CENA 01. IGREJA CATÓLICA. INT. NOITE.

Continuação da última cena do capítulo anterior. Armando se impressiona com Gioconda e a olha com malícia. CLOSES alternados entre os dois. Depois CAM retorna pra ele e Wilson, que cochicham.

ARMANDO
Helena tem motivos pra odiá-la tanto. É uma bela mulher. Tenho planos de aproximar Gioconda de nossa família.

WILSON
Através do Carlos? Ele vai se casar…

ARMANDO
Quem disse que ela vai ficar com meu filho? Ela ficou viúva há pouco tempo. Perfeita para ser minha nova amante. Ou, quem sabe, algo mais.

WILSON
Se a Soraya ouve…

ARMANDO
Soraya não precisa saber. Não devo satisfações a mulheres. Elas são bichos inferiores, lembre-se. Elas nos devem a vida delas, e não o contrário.

CENA 02. RUA. CARRO ESTÊVÃO. EXT. NOITE.

Jairo dirige. Amanda e Estêvão sentados lado a lado. Ela parece desligada do mundo.

JAIRO
Está bem, Amanda?

AMANDA
Como posso estar bem numa hora dessa?

JAIRO
Desculpe. Só fiquei preocupado.

ESTÊVÃO
Se dependesse de nós, Amanda viveria livre e feliz. Mas a Helena venceu de novo, e agora estamos todos impotentes diante de mais um capricho dela. Ela já escolheu um marido pra Leila também.

HELENA
Por que ela tem que transformar a vida de todo mundo num inferno? Por que tem que culpar a todos pelo fracasso que é vida dela?

ESTÊVÃO
Já me perguntei várias vezes, filha. Sua mãe é assim, e temos que aceitar.

HELENA
Não, não temos que aceitar! Ela é que tem que acordar pra realidade e ver que o mundo não gira em torno dela mesma.

CENA 03. MATERNIDADE. ARQUIVO. INT. NOITE.

Sandro e Jô entram com um arquivista e com uma secretária. Andam pelo corredor formado entre dois grupos de armários.

ARQUIVISTA
Temos registros de todos os nascimentos, desde que o hospital foi inaugurado em outubro de 83.

SANDRO
Pouco antes de eu nascer.

ARQUIVISTA
Isso mesmo! Provavelmente está na primeira gaveta.


O que estamos esperando?

CORTA. O arquivista abre a primeira gaveta. Seleciona o separador com o escrito “03/1984” e verifica as fichas seguintes uma a uma. Os nomes estão em ordem alfabética.

CENA 04. IGREJA CATÓLICA. INT. NOITE.

Grande movimentação de personagens à frente do altar. CAM em Helena e Soraya.

HELENA
Amanda está demorando demais.

SORAYA
Ela é a noiva. Tem que demorar mesmo. Dá mais emoção.

HELENA
Só se for de raiva. Vou esperar só mais dez minutos, ou mando os seguranças caçarem essa irresponsável, nem que eu tenha que…

ZILDA (aproxima-se, corta)
Helena, aqui não é lugar! Tenha compostura.

HELENA
Eu sou a única aqui dentro a ter compostura, e você sabe muito bem. Por que não faz algo de útil uma vez na vida e coloca a rapariga da Gioconda pra fora?

ZILDA
Olha como fala…

HELENA (tom)
Agora!

SORAYA
Deixa que eu vou, Zilda. Sua filha ficou insuportável.

HELENA
Já vai tarde!

Soraya começa a andar em direção a Gioconda, quando surge uma moça apressada no corredor do meio.

MOÇA
A noiva chegou!

Música: Marcha Nupcial – Mendelssohn. Todos se colocam rapidamente nos seus postos. Quem estava sentado nos bancos se levanta. Estêvão e Amanda surgem na porta e entram lentamente. Ela transmite um olhar mórbido. CLOSES alternados entre Amanda, Carlos Eduardo, Armando e Helena.

Ao chegar ao altar, Estêvão entrega Amanda a Carlos Eduardo e se afasta. Os noivos se viram para o padre. Estêvão vê Gioconda presente.

