Olá, querido leitor! Olá, querida leitora!
O Observatório da Escrita está no ar em um clima bucólico bem agradável — só que não (risos). Hoje o terror vai comer no programa. Prepare-se para uma temporada inesquecível e pavorosa de A Fazenda… e não é na Record TV.
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Há cerca de três meses, Melqui Rodrigues “deu à luz” seu mais novo conto de terror, A Fazenda. Rolou até um diário de produção posterior à obra, também exibido aqui na Widcyber. O autor diz ter se baseado em histórias que o povo conta sobre uma fazenda pra lá de mal-assombrada. Além disso, é óbvio, colocou requintes de crueldade que são características de outros títulos de sua autoria, como em Estéfany e Vale Dicere. Vamos acompanhar os principais acontecimentos da história.
Parque da Barragem, divisa do Distrito Federal com Goiás, 1991. Bianca e Jeferson, recém-casados, acabam de se mudar para uma enorme fazenda. Enquanto ele procura um emprego na região, a esposa recebe a visita de Estêvão, um cavaleiro, que lhe diz sobre os mistérios que pairam sobre o local, como a presença de espíritos malignos e a prática de magia negra no terreno. A princípio, ela não dá atenção, mas as coisas começam a mudar quando ela encontra uma galinha morta à sua porta. É o bastante para Jeferson mudar completamente e se tornar alcoólatra e violento. Chega a agredi-la diariamente e rejeita a gravidez da moça. Até que, um dia, uma velhinha adverte sobre uma “morte no banheiro”. Dito e feito: não suportando os maus-tratos e sabendo que não consegue ajuda naquele lugar esmo, Bianca decide acabar com a vida do marido com golpes de machado, após fingir seduzi-lo com carinhos e cuidados. De fato, os espíritos manipulam a vida de todos que se mudem para a fazenda a fim de destruí-los e de manter o ambiente macabro.
Anos depois. Luís se muda com a família para a mesma casa. Nenhum deles conhece a história do passado. Nada acontece de estranho, até que Sandra, a esposa, também tem um encontro com Estêvão, a quem também não dá ouvidos. Até que a menina Júlia tem sensações e ouve chamados, como na cena em que é atraída para um armário enquanto procura a boneca favorita, Sofia. Abre o móvel… e se assusta com a “amiga” enforcada e com um sinal de cruz invertida. A culpa recai nos irmãos mais velhos, Alex e Gustavo. Estes passam a sofrer na escola pelo fato de morarem na casa mal-assombrada. Os colegas praticam bullying contra o mais novo, e assim Alex se envolve em brigas para defender o outro. Mais tarde, Gustavo também fica horrorizado com uma musiquinha à la Poltergeist — sim, aquele clássico dos anos 80 tão macabro que matou o elenco na vida real.
“Um, dois… Não olhe pra trás.
Três, quatro… Correr não adianta mais…”
Aí me lembro daquele outro “chiclete”, do conto Os Estranhos Sussurros do Internato Santa Helena:
“Um, dois, três… Bate na parede!”
Voltando à Fazenda, os seres do mal começam a assustar as crianças em plena noite. Luís e Sandra tentam afastá-los, sem sucesso. Sabe ela que precisa da ajuda do pastor Alfredo, da igreja que eles frequentam — são mais religiosos que Bianca e Jeferson e, portanto, mais resistentes que estes. Após mais um episódio em que Gustavo tem uma convulsão na escola durante uma aula de números — a professora ensina de um jeito que o faz lembrar a maldita canção —, a família tem mais uma visita dos fantasmas. Desta vez, eles mantém Luís afastado da casa, trabalhando até bem depois do expediente. Com isso, ameaçam matar Júlia com pedaço de garrafa quebrada e estuprar Sandra. Alex e Gustavo fogem, mas acabam se perdendo um do outro. É quando o mais velho fica possuído pelo mal. Ao voltar para casa, praticamente ao mesmo tempo que Luís, jura destruir os familiares e o pastor, levado até lá por Gustavo. Como Luís está blindado espiritualmente, o maldito não pôde usá-lo contra Sandra como fez com Jeferson e Bianca, então se apropriou do filho revoltado. O confronto entre Alex, Luís e Alfredo leva a uma nova tragédia, que só é resolvida, já muitos anos depois, por Júlia. E a fazenda é demolida.
A Fazenda está escrita em formato narrativo, dividido em três atos. O primeiro tem Bianca como protagonista; a família de Luís se destaca nos outros dois. A descrição dos personagens é feita de forma mais direta nos dois personagens centrais do início e no pastor da fase de 2001; outros são mostrados de forma mais diluída, portanto mais fluida e interessante do ponto de vista literário, pelo menos a meu ver. Destaco as construções de Bianca e Sandra, além de Júlia, a quem considero a grande heroína do conto, o que é sinalizado mais ao final.
As descrições vêm numa linguagem simples e direta, sem “enrolações”, e o autor também prefere, neste conto, não mastigar muito os estados de alma e os pensamentos dos personagens. É o estilo do Melqui, e funciona na maior parte da obra. Porém, houve trechos em que ele acelerou tanto a narração que me deixou um tanto confuso, como em passagens de tempo. Nada que um novo parágrafo ou uma ou duas frases a mais não resolvam. Inadequações gramaticais também estão presentes, como na grafia do nome da boneca com inicial minúscula (“sofia”) e na falta ou excesso de algumas vírgulas em meio aos diálogos, por exemplo. No mais, um texto bem escrito e formulado. As ideias se encaixam do início ao fim. Se há pontas soltas, elas são poucas e não comprometem no enredo nem no suspense. As sequências em que as personagens encontram cuias com velas ou bichos mortos arrepiam até os leitores mais frios. Isso sem falar nos banhos de sangue e nas partes em que Sandra e Bianca tentam lavar o sangue do banheiro. De dar calafrios.
A cereja do bolo? As musiquinhas que Melqui põe pra tocar complementam a obra que se propôs a contar. Sem elas, torna-se apenas Um Pouco da Fazenda.
Gostou de A Fazenda? Para ler ou reler, clique aqui e se divirta.
próxima resenha
O Observatório da Escrita fica por aqui. Espero você no próximo programa. Até lá!





