salsicha, mortadela. |
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Russo |
Vodca, estrogonofe, balalaica, bolchevique, menchevique, matriochka, czar/tsar, tundra, mamute, taiga, beluga, cosmonauta. |
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Árabe e Persa |
Sofá, azulejo, açúcar, açougue, almoxarifado, papagaio, álgebra, aritmética, açafrão, azeitona, javali, Islã, mesquita, limão, harém. |
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Japonês |
Sushi, quimono, haraquiri, judô, caratê, mangá, biombo, sashimi. |
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Grego |
Hegemonia, misógino, sinônimo, filosofia, apologia, sintetizar, êxtase, critério, colosso, democracia, antagonista, planeta, zelo. |
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Outras |
Taekwondo (coreano), bolero (espanhol), sapatilha (polonês), amém (hebraico), nanquim (mandarim), avatar (sânscrito). |
Ala da Ortografia
Adaptações populares e reformas político-linguísticas modificam, de vez em quando, a forma de escrevermos as palavras. Seguem algumas curiosidades ortográficas e fonético-fonológicas no passar dos séculos.
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No século XIII, o qu tinha som de k. Exemplo: nunquam era pronunciada como /núnkam/. A letra u nunca era pronunciada neste grupo;
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Entre os século XV e o início do XX, era comum ocorrer agrupamentos de letras como th, ph, rh, gm, pt, ct e mpt nas palavras de origem grega ou latina. Exemplos: prompto (pronto), pharmacia (farmácia) e rhetorica (retórica). Também era comum o uso do Y, como em estylo;
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Em meados do século XX, a maioria das consoantes combinadas postas acima desapareceram. Poucas se mantiveram no dialeto português, como em óptimo, mas caíram em desuso praticamente total no Brasil. Já o acento diferencial era uma febre: havia diferença, por exemplo, entre a palavra cor (saber de cor = ter algo memorizado) e côr (azul, amarelo, vermelho etc.). A letra Y deixou o alfabeto e passou a integrar somente palavras estrangeiras;
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Na reforma de 1973, os acentos diferenciais se reduziram a um número muito pequeno de casos. Na reedição seguinte, de 1990–2009, a abolição foi ainda maior;
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Também em 1990–2009, o trema foi extinto da língua portuguesa (a não ser em estrangeirismos), as mudanças no uso do hífen deixaram muita gente com os cabelos em pé, fez com que palavras como joia (ditongo aberto na paroxítona) não fosse mais acentuadas e reintegrou o Y (além de K e W) ao alfabeto oficial.

Por enquanto é só. O desfile do Observatório pela passarela termina por aqui, mas daqui a pouco entra a Unidos do Backstage. Espero você!