CENA 05. MATERNIDADE. ARQUIVO. INT. NOITE.

O arquivista encontra um registro com o nome de Sandro.

ARQUIVISTA
Aqui está! Um bebê com o nome de Sandro, nascido em março de 84.

SANDRO
O que tem escrito aí?

ARQUIVISTA
Vejamos. (pega a ficha) Não tem sobrenome. Que estranho! Nascido em 6 de março, às nove da noite. Louro de olhos azuis. Provavelmente já nasceu com eles abertos, o que era raro na época… A mãe se chamava Débora, que foi atendida às pressas sem deixar documentos.


Vocês atendem pacientes sem identificação?

SECRETÁRIA
Talvez fosse uma situação de urgência. Muitas vezes aparecem moças que já estão dando à luz, e que não podem esperar pela burocracia. Então fazemos a ficha depois do parto.

ARQUIVISTA
Só que a moça logo fugiu do hospital com o bebê. Notem aqui embaixo a ocorrência do fato.

SANDRO
Essa Débora fugiu e me deixou na porta do meu pai.


Se é que ela se chamava Débora mesmo. Pode ter inventado pra se safar de alguma coisa. E tem mais: com a ajuda de algum médico ou enfermeira que trabalha ou trabalhava aqui na maternidade.

SANDRO
Pelo menos já descobri onde nasci. Esse Sandro só pode ser eu.


Não tem como nascerem dois Sandros de olhos azuis no mesmo dia. Ah, mas agora é uma questão de honra saber quem foi a safada que te jogou fora como se fosse um bicho. (ao arquivista) Tem o nome do pai aí?

ARQUIVISTA
Não. Pai desconhecido.


Isso tá muito esquisito. Minha intuição me diz que sua mãe engravidou sem querer e quis se livrar de você. Típico de meninas que se fazem de santas para as famílias, mas que andam escondidas com tudo que é homem. Todo dia publico histórias assim. (ao arquivista) Posso ficar com uma cópia?

CENA 06. MATERNIDADE. FRENTE. EXT. NOITE.

Sandro e Jô andam pela rua em frente ao hospital.

SANDRO
Seja quem for, ela não perde por esperar.


Pra mim isso não é mãe. Tantas mulheres querendo engravidar e ter filhos saudáveis, e outras desperdiçando a oportunidade.

SANDRO
Pelo menos ela me deixou com alguém que me deu amor, proteção e dignidade. Ainda assim, mesmo que diga que não podia me criar e faça drama, não vou perdoar essa mulher.


Eu também não perdoaria. Ainda mais que ela não deixou nome, endereço, nada pra você. Agiu por egoísmo.

CENA 07. CASA NOÊMIA. SALA. INT. NOITE. (SONHO)

Sonoplastia: suspense. Noêmia entra em casa com duas sacolas de supermercado e com a bolsa. Põe tudo sobre o sofá.

NOÊMIA
Filha, cheguei! (nenhuma resposta) Alice? Já deve estar dormindo. Vou lá ver.

Vai em direção ao corredor.

CENA 08. CASA NOÊMIA. QUARTO ALICE. INT. NOITE. (SONHO)

Sandro e Alice, totalmente vestidos, deitados na cama. Beijam-se ardentemente. Noêmia abre a porta. Dá um grito ao ver Sandro. O casal para se de beijar e olha a reação da outra.

NOÊMIA
O que faz na minha casa, maldito?

SANDRO
Quero justiça! Lembra do bebê que você ajudou uma mulher a se livrar naquela noite? Quer sua filha em casamento. (gargalha)

Noêmia mais apavorada. Tensão. CLOSE. Ela grita de forma ainda mais estridente. A sonoplastia para.

CENA 09. CASA NOÊMIA. SALA JANTAR. INT. NOITE.

Noêmia, que dormia debruçada sobre a mesa, acorda com um grito. Está assustada. Zoraide entra e a acode.

ZORAIDE
O que houve, amiga? Tava te esperando pra ver o final da novela, mas…

NOÊMIA
Eu cochilei e tive um pesadelo horrível.

ZORAIDE
Que pesadelo?

NOÊMIA
Sobre o que fiz quando era enfermeira. O bebê daquela mulher voltava para se vingar de mim, usando a Alice.

ZORAIDE

Como assim o bebê? A gente sabe que ele morreu poucos dias depois, não foi?

NOÊMIA
Era o Sandro.

ZORAIDE
O Sandro o quê?

NOÊMIA
Que se passava pelo bebê no pesadelo. Se antes já não gostava dele, agora confio muito menos. Alice vai ter que ficar longe desse sujeito, ou…

ALICE (entra)
Ainda aqui, Zoraide. Boa noite, mãe! Que cara é essa?

NOÊMIA (disfarça)
Cara de coisa nenhuma. Só cochilei e tive um pesadelo.

ALICE
Vou fingir que acredito. Hoje foi dia de trabalheira. Tô supercansada, e só quero a minha cama. Boa noite, mãe! Boa noite, Zoraide!

NOÊMIA
Dorme bem, filha.

ZORAIDE
Sonha com o San… com os anjos.

Alice beija o rosto de Noêmia e sai. Noêmia encara Zoraide.

CENA 10. IGREJA CATÓLICA. INT. NOITE.

O padre continua a celebrar o casamento de Amanda e Carlos Eduardo.

PADRE
É de livre espontânea vontade que você, Amanda, aceita se casar com Carlos Eduardo?

Helena lança um olhar ameaçador a Amanda.

AMANDA
Sim. Aceito.

PADRE
É de livre espontânea vontade que você, Carlos Eduardo, aceita se casar com Amanda?

Silêncio. Carlos Eduardo não esboça nenhuma reação. Olha pra trás, para ver Gioconda. Volta logo para o padre.

PADRE
Vou repetir. É de livre espontânea vontade que você, Carlos Eduardo, aceita se casar com Amanda?

Mais um tempo de silêncio.

ARMANDO
Carlos Eduardo, responde!

CARLOS EDUARDO (após mais um tempo de silêncio)
Não!

Reação de escândalo entre todos os presentes. Amanda olha para o noivo, chocada. Ao lado de Vicky, o fotógrafo passa a registrar imagens.

ARMANDO
Como ousa?

CARLOS EDUARDO
Não quero mais participar desse teatro imbecil, apenas pra manter o seu nome e o da Helena. Me desculpa, Amanda.

Ele se vira de costas. Armando tenta segurá-lo, mas Wilson o impede. Carlos Eduardo sai pelo corredor central, olhando Gioconda rapidamente.

HELENA (grita com Amanda)
O que tá esperando, sua idiota? Vai buscar seu noivo!

AMANDA
Não, eu não vou! Também não queria essa palhaçada criada por você, mamãe.

CAM em Bruno e Gioconda.

BRUNO
Não poderiam fazer coisa melhor. Ou logo o casamento deles ficaria igual à relação dos pais.

GIOCONDA
Tenho que concordar com isso.

BRUNO
Sem falar que o noivo tá caidinho por você.

GIOCONDA
Eu jamais ficaria com um rapaz da idade dele.

BRUNO
Nunca diga nunca. A gente não sabe o dia de amanhã.

GIOCONDA
Ele é só um noivo inconformado. E pelo visto a noiva também não queria se casar.

CAM em Helena, Amanda, Zilda e Soraya.

HELENA
Seu filho me paga, Soraya! Se eu botar as mãos nele…

SORAYA
Você não vai fazer nada! Ou eu conto sobre a… você sabe.

ZILDA
Parem de discutir dentro da igreja!

AMANDA
Deixa, vovó. Discutir e impor são as únicas coisas que mamãe sabe fazer.

HELENA
Quando chegarmos em casa, vamos ter uma conversa muito séria, garota.

AMANDA
Não vou pra casa. Tenho mais o que fazer, mamãe!

Amanda se vira para ir embora. Helena a puxa pelo vestido e rasga a manga direita. Amanda dá uma única olhada para a mãe e depois segue caminho. Estêvão se aproxima.

ESTÊVÃO
Está vendo o que fez, Helena?

HELENA
Não! Estou vendo o que você fez, calhorda!

Ela se aproxima de Gioconda. Estêvão segue Helena.

ESTÊVÃO
Não seja ridícula!

HELENA
Escuta aqui, sua vagabunda. Não vou mais permitir que você se meta na minha vida. Ou some de vez, ou eu mesma te mato.

BRUNO
Helena, estamos numa igreja. Deveria manter a educação.

HELENA
Não estou falando com você, seu verme!

GIOCONDA
Pro seu governo, fui convidada pela família do noivo. Ou melhor, por ele mesmo. Não esperava ver grande coisa, mas o Carlos Eduardo me surpreendeu. Se livrou da pior sogra do mundo. Aliás, nem mãe você consegue ser.

HELENA
Olha como fala! Você não tem moral pra falar de mim. Eu tentei criar três muito bem…

GIOCONDA
Tenho pena dos seus filhos. Quando eles souberem…

HELENA
Cala a boca, maldita!

Helena levanta a mão pra dar um tapa em Gioconda, mas Bruno se põe na frente e é atingido. Vicky e o fotógrafo registram a cena.

CENA 11. IGREJA CATÓLICA. FRENTE. CARRO ESTÊVÃO. EXT. NOITE.

Jairo cochila no banco do motorista. Amanda se aproxima e entra no carro. Ele acorda.

JAIRO
Amanda?

AMANDA
Me leva embora daqui. Vamos, Jairo!

JAIRO
E o seu noivo?

AMANDA
Não tem mais noivo. Some comigo daqui!

Ele liga o carro e parte de onde está.

CENA 12. IGREJA CATÓLICA. SACRISTIA. INT. NOITE.

Zilda e Leila conversam com o padre.

ZILDA
Estou tão envergonhada. Minha filha não sabe controlar o temperamento quando é contrariada.

PADRE
Imaginei. Dona Helena precisa de ajuda e de muita oração.

ZILDA
Ela tem saído de si, desde que uma mulher do passado retornou.

LEILA
Gioconda é o nome dela.

ZILDA
E ela guarda rancor de todos aqueles que se relacionam com a Gioconda. Meu genro, mesmo. O casamento nunca foi feliz. Tenho medo do que ela pode fazer com o Carlos Eduardo, agora que descobriu que ele convidou a rival.

LEILA
Isso sem falar no Armando.

PADRE
O pai do noivo?

ZILDA
Sim. Um homem muito poderoso…

LEILA
Machista, preconceituoso, que trai e despreza a mulher. Seria um erro se o Carlos Eduardo e a Amanda se casassem pra agradar ao orgulho da minha mãe e à soberba do Armando.

CENA 13. IGREJA CATÓLICA. INT. NOITE.

Armando e Wilson conversam acaloradamente. Soraya observa os dois.

ARMANDO
Meu filho não podia ter me dado uma vergonha tão grande. O que a sociedade vai pensar de mim?

WILSON
Você não teve culpa. Sabe que ele é dado a caprichos, assim como a Amanda. Soraya deve ter buzinado besteiras no ouvido dele. Isso sem falar na Gioconda.

ARMANDO
É, ele ficou muito impressionado com ela. Não podemos permitir que se aproximem.

WILSON
Como vamos fazer isso, Armando?

ARMANDO
Já tenho um plano. Helena me sugeriu algo que posso usar agora. Carlos Eduardo vai se arrepender do dia em que nasceu.

SORAYA (encara Armando)
O que pensa que vai fazer?

ARMANDO
Deserdar o maldito do seu filho.

SORAYA
Não ouse em tirar um centavo do Carlos Eduardo, ou eu termino de acabar com sua reputação. Ouviu bem?

Efeito de fim de capítulo: imagem congela em Armando; FADE TO BLACK. Sonoplastia: vento.

A Widcyber está devidamente autorizada pelo autor(a) para publicar este conteúdo. Não copie ou distribua conteúdos originais sem obter os direitos, plágio é crime.

Pesquisa de satisfação: Nos ajude a entender como estamos nos saindo por aqui.

Leia mais Histórias

>
Rolar para o topo